                    OSCAR WILDE


                    O RETRATO DE DORIAN GRAY


                    COLECO NOVIS


                    BIBLIOTECA VISO - 7


                                Digitalizao e Arranjo


                                Agostinho Costa


Oscar Wilde, que se notabilizou sobretudo como dramaturgo,
escreveu um nico romance, O Retrato de Dorian Gray, obra que
causou escndalo e controvrsia na Inglaterra vitoriana.
Dorian Gray  um homem rico que vende a alma em troca da
juventude eterna. A passagem do tempo no lhe altera a bela
aparncia, enquanto o seu retrato mgico envelhece e revela a
decadncia interior. Expressando as preocupaes estticas e
os paradoxos morais de Wilde, a narrativa constitui uma
reflexo sobre o envelhecimento, o prazer, o crime e o
castigo.


                    NOTA BIOBIBLIOGRFICA


  OScAR WIlDE, nome por que se tornou conhecido Oscar Fingal
OFlahertie Wills, nasceu em Dublin em 16 de Outubro de 1854.
Estudou na Faculdade de Trinity em Dublin e depois na de
Magdalen, em Oxford, onde ganhou o prmio New-digate com o seu
poema Ravena (1874). Depois de terminar os estudos, instala-se
em Londres. Com o seu talento e encanto pessoal em breve se
destaca no mundo literrio londrino como ensasta e poeta.
  Depois da publicao do seu primeiro livro de poesia Poemas
(1881), viaja at aos Estados Unidos. Ao chegar  alfndega de
Nova Iorque, declara: "No tenho nada a declarar excepto o meu
gnio."
  Depois de dois anos em Paris, casa com Constance Lloyd de
quem tem dois filhos.
  Entre 1887 e 1889 dirige a revista feminina The Woman's
World. Deste perodo fazem parte os seus contos reunidos em O
Prncipe Feliz, os dois volumes de crnicas e histrias, O
Crime de Lord Arthur Saville e Uma Casa de Roms e o seu nico
romance O Retrato de Dorian Gray. Em 1892 foi levada  cena a
sua pea O Leque de Lady Windermere, em 1893 estreou-se Uma
Mulher sem Importncia e dois anos depois Um Marido Ideal. A
pea Salom, escrita em francs, foi representada em Paris por
Sarah Bernhard e posteriormente traduzida para ingls por Lord
Alfred Douglas. O pai deste, marqus de Queenberry,
desaprovando a estreita amizade do filho com Wilde, insultou
publicamente o escritor. Isto iniciou uma srie de
acontecimentos que levaram  condenao de Wilde por
homossexualidade.
  Permaneceu dois anos na colnia penal de Reading, onde
escreveu uma longa carta a Lord Alfred, publicada em parte em
1905 com o ttulo De Profundis.
  Ao sair da priso, arruinado, viu-se reduzido a viver da
caridade dos amigos em Itlia e em Frana. Aqui escrever a
sua obra famosa A Balada do Presdio de Reading (1898),
inspirada na sua experincia na priso. No exlio adoptou o
nome Sebastien Melmoth, personagem de Melmoth the Wanderer, de
Maturin. Morreu em Paris em 1900.


                    Obras mais importantes:

          Ravena (1874);
          Poemas (1881);
          A Duquesa de Pdua (1883);
          O Prncipe Feliz (1888);
          Uma Casa de Roms (1891);
          O Crime de Lord Arthur Saville (1891);
          O Retrato de Dorian Gray (1891);
          Intenes (1891);
          Salom (1891);
          O Leque de Lady Windermere (1892);
          Uma Mulher sem Importncia (1893);
          Um Marido Ideal (1895);
          A Balada do Presdio de Reading (1898);
          A Importncia de Se Chamar Ernesto (1898);
          De Profundis (1905).



                    Ttulo Original:


                    The picture of Dorian Gray


                    Traduo de:


                    Maria de Lurdes Sousa Ruivo



                    Abril Controljornal


                    Publicao Maro de 2000



  O artista  o criador de coisas belas.
  O objectivo da arte  revelar a arte e ocultar o artista.
  O crtico  aquele que sabe traduzir de outro modo ou para
um novo material a sua impresso das coisas belas.
  A mais elevada, tal como a mais rasteira, forma de crtica 
um modo de autobiografia.
  Os que encontram significaes torpes nas coisas belas so
corruptos sem seduo, o que  um defeito.
  Os que encontram significaes belas nas coisas belas so os
cultos, Para esses h esperana.
  Eleitos so aqueles para quem as coisas belas apenas
significam Beleza.
  Um livro moral ou imoral  coisa que no existe. Os livros
so bem escritos, ou mal escritos. E  tudo.
  A averso do sculo XIX pelo Realismo  a fria de Caliban
ao ver a sua cara ao espelho.
  A averso do sculo XIX pelo Romantismo  a queixa de
Caliban por no ver a sua cara ao espelho.
  A vida moral do homem faz parte dos temas tratados pelo
artista, mas a moralidade da arte consiste no uso perfeito de
um meio imperfeito. Nenhum artista quer demonstrar coisa
alguma. At as verdades podem ser demonstradas.
  Nenhum artista tem simpatias ticas. Uma simpatia tica num
artista  um maneirismo de estilo imperdovel.
  Um artista nunca  mrbido. O artista pode exprimir tudo.
  Sob o ponto de vista da forma, a arte do msico  o modelo
de todas as artes. Sob o ponto de vista do sentimento,  a
profisso de actor o modelo.
  Toda a arte , ao mesmo tempo, superfcie e smbolo. Os que
penetram para alm da superfcie, fazem-no a expensas suas. Os
que lem o smbolo, fazem-no a expensas suas.
  O que a arte realmente espelha  o espectador, no a vida.
  A diversidade de opinies sobre uma obra de arte revela que
a obra  nova, complexa e vital.
  Quando os crticos divergem, o artista est em consonncia
consigo mesmo.
  Podemos perdoar a um homem que faa alguma coisa til,
contanto que a no admire. A nica justificao para uma coisa
intil  que ela seja profundamente admirada.
  Toda a arte  completamente intil.



                         Captulo I



     Por todo o atelier pairava o aroma intenso das rosas e
quando a branda aragem estival corria por entre as rvores do
jardim, entrava pela porta a fragrncia carregada do lils, ou
ainda o perfume delicado do espinheiro de florao rsea.
Estendido no div de bolsas de seda persas, a fumar, como era
seu costume, cigarro aps cigarro, Lord Henry Wotton s
conseguia vislumbrar do seu canto as flores adocicadas e cor
de mel de um laburno, cujos ramos trmulos pareciam mal poder
suportar o peso de beleza to fulgurante. De vez em quando,
atravs dos cortinados de tussor de seda que cobriam a enorme
janela, via passarem velozes as sombras fantsticas das aves,
que produziam como que um momentneo efeito japons, o que o
levava a pensar naqueles pintores de Tquio, de rostos cor de
jade e plidos, que, servindo-se de uma arte que 
necessariamente imvel, procuram transmitir a sensao de
rapidez e movimento. O zumbido lento das abelhas, que abriam
caminho por entre a relva crescida, ou voavam com montona
insistncia  volta das hastes douradas e poeirentas de uma
madressilva desgarrada, parecia tornar o silncio mais
opressivo. Ao longe, os vagos rudos de Londres soavam como o
bordo de um rgo longnquo.
  No centro do atelier, afixado a um cavalete vertical, estava
o retrato em corpo inteiro de um jovem de beleza invulgar. 
sua frente, sentado a uma certa distncia, estava o autor,
Basil Hallward, cujo desaparecimento sbito, h alguns anos,
havia provocado, na altura, grande alvoroo e dera origem s
mais surpreendentes conjecturas.
  Ao olhar a figura grcil, formosa, que com tanta perfeio


                               7


registara atravs da sua arte, assomou-Lhe ao rosto um sorriso
de prazer, que parecia a querer demorar-se. Mas
sobressaltou-se repentinamente e, fechando os olhos, colocou
os dedos sobre as plpebras, como se tentasse aprisionar
dentro do crebro um sonho estranho do qual receava despertar.
  -  o seu melhor trabalho, Basil, o melhor que j fez -
disse Lord Henry, languidamente. - No pode deixar de o enviar
 exposio de Grosvenor do ano que vem. A Academia 
demasiado grande e demasiado popular. Todas as vezes que l
fui, ou as pessoas eram tantas que no conseguia ver os
quadros, o que era horrvel, ou os quadros eram tantos que no
conseguia ver as pessoas, o que era ainda mais horrvel.
Grosvenor  realmente o nico local.
  - No penso envi-lo para lugar nenhum - respondeu ele,
atirando a cabea para trs, naquele seu jeito peculiar que,
em Oxford, provocava o riso entre os amigos. - No, no vou
envi-lo para lugar nenhum.
  Lord Henry arqueou as sobrancelhas e, estupefacto, olhou
para ele atravs das tnues espirais azuis de fumo que subiam
em volutas caprichosas do seu cigarro saturado de pio.
  - Para lugar nenhum? Mas, meu caro amigo, porqu? Tem algum
motivo? Vocs, os pintores, so uns indivduos estranhos!
Fazem tudo para ganhar fama e, assim que a tm na mo, parecem
querer atir-la fora.  um disparate, pois s h uma coisa no
mundo pior do que falarem de ns:  que de ns ningum fale.
Um retrato como este coloc-lo-ia muito acima de todos os
jovens de Inglaterra e faria muita inveja aos velhos, se  que
os velhos so capazes de qualquer emoo.
  - Sei que vai rir-se de mim - respondeu ele -, mas de facto
no posso exp-lo. Pus nele demasiado de mim mesmo.
  Lord Henry estendeu-se no div e desatou a rir.
  - Eu bem sabia que voc havia de rir. Mas seja como for, o
que eu disse  a pura verdade.


                               8


  - Demasiado de si mesmo!? Palavra de honra, Basil, no sabia
que era to vaidoso. Na verdade, no consigo ver qualquer
semelhana entre voc, com esse rosto rude e enrgico, o
cabelo escurssimo, e este jovem Adnis, que parece feito de
marfim e ptalas de rosa. Ora, meu caro Basil, ele  um
Narciso, enquanto voc... Bem,  certo que o meu caro amigo
tem um ar intelectual, e tudo o mais. Mas a beleza, a
verdadeira beleza, acaba onde comea a expresso intelectual.
O intelecto  em si uma forma de exagero e destri a harmonia
de qualquer rosto. Assim que nos sentamos a pensar, ficamos
todos nariz, todos testa, ou outra coisa horrenda. Veja esses
homens que triunfam em qualquer profisso intelectual. So
completamente hediondos! Com excepo, evidentemente, dos
homens da Igreja. Mas  que os da Igreja no pensam. Um bispo
continua a dizer aos oitenta anos aquilo que lhe mandaram
dizer aos dezoito e, como consequncia natural, ele mantm-se
sempre uma pessoa encantadora. Esse seu jovem amigo to
misterioso, cujo nome voc nunca me revelou, mas cujo retrato
me deixa verdadeiramente fascinado, nunca pensa. Tenho
absoluta certeza.  uma dessas criaturas belas, sem
inteligncia, que devia estar sempre aqui no Inverno, quando
no temos flores para contemplar, e sempre aqui no Vero,
quando necessitamos de algo que nos refresque a inteligncia.
No se sinta lisonjeado, Basil, voc no se parece nada com
ele.
  - Voc no me compreende, Harry - respondeu o artista. - 
certo que no me pareo com ele. Sei isso perfeitamente. At
nem gostaria de parecer-me com ele. Encolhe os ombros? Estou a
dizer a verdade. H em toda a superioridade fsica e
intelectual uma certa fatalidade, aquela fatalidade que parece
perseguir ao longo da histria os passos vacilantes dos reis.
 prefervel no sermos diferentes dos outros. Os feios e os
estpidos so os que mais ganham neste mundo. Podem ficar
despreocupadamente embasbacados a olhar. Se no conhecem o
triunfo, pelo menos tambm no conhecem a derrota. Vivem como
todos ns devamos viver - impassveis, indiferentes,


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e sem inquietaes. No trazem o mal a ningum, nem o recebem
de mos alheias. A sua posio social e a sua fortuna, Harry,
a minha inteligncia, seja ela o que for, a minha arte, valha
ela o que valer, a beleza de Dorian Gray... havemos todos de
sofrer por aquilo que os deuses nos concederam... sofrer
terrivelmente.
  - Dorian Gray?  assim que ele se chama? - perguntou Lord
Henry, atravessando o atelier em direco a Basil Hallward.
  - . Mas no pretendia dizer-lho.
  - E por que no?
  - Bem... No sei explicar. Quando gosto imenso de uma
pessoa, nunca digo a ningum o seu nome. Seria como que
entregar uma parte dela. Habituei-me a manter o segredo.
Parece ser a nica coisa que nos pode tornar a vida moderna
misteriosa, ou maravilhosa. A coisa mais banal adquire encanto
simplesmente quando no revelada. Quando me ausento da cidade,
nunca digo aos da casa para onde vou. Perdia todo o prazer, se
o fizesse.  um hbito tolo, confesso, mas, de certo modo,
traz algum romantismo  nosa vida. Voc deve achar tudo isto
um disparate.
  - De modo nenhum - contestou Lord Henry -, de modo nenhum,
meu caro. Voc parece esquecer-se de que sou casado, e o nico
encanto do casamento  a necessidade absoluta de uma vida de
engano recproco. Nunca sei onde est a minha mulher, e ela
nunca sabe o que eu fao. Quando nos encontramos, o que
acontece uma vez por outra quando jantamos fora ou visitamos o
duque, contamos um ao outro as histrias mais absurdas, e com
o ar mais srio deste mundo. A minha mulher tem muito jeito
para isso, muito mais do que eu. Nunca confunde as datas, ao
passo que eu confundo-as sempre. Mas se me apanha em falta,
nunca protesta. s vezes, eu bem gostaria que o fizesse, mas
ela limita-se a rir de mim.
  - Detesto o modo como voc fala da sua vida conjugal,


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Harry - observou Basil Hallward, caminhando em direco 
porta que dava para o jardim. - Considero-o um excelente
marido que se envergonha das suas boas qualidades. Voc  um
indivduo extraordinrio. No prega a moral, contudo no
comete ms aces. Esse seu cinismo no  mais do que uma
pose.
  - A naturalidade no  mais do que uma pose, a pose mais
irritante que conheo - exclamou, a rir, Lord Henry.
  E os dois jovens saram juntos para o jardim e instalaram-se
num comprido banco de bambu,  sombra de um matagal de altos
loureiros. A luz do sol escorregava pelas folhas lustrosas. Na
relva estremeciam os malmequeres brancos.
  Aps breve silncio, Lord Henry puxou do relgio.
  - Tenho de me ir embora, Basil - murmurou -, mas antes de
ir, quero que responda  pergunta que Lhe fiz h instantes.
  - Que pergunta? - volveu o pintor, de olhos fixos no cho.
  - Sabe muito bem qual .
  - No, no sei, Harry.
  - Ento digo-lha j. Quero que me explique porque no quer
expor o retrato de Dorian Gray. Quero saber o verdadeiro
motivo.
  - Mas eu disse-lhe o verdadeiro motivo.
  - No, no disse. O que me disse foi que havia nele
demasiado de si mesmo. Ora, isso  uma grande infantilidade.
  - Harry - disse Basil Hallward, olhando-o cara a cara -,
todo o retrato pintado com sentimento  um retrato do artista,
e no do modelo. O modelo  apenas o acidente, o pretexto. O
pintor no o revela a ele, o pintor  que se revela a si mesmo
na tela colorida. O motivo por que no exponho este quadro  o
medo de que eu tenha revelado nele o segredo da minha alma.
  Lord Henry desatou a rir.
  - E que segredo  esse?
  - Vou contar-Lhe - disse Hallward, mas notava-se-lhe no
rosto uma certa perplexidade.


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  - Estou ansioso por saber - continuou o companheiro,
olhando-o de relance.
  - Ora, Harry, h muito pouco que contar - respondeu o pintor
-, e receio que voc nem chegue a entender. Talvez nem chegue
a acreditar.
  Lord Henry sorriu e, debruando-se, arrancou da relva um
malmequer de ptalas rosadas e ps-se a examin-lo.
  - Tenho absoluta certeza de que vou entender - retorquiu
ele, olhando atentamente o pequeno disco dourado de penas
brancas -, e, no que respeita a acreditar, sou capaz de
acreditar em qualquer coisa, contanto que seja absolutamente
inacreditvel.
  O vento sacudiu das rvores algumas flores, e os pesados
lilases, com seus cachos de estrelas, balouaram no ar
lnguido. Junto ao muro, uma cigarra cantava a sua estrdula
cegarrega, e, como um fio azul, passou uma delicada libelinha
levada pelas asas esfumadas e transparentes. Lord Henry tinha
a sensao de ouvir o bater do corao de Basil Hallward e
interrogou-se sobre o que iria acontecer.
  - A histria  simplesmente esta - disse o pintor, passado
algum tempo. - H dois meses, fui a uma recepo em casa de
Lady Brandon. Voc sabe que ns, pobres artistas, temos de nos
mostrar, de vez em quando,  sociedade, para fazer lembrar ao
pblico que no somos selvagens. Como voc uma vez me disse,
de fraque e lao branco qualquer pessoa, at um corretor da
Bolsa, pode ganhar a reputao de civilizado. Bem, uns dez
minutos depois de ter estado a conversar com vivas cheias de
ttulos de nobreza e nada discretas no trajar, e com
acadmicos enfadonhos, apercebi-me subitamente de que estava
algum a olhar para mim. Virei-me e vi Dorian Gray pela
primeira vez. Cuando os nossos olhos se encontraram, senti que
empalidecia. Apoderou-se de mim uma estranha sensao de
terror. Sabia que tnha deparado com algum de personalidade
to fascinante que, se eu o permitisse, iria absorver todo o
meu ser, toda a minha alma, a minha prpria arte. No queria
nenhuma influncia externa na minha vida. Voc sabe bem,


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Harry, que sou, por temperamento, independente. Fui sempre
senhor de mim mesmo, pelo menos sempre o fora at encontrar
Dorian Gray. Ento... nem sei explicar-lhe o que se passou.
Era como se alguma coisa me dissesse que me aproximava de uma
crise terrvel. Tinha a estranha sensao de que o destino me
reservava intensas alegrias e intenso sofrimento. Fiquei
atemorizado e voltei-me para abandonar a sala. No foi por
razes de conscincia que o fiz: foi uma espcie de cobardia.
No me pertence, pois, o mrito desta tentativa de fuga.
  - A conscincia e a cobardia so de facto a mesma coisa,
Basil. A conscincia  a marca comercial da firma. Mais nada.
  - No acredito, Harry, e creio que voc tambm no. Contudo,
fosse qual fosse o motivo - orgulhoso como eu era, poder ter
sido por orgulho -, consegui encaminhar-me para a porta. Mas,
evidentemente, deparei com Lady Brandon. "No pode deixar-nos
to cedo, Mr. Hallward!",, gritou ela. Voc conhece-Lhe aquela
voz particularmente esganiada?
  - Conheo. Ela  em tudo como um pavo, excepto na beleza -
disse Lord Henry, desfazendo o malmequer com os dedos longos e
nervosos.
  - No pde ver-me livre dela. Apresentou-me a gente da
Realeza, e a pessoas de estrelas e jarreteiras, e a damas
idosas de tiaras gigantescas e narizes de papagaio. Referia-se
a mim como o seu queridssimo amigo. Tinha-a encontrado s uma
vez, mas cismou que havia de me tratar como uma celebridade.
Creio que na altura um quadro meu obteve grande xito, pelo
menos chegou a ser muito falado nos jornais, o que, no sculo
XIX,  a medida-padro da imurtalidade... De repente,
encontrei-me frente a frente com o jovem, cuja personalidade
me perturbara de modo to particular. Estvamos muito juntos
um do outro, quase nos tocvamos. Os nossos olhos voltaram a
encontrar-se. Sei que fui muito irreflectido ao pedir a Lady
Brandon que me apresentasse a ele. Talvez no tenha sido assim
to irreflectido, afinal. Era uma coisa inevitvel.


                              14


Acabaramos por falar um com o outro, mesmo sem apresentaes.
Tenho a certeza. Dorian chegou a dizer-mo mais tarde. Tambm
ele sentiu que estava predestinado que nos havamos de
conhecer.
  - E como descreveu Lady Brandon esse jovem admirvel? -
perguntou o amigo. - Sei que ela adora fazer uma breve
biografia de cada um dos seus convidados. Recordo uma ocasio
em que me apresentou a um cavalheiro idoso, truculento, cara
vermelha e coberto de condecoraes, ento, com uma voz to
sibilante que deve ter sido perfeitamente audvel para todas
as pessoas presentes na sala, ela comeou a segredar-me ao
ouvido, e num tom trgico, os pormenores mais assombrosos.
Resolvi fugir. Gosto de ser eu a descobrir as pessoas. Lady
Brandon, porm, trata os seus convidados exactamente como um
leiloeiro trata a sua mercadoria. Ou os descreve
minuciosamente, ou diz tudo acerca deles, excepto o que
queremos saber.
  - Pobre Lady Brandon! Est a ser muito severo com ela,
Harry! - comentou Hallward, um pouco distrado.
  - Meu caro amigo, ela tentou abrir uma sala de recepes, e
o que conseguiu foi abrir um restaurante. Como poderia sentir
admirao por ela? Mas, afinal, o que lhe disse de Dorian
Gray?
  - Ah, coisas como "Rapaz encantador... eu e sua pobre me
ramos absolutamente inseparveis. Esqueci completamente o que
ele faz... parece-me que no faz nada... ah, sim, toca
piano... ou  violino, meu querido Mr. Gray?" Nem ele nem eu
pudemos deixar de rir, e ficmos logo amigos.
  - O riso no  nada um mau comeo para uma amizade, e  de
longe o seu melhor final - disse o jovem lorde, arrancando
outro malmequer.
  Hallward abanou a cabea, discordando.
  - Voc no sabe o que  a amizade, Harry - murmurou ele -,
nem mesmo a inimizade. Voc gosta de toda a gente, o que
significa que todos Lhe so indiferentes.


                              15


  -  muito injusto comigo! - exclamou Lord Henry, puxando o
chapu para trs e erguendo o olhar para as nuvenzinhas de
vero que, como meada de seda branca j desfeita, flutuavam
pelo vazio azul-turquesa do cu. - Sim, tremendamente injusto.
Eu estabeleo uma norma para diferenciar bem as pessoas.
Escolho os amigos pela beleza, os conhecidos pelas qualidades
de carcter, e os inimigos pelas de inteligncia. Todo o
cuidado  pouco na escolha dos inimigos. No tenho um nico
que seja estpido. So todos homens de capacidade intelectual
e, por conseguinte, todos me apreciam. Ser isto vaidade?
Talvez seja um pouco.
  - Talvez, Harry. Mas, segundo a sua classificao, eu devo
ser um simples conhecido.
  - Meu velho, voc  muito mais do que um conhecido.
  - E muito menos do que um amigo. Uma espcie de irmo.
  - Ora, os irmos! Os irmos pouco me importam. O meu irmo
mais velho nunca mais morre, enquanto os mais novos parecem
no fazer outra coisa.
  - Harry! - protestou Hallw ard, de semblante carregado.
  - Meu caro amigo, no estou a falar a srio. Mas no consigo
deixar de detestar os meus parentes. Creio que se deve ao
facto de nenhum de ns poder suportar ver nos outros os
prprios defeitos. Apoio inteirmente a indignao que a
democracia inglesa manifesta contra aquilo a que chama os
vcios das classes superiores. As grandes massas acham que a
embriaguez, a estupidez e a imoralidade devem ser
exclusivamente propriedade sua, e que se algum de ns faz
figura de parvo  como se tivesse ido caar na sua coutada.
Quando o pobre do Southwark foi a tribunal por causa do
processo de divrcio, a indignao dessa gente foi estrondosa.
E, todavia, no me parece que dez por cento do proletariado
viva decentemente.
  - No concordo com uma nica palavra que acaba de proferir
e, alm do mais, Harry, tenho a certeza de que nem voc mesmo
concorda.


                              16



  Lord Henry cofiou a barba castanha e, com a ponta da bengala
de bano ornamentada com borlas, bateu na biqueira da bota de
verniz preto.
  - Voc  tipicamente ingls, Basil! J  a segunda vez que
faz semelhante observao. Se expomos uma ideia a um ingls
genuno, o que  sempre uma grande imprudncia, nunca lhe
ocorre pensar se a ideia  correcta ou errada. A nica coisa
que considera importante  saber se acreditamos na ideia por
ns exposta. Ora o valor de uma ideia no tem nada que ver com
a sinceridade da pessoa que a expressa. Na realidade, existem
fortes probabilidades de que quanto mais insincero for o
homem, mais puramente intelectual  a ideia, visto que, nessas
circunstncias, ela no ser colorida pelas suas necessidades,
nem desejos, nem preconceitos. Contudo, no pretendo discutir
consigo poltica, sociologia ou metafsica. Gosto mais das
pessoas do que dos princpios e, mais que tudo no mundo, gosto
de pessoas sem princpios. Mas, meu caro, conte-me mais coisas
acerca de Mr. Dorian Gray. Com que frequncia costuma v-lo?
  - Todos os dias. No podia sentir-me feliz se no o visse
todos os dias. Ele -me absolutamente necessrio.
  - Que extraordinrio! Eu supunha que voc no se interessava
por mais nada que no fosse a sua arte.
  - Agora  ele toda a minha arte - reconheceu o pintor,
gravemente. - s vezes penso, Harry, que h apenas duas eras
realmente importantes na histria do mundo. A primeira  o
aparecimento de um novo meio para a arte, e a segunda  o
aparecimento de uma nova personalidade tambm para a arte. O
que foi para os venezianos a inveno da pintura a leo, o
rosto de Antnoo para a escultura grega tardia, e o que ser
um dia para mim o rosto de Dorian Gray. E no  apenas por ser
ele o tema da minha pintura, e dos meus desenhos, e dos meus
esboos. Evidentemente que fiz tudo isso. Mas, para mim, ele
significa muito mais do que um modelo. Isto no quer dizer que
me sinta insatisfeito com o que fiz dele, ou que a sua beleza
seja de tal ordem que a Arte no pode exprimi-la.


                              17


No h nada que a Arte no possa exprimir, e reconheo que
todo o trabalho que realizei desde que conheci Dorian Gray 
um trabalho de qualidade,  a melhor obra da minha vida. Mas,
 curioso que - ser que voc me vai compreender? - a
personalidade dele sugeriu-me uma forma inteiramente nova em
arte, um estilo inteiramente novo. Vejo as coisas e penso
nelas de maneira diferente. Posso agora recriar a vida de um
modo que me estava oculto. Um sonho da forma em dias de
pensamento., Quem disse isto? No me recordo. Mas 
precisamente o que Dorian Gray tem sido para mim. A simples
presena fsica deste rapaz - para mim no passa de um rapaz,
embora tenha mais de vinte anos -, a sua simples presena
fsica... Ah, mas ser que voc compreende o que tudo isto
significa? Inconscientemente, ele define-me uma nova escola,
uma escola que h-de conter toda a paixo do esprito
romntico, toda a perfeio do esprito grego. A harmonia da
alma e do corpo... quo sublime  tudo isso: Loucos que somos,
separmos o corpo e a alma, e inventmos um realismo
grosseiro, uma idealidade vazia. Harry, se voc ao menos
soubesse o que Dorian Gray representa para mim! Lembra-se
daquela minha paisagem pela qual Agnes me ofereceu um preo
elevadssimo, mas de que eu no quis separar-me?  uma das
coisas melhores que fiz. E sabe porqu? Porque enquanto a
pintava, Dorian Gray estava ao meu lado. Uma emanao subtil
passava dele para mim, e, pela primeira vez na vida, vi num
bosque vulgar a magia que sempre procurei e que nunca
encontrara.
  - Mas, Basil, isso  extraordinrio! Preciso de ver Dorian
Gray.
  Hallward levantou-se do banco e comeou a passear pelo
jardim. Passado algum tempo, aproximou-se.
  - Harry, Dorian Gray representa para mim unicamente um
motivo de arte. Voc poder no ver nele nada de especial. Eu
vejo tudo. A sua presena na minha obra no  menor quando no
se encontra nela a sua imagem. Como j afirmei, ele  uma
sugesto de um novo estilo.


                              18


Descubro-o nas curvas de certas linhas, na beleza e nas
subtilezas de certas cores. Nada mais.
  - E ento por que no expe o seu retrato?
  - Porque, involuntariamente, pus nele um pouco da expresso
desta singular idolatria mstica, de que, evidentemente, nunca
me interessou falar-lhe. Ele no sabe nada disto. Nem nunca
saber. O pblico, porm, poderia descobrir, e eu no quero
desnudar a minha alma  sua curiosidade grosseira. Nunca
sujeitarei o meu corao a essa bisbilhotice microscpica. H
muito de mim mesmo nesta obra, Harry... Demasiado!
  - Os poetas no so to escrupulosos como voc. Sabem que a
paixo lhes  muito til como tema publicvel. Actualmente, um
corao destroado faz aumentar o nmero de edies.
  - Odeio-os por isso mesmo - exclamou Hallward. - Um artista
deve criar coisas belas, mas sem que nelas ponha seja o que
for da sua vida pessoal. Vivemos numa poca em que os homens
tratam a arte como se devesse ser um gnero autobiogrfico.
Perdemos o sentido abstracto da beleza. Um dia hei-de
mostr-la ao mundo, e, por isso, o mundo jamais ver o meu
retrato de Dorian Gray.
  - Creio que voc no tem razo, Basil. Mas no quero
discutir consigo. S os intelectualmente perdidos  que
discutem. Diga-me, Dorian Gray gosta muito de si?
  O pintor ficou uns instantes a pensar.
  - Ele gosta de mim - respondeu, aps uma pausa -, sei que
gosta de mim.  claro que costumo lisonje-lo de uma maneira
horrvel. Tenho um estranho prazer em dizer-lhe certas coisas,
mesmo sabendo que vou arrepender-me de as ter dito. Em regra,
ele  encantador comigo, e ficamos no estdio a falar de mil e
uma coisas. s vezes, porm, ele  terrivelmente irreflectido
e parece ter um enorme prazer em me fazer sofrer. E ento,
Harry, sinto que entreguei toda a minha alma a algum que a
trata como se fosse uma flor para colocar na lapela, um
ornamento para deleite da sua vaidade, um enfeite para um dia
de Vero.


                              19


  - Os dias de Vero, Basil, tendem a alongar-se - murmurou
Lord Henry. - Talvez voc se canse primeiro do que ele. 
triste pensar nisso, mas no h dvida de que o Gnio dura
mais que a Beleza. E isto explica o facto de nos esforarmos
tanto para nos cultivarmos de modo to exagerado. Na luta
feroz pela existncia, queremos possuir algo de duradouro e,
por isso, atafulhamos as nossas mentes de inutilidades e
factos, na esperana absurda de conservar o nosso lugar. O
homem bem informado faz parte do ideal moderno. E a mente do
homem bem informado  uma coisa horrvel. Assemelha-se a uma
loja de bricabraque, repleta de monos e p, onde tudo est
marcado com um preo superior ao seu real valor. Mesmo assim,
creio que voc ser o primeiro a cansar-se. H-de chegar o dia
em que, ao olhar o seu amigo, vai ach-lo com traos menos
correctos, ou no vai gostar da tonalidade do rosto, ou de
qualquer outra coisa. No seu ntimo, voc ir censur-lo
amargamente, e pensar muito a srio que ele teve consigo um
comportamento incorrecto. Quando ele voltar a aparecer-Lhe,
ir receb-lo com total frieza e indiferena. O que ser
lamentvel, pois voc passa a ser uma pessoa diferente. O que
acaba de me contar  uma fantasia romntica - poderia
chamar-se mesmo um romance de arte -, e o pior em qualquer
aventura romntica  que ela nos deixa to pouco romnticos.
  - No fale assim, Harry. Enquanto viver, serei dominado pela
personalidade de Dorian Gray. Voc no pode sentir o que eu
sinto. Voc  muito inconstante.
  - Ah, meu caro Basil,  por isso mesmo que o posso sentir.
Os que so fiis conhecem apenas o lado trivial do amor, os
infiis so precisamente aqueles que conhecem o seu lado
trgico.
  E Lord Henry acendeu um fsforo numa delicada caixa de
prata, e comeou a fumar um cigarro com um ar convencido e
satisfeito, como se tivesse resumido o mundo numa frase.


                              20


  Ouvia-se a chilreada dos pardais por entre o verde lacado
das folhas de hera, e as sombras azuladas das nuvens
perseguiam-se umas s outras pelo relvado como andorinhas. Que
aprazvel estava o jardim! E como eram deliciosas as emoes
dos outros! Pareciam-Lhe muito mais deliciosas do que as
ideias. A nossa alma e as paixes dos nossos amigos - eis as
coisas fascinantes da vida - Imaginava, intimamente divertido,
o almoo fastidioso a que faltara, por ter ficado tanto tempo
com Basil Hallward. Se tivesse ido a casa de sua tia, iria com
certeza encontrar Lord Hoodbody-, e toda a conversa teria
andado  volta de alimento para os pobres e da necessidade de
casas-modelo. Cada classe teria pregado a importncia dessas
virtudes, para a prtica das quais no havia necessidade nas
suas vidas. Os ricos teriam falado sobre o valor da poupana,
e os ociosos teriam perorado com eloquncia sobre a dignidade
do trabalho. Como era agradvel ter-se livrado de tudo isso!
Ao pensar em sua tia, aconteceu-lhe de sbito uma ideia, e
dirigiu-se a Hallward.
  - Meu prezado amigo, lembrei-me mesmo agora...
  - Lembrou-se de qu, Harry?
  - De onde ouvi o nome de Dorian Gray.
  - Onde foi? - perguntou Hallward, franzindo levemente as
sobrancelhas.
  - No faa essa cara to zangada, Basil. Foi em casa de
minha tia, Lady Agatha. Ela contou-me que descobrira um jovem
maravilhoso que estava disposto a ajud-la no East End, e
disse que o nome dele era Dorian Gray. Mas devo dizer-Lhe que
ela nunca falou da sua beleza. As mulheres no apreciam a
beleza... pelo menos, as mulheres boazinhas. O que ela me
disse foi que ele era muito srio e de uma ndole maravilhosa.
E logo imaginei uma criatura de culos e cabelo escorrido,
horrivelmente sardento, e com ps enormes. Que pena no ter
sabido ento que ele era o seu amigo.
  - Ainda bem que no soube, Harry.
  - Porqu?
  - No quero que se encontrem.


                              21


  - No quer que eu me encontre com ele?
  - No.
  - Mr. Dorian Gray- est no atelier - anunciou o mordomo,
aparecendo no jardim.
  - Agora, ter mesmo de me apresentar - exclamou, rindo, Lord
Henry.
  O pintor voltou-se para o criado, que continuava  espera,
pestanejando  luz do sol.
  - Pea a Mr. Gray o favor de esperar, Parker. No vou
demorar muito.
  O homem fez uma vnia e retirou-se. Ento Basil Hallward
olhou para Lord Henry.
  - Dorian Gray  o meu mais querido amigo.1m uma ndole
simples e bela. O que a sua tia disse dele  absolutamente
correcto. No o estrague. No tente influenci-lo. A sua
influncia sobre ele seria nociva. O mundo  vasto e tem
muitas pessoas maravilhosas. No me roube a nica pessoa que
empresta  minha arte o encanto que possui, a minha vida como
artista depende dele. Veja bem, Harry, confio em si.
  Falava muito devagar, como se arrancasse as palavras quase a
contragosto.
  - No diga disparates! - acudiu Lord Henry a sorrir, e,
pegando-Lhe num brao, quase o arrastou para dentro de casa.


                         Captulo II


     Viram Dorian Gray assim que entraram. Estava sentado ao
piano, de costas para eles, a virar as pginas de um volume
das Cenas da Floresta de Schumann.
  - Tem de me emprestar estas msicas, Basil - exclamou. -
Quero estud-las. So belssimas.
  - Isso depende de como hoje vai posar, Dorian.
  - Ah, j estou cansado de posar e no quero um retrato de
corpo inteiro - ripostou o rapaz, de um modo voluntarioso e
petulante, voltando-se no banco do piano. Quando avistou Lord
Henry, um leve rubor cobriu-lhe as faces por um instante, e
levantou-se de repente.
  - Perdo, Basil, no sabia que estava acompanhado.
  -  Lord Henry Wotton, Dorian, um velho amigo dos tempos de
Oxford. Ainda h pouco estava a dizer-lhe que voc era um
excelente modelo, e agora acabou por estragar tudo.
  - No estragou o meu prazer em conhec-lo, Mr. Gray - disse
Lord Henry avanando e estendendo-Lhe a mo. - Minha tia tem
falado muito de si.  um dos seus preferidos, mas, receio bem,
tambm uma das suas vtimas.
  - De momento, estou na lista negra de Lady Agatha -
respondeu Dorian, com um ar cmico de penitncia. - Tinha
prometido ir com ela tera-feira passada a um clube em
Whitechapel, e acabei por me esquecer completamente. Era para
termos tocado um dueto juntos - trs, parece-me. No sei o que
ela me vai dizer, e estou demasiado apreensivo para a ir
visitar.
  - Ora, eu me encarregarei de que faam as pazes. Ela -lhe
muito dedicada. Tambm, no me parece que a sua falta tenha
tido importncia. Possivelmente a assistncia pensou que era
um dueto.


                              23


Ao piano, a tia Agatha faz barulho por dois.
  - Mas isso  muito desagradvel para ela, e no muito
agradvel para min  - respondeu Dorian, rindo. Lord Henry
olhou para ele. Era, sem dvida, extraordinariamente formoso,
com os lbios rubros de contornos bem delineados, o olhar
franco de uns olhos azuis, o cabelo loiro e ondulado. Havia no
seu rosto qualquer coisa que inspirava imediatamente
confiana. Tinha toda a candura e toda a apaixonada pureza da
juventude. Sentia-se que no tinha sido maculado pela maldade
do mundo. No era de admirar que Basil Hallward o adorasse
tanto!
  -  demasiado sedutor para se dedicar  filantropia, Mr.
Gray... muito sedutor.
  Lord Henry atirou-se para cima do div e abriu a cigarreira.
O pintor tinha estado ocupado a misturar cores e a preparar os
pincis. Tinha um ar preocupado, e, quando ouviu a ltima
observao de Lord Henry, lanou-Lhe um olhar e hesitou
ligeiramente.
  - Harry, quero terminar hoje este quadro. - Acabou ento por
dizer-lhe. - Ser muito indelicado da minha parte pedir-lhe
que se retire?
  Lord Henry sorriu e olhou para Dorian Gray.
  - Devo ir-me embora, Mr. Gray? - perguntou-lhe.
  - Oh, por favor no v, Lord Henry! Vejo que Basil est num
dos seus dias de mau humor, e no tenho pacincia para o
aturar quando est maldisposto. Alm disso, gostaria que me
dissesse por que no devo dedicar-me  filantropia.
  - No me parece que lho deva dizer, Mr. Gray.  um assunto
to montono que seria necessrio falar a srio. Mas
decidi ficar, j que mo pediu. Basil, voc no se importa,
pois no? J me tem dito muitas vezes que gosta que os seus
modelos tenham algum com quem conversar.
  Hallward fez um esforo para se dominar.


                              24


  - Se  essa a vontade de Dorian, claro que deve ficar. Os
caprichos de Dorian so leis para toda a gente, excepto para
ele.
  Lord Henry pegou no chapu e nas luvas.
  - Apesar de tanta insistncia sua, Basil, no vou ficar.
Prometi a um indivduo que nos encontraramos no Orleans.
Adeus, Mr. Gray. Venha visitar-me uma tarde destas  Curzon
Street. Costumo estar em casa por volta das cinco horas. Mas
escreva a avisar-me. Teria muita pena de o no encontrar.
  - Basil - exclamou Dorian Gray -, se Lord Henry se vai
embora, eu tambm vou. Voc emudece enquanto pinta. Alm
disso,  tremendamente montono estar de p, num estrado, e
ainda a tentar fazer um ar bem-disposto. Pea-Lhe que fique.
Insisto que o faa.
  - Fique, Harry.  um favor que faz a Dorian e a mim - disse
Hallward, fixando atentamente o retrato. -  verdade, nunca
falo enquanto trabalho, e nem sequer ouo o que me dizem, o
que deve causar um tdio terrvel aos meus infelizes modelos.
Peo-Lhe que fique.
  - E o homem que est  minha espera no Orleans?
  O pintor riu-se.
  - No me parece que isso v causar qualquer problema. Torne
a sentar-se, Harry. E voc, Dorian, suba para o estrado e veja
se fica imvel, mas no preste ateno ao que Lord Henry
disser.  que ele exerce uma influncia muito nociva em todos
os seus amigos, com a nica excepo da minha pessoa.
  Dorian Gray subiu para o estrado, com o ar de um jovem
mrtir grego, e fez um leve trejeito de desagrado a Lord
Henry, por quem sentia j grande inclinao. Ele era to
diferente de Basil. Os dois faziam um contraste encantador. E
tinha uma voz to bonita.
  -  verdade que a sua influncia  assim to m, Lord Henry?
- perguntou-lhe, alguns momentos depois. - To m como diz
Basil?
  - Uma boa influncia  coisa que no existe, Mr. Gray.


                              25


  Toda a influncia  imoral, imoral sob o ponto de vista
cientfico.
  - Porqu?
  - Porque exercer a nossa influncia sobre algum  darmos a
prpria alma. Esse algum deixa de pensar com os pensamentos
que Lhe so inerentes, ou de se inflamar com as suas prprias
paixes. As suas virtudes no lhe so reais. Os seus pecados -
se  que os pecados existem - so emprestados. Tal pessoa
passa a ser o eco da msica de outrem, o actor de um papel que
no foi escrito para si. O objectivo da vida  o nosso
desenvolvimento pessoal. Compreender perfeitamente a nossa
natureza -  para isso que estamos c neste mundo. Hoje as
pessoas temem-se a si prprias. Esqueceram o mais nobre de
todos os deveres: o dever que cada um tem para consigo mesmo.
 certo que no deixam de ser caritativos. Do de comer aos
que tm fome e vestem os pobres. Mas as suas almas andam
famintas e nuas. A coragem desapareceu da nossa raa. Ou
talvez nunca a tivssemos tido. O temor da sociedade, que  a
base da moral, o temor de Deus, que  o segredo da religio -
eis as duas coisas que nos governam. E, contudo...
  - Volte a cabea um pouco mais para a direita, Dorian, seja
um rapaz bem comportado - disse o pintor, absorvido pelo seu
trabalho e apercebendo-se apenas de que surgira no rosto do
jovem uma expresso que nunca lhe vira antes.
  - E, contudo - continuou Lord Henry na sua voz Grave e
musical, e fazendo um gracioso gesto com a mo, to
caracterstico, mesmo j nos tempos de Eton -, se um homem
devesse viver a sua vida em toda a plenitude, dar forma a
todos os sentimentos, expresso a todos os pensamentos,
realidade a todos os sonhos, creio que o mundo ganharia um
novo impulso de alegria que nos levaria a esquecer todos os
males do medievalismo e a regressar ao ideal helnico. Talvez
mesmo a algo mais refinado e mais rico que o ideal helnico.
Mas o mais ousado de todos ns teme-se a si mesmo. O selvagem
mutilado que ns somos sobrevive tragicamente na auto-rejeio
que frustra as nossas vidas.


                           26  27


Somos punidos pelas nossas rejeies. Todo o impulso que
esforadamente asfixiamos fica a fermentar no nosso esprito,
e envenena-nos. O corpo peca uma vez, e mais no precisa, pois
a aco  um processo de purificao. E nada fica, a no ser a
lembrana de um prazer, ou o luxo de um pesar. Ceder a uma
tentao  a nica maneira de nos libertarmos dela. Se lhe
resistimos, a alma enlanguesce, adoece com as saudades de tudo
o que a si mesma probe, e de desejo por tudo o que as suas
leis monstruosas converteram em monstruosidad e ilegalidade.
Diz-se que as grandes realizaes deste mundo ocorrem no
crebro.  tambm no crebro, e s a, que ocorrem os grandes
erros do mundo. E at o senhor, Mr. Gray, que se encontra na
flor da juventude, viveu paixes que o atemorizaram, teve
pensamentos que o apavoraram e, quer acordado, quer a dormir,
teve sonhos tais, que a sua simples lembrana, fariam corar de
vergonha...
  - No continue, por favor! - balbuciou Dorian Gray -,
Sinto-me confuso. Nem sei que dizer. H decerto uma resposta
adequada, eu  que a no consigo encontrar. No diga nada.
Deixe-me pensar Ou, mais exactamente, deixe-me tentar no
pensar.
  Durante cerca de dez minutos, permaneceu imvel, os lbios
entreabertos e um brilho estranho no olhar. Tinha uma vaga
percepo de que dentro de si actuavam influncias
inteiramente novas. E, todavia, pareciam ter surgido de dentro
de si mesmo. As poucas palavras que o amigo de Basil lhe
dirigira - palavras proferidas por acaso, sem dvida, e
intencionalmente paradoxais - tinham feito vibrar uma corda
secreta, at ento nunca tocada, que sentia agora latejar ao
ritmo de inexplicveis pulsaes.
  Tambm a msica o perturbava assim, e muitas vezes o tinha
emocionado. Mas a msica no recorria s palavras. Criava em
ns, no um novo mundo, mas sim outro caos. As palavras,
simples palavras... como podiam ser terrveis! Como eram
ntidas, e vvidas, e cruis! No conseguamos fugir-lhes. E,
no entanto, quanta magia subtil possuam!  Pareciam capazes de
dar forma plstica a coisas informes e de possuir msica
prpria to suave como a da viola e do alade. Meras palavras!
Haveria alguma coisa to real como as palavras?
  Haviam ocorrido coisas durante a sua meninice que, nesse
tempo, no entendera. Compreendia-as agora. A vida surgia-lhe,
de repente, com um colorido flamejante. Tinha a sensao de
ter caminhado sobre o fogo. Por que no soubera antes?
  Com o seu sorriso subtil, Lord Henry ficou a observ-lo. Ele
sabia qual o exacto momento psicolgico em que devia
permanecer calado. Sentia um interesse enorme. Ficou
surpreendido com a sbita impresso que as suas palavras
haviam provocado, e, recordando um livro que lera aos
dezasseis anos e que lhe desvendara muitas coisas que antes
ignorava, interrogava-se se Dorian Gray estaria passando por
experincia semelhante. Limitara-se a atirar uma seta para o
ar. Teria atingido o alvo? Que rapaz to fascinante!
  Hallward continuava a pintar, com aquele seu estilo ousado e
magnfico, que possua verdadeiro requinte e perfeita
delicadeza, e que, pelo menos em arte, s provm da fora
interior. Nem se apercebeu do silncio que se fizera.
  - Sinto-me cansado de estar de p, Basil - exclamou Dorian
Gray, de repente. - Preciso de ir sentar-me um pouco l fora
no jardim. O ar aqui dentro est sufocante.
  - Desculpe, meu amigo. Quando estou a pintar, no consigo
pensar em mais nada.  que voc nunca posou to bem, esteve
perfeitamente imvel. Captei o efeito que pretendia: os lbios
entreabertos e o brilho do olhar. No sei o que Harry Lhe
esteve a dizer, s sei que lhe provocou essa expresso
maravilhosa no rosto. Provavelmente esteve a dirigir-lhe
elogios. Mas no acredite em nenhuma das suas palavras.
  - Pode ter a certeza de que ele no me fez elogios. Talvez
seja por isso que no acredito em nada do que me disse.


                              28


  - Sabe perfeitamente que acredita em tudo o que Lhe disse -
interveio Lord Henry, fitando-o com o olhar lnguido e
sonhador. - Acompanho-o ao jardim. Est um calor horrvel
dentro do estdio. D-nos qualquer coisa gelada para beber,
Basil, uma coisa que tenha morangos.
  - Com certeza, Harry. Toque a campainha, e quando Parker
aparecer transmitir-lhe-ei o seu pedido. Tenho que trabalhar
este fundo, por isso s irei ter convosco mais logo. No me
retenha Dorian muito tempo. Nunca esteve em to boa forma para
pintar como hoje. Esta vai ser a minha obra-prima. Ela j  a
minha obra-prima assim como est.
  Lord Henry foi para o jardim. Encontrou Dorian Gray com o
rosto mergulhado nos grandes cachos frescos de lilases,
absorvendo-lhes febrilmente o perfume como se fosse vinho.
Aproximou-se dele e pouso-lhe a mo no ombro.
  - Faz muito bem em fazer isso - murmurou. - S os sentidos
podem curar a alma, assim como s a alma pode curar os
sentidos.
  O rapaz sobressaltou-se e recuou. Estava de cabea
descoberta, e as folhas tinham-lhe despenteado os anis
rebeldes do cabelo, enleando-Lhe as madeixas douradas. Tinha
um olhar assustado, como o daquelas pessoas que so acordadas
de repente. As narinas, de linhas delicadas, fremiam, e um
nervo oculto fazia tremer os lbios rubros.
  -  verdade - continuou Lord Henry -, esse  um dos grandes
segredos da vida: curar a alma atravs dos sentidos, e os
sentidos atravs da alma. O senhor, Mr. Gray,  uma maravilha
da criao. Sabe mais do que julga que sabe, mas tambm sabe
menos do que quer saber.
  Dorian Gray, de semblant carregado, voltou a cabea para o
outro lado. No podia deixar de gostar do homem alto e grcil
que estava junto de si. Despertavam-lhe interesse o rosto
romntico cor de azeitona e a sua expresso fatigada. Havia
algo na voz Grave e lnguida que era extraordinariamente
fascinante. At as mos, brancas e frias como flores, possuam
um estranho encanto. Quando falava, moviam-se como msica,


                              29


e pareciam ter uma linguagem prpria. Mas tinha medo dele e
tinha vergonha de ter medo. Por que havia de ter sido um
desconhecido a revelar-lhe o seu prprio ntimo? J se tinham
passado meses desde que conhecera Basil Hallward, contudo a
amizade entre eles no o tinha modificado em nada. E, logo
assim, de sbito, deparou com uma pessoa que parecia ter-lhe
desvendado o mistrio da vida. E o que havia a recear? No era
nenhum rapazinho, nem uma menina... Era absurdo sentir medo.
  - Sentemo-nos  sombra - sugeriu Lord Henry. - Parker j
trouxe as bebidas, e se o senhor permanecer mais tempo sob
este sol escaldante, vai ficar com a pele estragada, e,
depois, Basil no voltar a pintar o seu retrato. Na verdade,
no se deveria deixar queimar pelo sol. No lhe ficaria nada
bem.
  - E que importncia tem isso? - exclamou Dorian Gray, a rir,
sentando-se num banco ao fundo do jardim.
  - Devia ter muita importncia para si, Mr. Gray.
  - Porqu?
  - Porque tem uma juventude deslumbrante, e a juventude  a
nica coisa que vale a pena ter.
  - No penso assim, Lord Henry.
  - Pois no, no pensa assim agora. Um dia, quando for velho,
enrugado e feio, quando o pensamento lhe tiver sulcado a
fronte de rugas, e a paixo, com suas chamas medonhas, lhe
tiver crestado os lbios, sentir ento uma impresso
terrvel. Agora, aonde quer que v, consegue seduzir todas as
pessoas. Mas ser sempre assim? Tem um rosto de beleza
deslumbrante, Mr. Gray. No precisa de fazer esse ar to
contrariado.  verdade. E a Beleza  uma forma de Gnio, sendo
mesmo superior ao gnio, pois no necessita de ser explicada.
Ela faz parte dos grandes elementos do universo, como a luz do
sol, a Primavera, ou o reflexo nas guas nocturnas, dessa
concha de prata a que chamamos lua. No pode ser contestada.
Tem o direito divino de um soberano. Transforma em prncipes
os que a possuem. Sorri?


                              30


Ah, quando a tiver perdido, deixar de sorrir... Por vezes,
ouve-se dizer que a Beleza  apenas superficial. Talvez seja.
Mas, ao menos, no  to superficial como o Pensamento.
Considero a Beleza a maravilha das maravilhas. S os fteis
no julgam pelas aparncias. O verdadeiro mistrio do mundo 
o visvel, e no o invisvel. Sim, Mr. Gray, os deuses
foram-lhe favorveis. Mas os deuses do agora, para tirar
depois. O senhor tem to-somente alguns anos para poder viver
a vida em real plenitude. Quando a mocidade se for, com ela
ir a sua beleza, e, ento, cedo descobrir que no lhe
restaram xitos, ou ter que se contentar com os xitos
insignificantes, que a lembrana do passado tornar mais
amargos do que s derrotas.  medida que os meses vo
minguando, eles vo-no aproximando de algo terrvel. O tempo
tem cimes de si, e faz guerra  primavera dos seus anos.
Ento, ficar com a pele macilenta, as faces encovadas e o
olhar mortio. Ir sofrer tormentos... Ah! Tome plena
conscincia da sua juventude enquanto a possuir. No esbanje o
ouro dos seus dias a dar ouvidos a gente maadora que tenta
aproveitar o fracasso irremedivel, nem perca o seu tempo com
os ignorantes, os medocres e os boais. So esses os
objectivos doentios, os falsos ideais dos nossos dias. Viva,
viva a vida maravilhosa que existe em si! No desperdice
nenhuma oportunidade, procure sempre novas sensaes. No
tenha medo de nada... Um novo Hedonismo - eis o que faz falta
ao nosso sculo. O senhor podia ser o seu smbolo vivo. Com
essa sua personalidade, no existe nada que no possa fazer. O
mundo pertence-Lhe por um determinado tempo... No mesmo
instante em que o conheci, Mr. Gray, vi que o senhor no tinha
conscincia da sua verdadeira natureza, nem do que poderia
ser. Havia em si tantas coisas que me fascinaram, que achei
que devia falar-lhe de si. Pensei que seria muito trgico se
se fosse perder.  que  to breve o tempo de durao da sua
mocidade... to breve. As vulgares flores silvestres fenecem,
mas voltam a florir. Este laburno estar to amarelo em Junho
do ano que vem como est agora.


                              31


No espao de um ms, a clematite ficar coberta de estrelas
cor de prpura, e, ano aps ano, a noite verde das suas folhas
vai segurar as mesmas estrelas avermelhadas. Mas ns nunca
recuperamos a nossa mocidade. O pulsar de alegria, que em si
lateja aos vinte anos, perde o vigor. Os nossos membros
tornam-se dbeis, os sentidos definham. Vamos degenerando at
nos transformarmos em fantoches hediondos, perseguidos pela
lembrana das paixes que tanto temamos, e das requintadas
tentaes a que no tnhamos coragem de ceder. Ah,
juventude... juventude! No h absolutamente mais nada no
mundo seno a juventude.
  Com olhar de espanto, e cheio de dvidas, Dorian Gray ouvia
atentamente. Deixou cair no cho de cascalho a haste de lils
que segurava. Uma abelha peluda aproximou-se dela e andou
zumbindo  sua volta por uns instantes. Depois, comeou a
trepar pelo macio oval de minsculas flores estreladas.
Dorian observava-a, com aquele estranho interesse que fazemos
por tomar pelas coisas triviais, quando coisas de maior
importncia nos causam medo, ou quando somos agitados por uma
nova emoo que no sabemos definir, ou quando o nosso crebro
 subitamente assediado por um pensamento terrvel que nos
exorta a rendermo-nos. Pouco depois, a abelha voou para longe.
Viu-a rastejar para o interior da campnula irisada de uma
trepadeira. A flor pareceu estremecer e, logo, comeou a
balouar suavemente.
  O pintor apareceu de sbito  porta do estdio, fazendo-lhes
repetidos gestos com a mo para eles entrarem. Olharam um para
o outro e sorriram.
  - Estou  espera - gritou ele. - Entrem j. A luz agora est
ptima. No se esqueam de trazer as bebidas.
  Levantaram-se e caminharam juntos. Duas borboletas verdes e
brancas esvoaaram rente a eles, e, na pereira ao canto do
jardim, um tordo comeou a cantar.
  - Suponho que est contente por me ter conhecido, Mr. Gray -
disse Lord Henry, olhando para ele.


                              32


  - Sim, agora estou contente. Ser que estarei para sempre?
  - Sempre! Que palavra horrvel! Faz-me arrepios ouvi-la. As
mulheres  que gostam muito de a usar. Conseguem destruir um
romance de amor quando procuram faz-lo durar para sempre.
Alm disso,  tambm uma palavra sem sentido. A nica
diferena entre um capricho e uma paixo para toda a vida 
que o capricho dura um pouco mais.
  Ao entrarem no estdio, Dorian Gray pousou a mo no brao de
Lord Henry.
  - Nesse caso, que a nossa amizade seja um capricho -
murmurou ele, corando pela sua ousadia, a seguir, subiu para o
estrado e retomou a sua pose.
  Lord Henry deixou-se cair num cadeiro de verga e quedou-se
a observ-lo. O rudo provocado pelo roar do pincel na tela
era o nico som a quebrar o silncio, salvo quando, por vezes,
Hallward recuava um pouco para poder apreciar o seu trabalho a
uma certa distncia. Nos raios oblquos que entravam pela
porta aberta danava uma poalha dourada. O aroma carregado das
rosas parecia pairar por sobre todas as coisas.
  Cerca de um quarto de hora depois, Hallward interrompeu a
pintura e fitou longamente Dorian Gray. Depois, olhou tambm
demoradamente o quadro, mordiscando a extremidade de um dos
seus enormes pincis e franzindo as sobrancelhas.
  - Acabei - exclamou, por fim. E, curvando-se, escreveu o seu
nome em grandes letras a vermelho no canto esquerdo da tela.
  Lord Henry aproximou-se e examinou o retrato. Era, de facto,
uma obra de arte maravilhosa. A semelhana com o original era
de igual modo extraordinria.
  - Meu querido amigo, as minhas mais calorosas felicitaes -
disse ele. -  o mais belo retrato dos tempos modernos. Venha
ver, Mr. Gray.
  O jovem estremeceu, como se tivesse despertado de um sonho.


                              33


  - Est realmente acabado? - murmurou, ao descer do estrado.
  - Completamente - respondeu o pintor. - E voc posou
fantasticamente. Estou-lhe muitssimo grato.
  - Isso deve-se inteiramente a mim - interveio Lord Henry. -
No  assim, Mr. Gray?
  Dorian no respondeu. Passou distraidamente diante do quadro
e virou-se de frente para ele. Quando o viu, recuou e, por
momentos, o rosto ruborizou-se-lhe de satisfao. Assomou-lhe
aos olhos uma expresso de jbilo, como se se tivesse
reconhecido pela primeira vez. Continuava imvel e
maravilhado, apercebendo-se vagamente de que Hallward estava a
falar com ele, mas sem apreender o significado das palavras. A
sensao da sua prpria beleza surgiu-lhe como uma revelao.
Nunca a sentira antes. Os elogios de Hallward pareceram-lhe
sempre amveis exageros provenientes da amizade que os unia.
Escutara-os, rira-se deles e, depois, esquecera-os. Nunca
haviam exercido nele qualquer influncia. Depois, aparecera
Lord Henry Wotton com o seu estranho discurso panegrico sobre
a juventude e o prenncio terrvel da sua brevidade. Isso
perturbara-o ento, e agora, ao encarar o reflexo da sua
beleza, toda a realidade da descrio acudiu-lhe subitamente
ao esprito. De facto, havia de chegar o dia em que o rosto
ficaria enrugado e mirrado, os olhos baos e sem cor, e a
graciosidade das suas formas destruda e deformada. O vermelho
vivo dos lbios desapareceria, e tambm o tom dourado do
cabelo. A vida que teve, que Lhe criar a alma havia de
desfigurar-Lhe o corpo. Iria tornar-se horrendo, hediondo e
grosseiro.
  Ao pensar nisso, uma dolorosa angstia, acutilante como uma
faca, fez vibrar cada fibra delicada do seu ser. O azul dos
olhos passou a cor de ametista, e cobria-o uma nvoa de
lgrimas. Tinha a sensao de que uma mo de gelo lhe pousara
no corao.
  - No gosta do retrato? - exclamou Hallward, por fim, um
pouco melindrado com o silncio do rapaz, sem compreender o
significado desse silncio.


                              34


  -  claro que gosta - acudiu Lord Henry. - Quem no
gostaria?  uma das coisas mais importantes da arte moderna.
Dou por ele tudo o que me pedir, seja qual for o preo. Tem de
ser meu.
  - Mas ele no me pertence, Harry.
  - De quem , ento?
  - De Dorian, evidentemente - respondeu o pintor.
  - Eis um homem de sorte!
  - Que tristeza! - murmurou Dorian Gray, continuando a fitar
o retrato. - Que tristeza! Vou ficar velho, e horrvel, e
medonho. Mas este retrato permanecer eternamente jovem.
Precisamente como neste dia de Junho. Se pudesse dar-se o
inverso! Ser eu eternamente jovem e o retrato envelhecer!
Daria tudo para que isso acontecesse! Tudo o que h no mundo!
Daria a prpria alma!
  - Um acordo desses no Lhe conviria nada, Basil - exclamou
Lord Henry, rindo. - Seria uma desgraa para o seu trabalho.
  - Eu opor-me-ia veementemente, Harry - disse Hallward.
  Dorian Gray voltou-se e olhou para ele.
  - Acredito que o faria, Basil. Voc gosta mais da sua arte
do que dos amigos. Para si, no passo de uma figura de bronze
verde. Ou nem tanto.
  O pintor arregalava os olhos de espanto. Aquele modo de
falar no tinha nada a ver com Dorian. O que teria acontecido?
Ele parecia to irritado. Tinha a cara afogueada e as faces
escaldantes.
  - Sim - continuou ele -, para si, valho menos do que o seu
Hermes de marfim, ou o seu Fauno de prata. Deles vai gostar
sempre. E de mim, por quanto tempo ir gostar? At aparecer a
minha primeira ruga, suponho. Agora, sei que quando se perde a
beleza, seja ela qual for, perde-se tudo. Isso foi o que o seu
quadro me ensinou. Lord Henry Wotton tem toda a razo. A
juventude  a nica coisa que vale a pena ter. Quando eu
verificar que estou a envelhecer, suicido-me.



                              35


  Hallward empalideceu e agarrou-lhe a mo.
  - Dorian! Dorian! - gritou ele -, no fale assim. Nunca tive
um amigo como voc, nem nunca terei. No tem cimes de coisas
materiais, pois no? Voc  muito mais belo do que qualquer
dessas coisas!
  - Tenho cimes de tudo em que a beleza no morre. Tenho
cimes do meu retrato que voc pintou. Por que h-de ele
conservar o que eu tenho de perder? Cada momento que passa
rouba-me algo, e d-o a ele. Ah, se acontecesse ao contrrio!
Se o retrato pudesse mudar, e pudesse eu ser sempre como sou
agora! Por que  que voc o pintou? Um dia ele vai
desdenhar-me... desdenhar-me terrivelmente.
  Os olhos arrasaram-se de lgrimas escaldantes, retirou a mo
violentamente e, atirando-se para cima do div, enterrou a
cara nas almofadas, como se estivesse a rezar.
  - Isto  obra sua, Harry - disse o pintor, amargamente.
  Lord Henry encolheu os ombros.
  - Este  que  o verdadeiro Dorian Gray.  s isso.
  - No. No .
  - Se no , que tenho eu a ver com isso?
  - Voc devia ter sado quando lhe pedi - sussurrou ele.
  - Eu fiquei quando voc mo pediu - foi a resposta de Lord
Henry.
  - Harry, no posso comear a discutir ao mesmo tempo com os
meus dois melhores amigos, mas de vocs dois, foi voc que me
fez odiar a mais bela obra de arte que j fiz, e vou
destru-la. O que  seno apenas um pedao de tela e cor? No
vou deixar que se venha interpor nas nossas trs vidas e
estrag-las.
  Dorian Gray levantou a sua cabea loira da almofada e, de
rosto plido e os olhos com vestgios de lgrimas, olhou para
o pintor, enquanto este se dirigia para a mesa de apoio, que
se encontrava por baixo da alta janela de cortinas. Que fazia
ele ali? Os seus dedos vasculhavam por entre a confuso de
tubos de estanho e pincis secos,  procura de alguma coisa.


                              36


L estava ela, a comprida esptula com a sua lmina fina de
ao malevel. Finalmente, encontrara-a. Iria rasgar a tela.
  Abafando um soluo, o rapaz levantou-se de um salto, e,
correndo para Hallward, arrancou-lhe da mo a esptula e
arremessou-a para o fundo do atelier.
  - No, Basil, no! - gritou ele. - Seria um crime!
  - Fico satisfeito por, finalmente, voc apreciar a minha
obra, Dorian - disse o pintor, friamente, depois de se refazer
da surpresa. - Nunca pensei que fosse apreci-la.
  - Apreci-la? Estou apaixonado por ela, Basil. Faz parte de
mim mesmo. Sinto-o.
  - Bem, assim que estiver seco, ser envernizado, e
emoldurado, e enviado para sua casa. Depois poder fazer com
ele o que quiser.
  E, atravessando a sala, tocou a campainha para o ch.
  - Vai tomar ch, por certo, Dorian? E voc tambm, Harry? Ou
ope objeces a prazeres to simples?
  - Adoro prazeres simples - respondeu Lord Henry. - So o
ltimo refgio dos complicados. Mas no gosto de cenas, a no
ser no palco. Que indivduos to absurdos vocs os dois! Quem
seria que definiu o homem como um animal racional! Foi a
definio mais prematura que j se fez. O homem  muitas
coisas, mas no  racional. Apesar de tudo, ainda bem que o
no , embora desejasse que vocs no discutissem por causa do
quadro. Seria muito melhor que voc me deixasse ficar com ele,
Basil.  que este rapaz pateta no o quer, ao passo que eu
quero-o mesmo.
  - Se voc deixar que algum, sem ser eu, fique com ele,
Basil, nunca lhe perdoarei! - exclamou Dorian Gray. - E no
permito que me chamem pateta.
  - Voc sabe que o quadro lhe pertence, Dorian. Eu dei-lho
antes de ele existir.
  - O senhor sabe muito bem que foi bastante pateta, Mr. Gray,
e que, na realidade, no se ope a que lhe lembrem que 
extremamente jovem.
  - Devia ter-me oposto vivamente esta manh, Lord Henry.


                              37


  - Ora esta manh! O senhor comeou a viver a partir dessa
altura.
  Bateram  porta, e o mordomo entrou com um tabuleiro
completo para o ch e pousou-o sobre uma pequena mesa
japonesa. Ouviu-se um tilintar de chvenas e pires e o silvo
de uma canelada chaleira georgiana. Um criado trouxe duas
travessas de porcelana em forma de globo. Dorian Gray
aproximou-se e serviu o ch. Os dois homens dirigiram-se
indolentemente para a mesa e espreitaram o que havia por baixo
das tampas.
  - Vamos esta noite ao teatro - alvitrou Lord Henry. - H,
certamente, alguma coisa em cena em qualquer lado. Prometi
jantar em casa do White, mas trata-se apenas de um velho
amigo, por isso posso mandar-Lhe um telegrama a dizer que
estou doente, ou que no posso ir por motivo de um compromisso
posterior. Penso que seria uma desculpa bastante simptica:
teria toda a surpresa da sinceridade.
  -  uma maada to grande ter que vestir roupa de cerimnia
- murmurou Hallward. - E, depois de as vestirmos, ficamos to
horrveis.
  - De facto - respondeu Lord Henry, com ar sonhador -, o
vesturio do sculo XIX  detestvel.  to sombrio, to
deprimente. O pecado  o nico elemento realmente colorido que
ficou na vida moderna.
  - Voc no devia falar assim na presena de Dorian, Harry.
  - Na presena de qual? Aquele Dorian que nos est a servir o
ch, ou o do quadro?
  - Na presena de qualquer deles.
  - Gostaria de ir ao teatro com o senhor, Lord Henry - disse
o rapaz.
  - Ento venha, e voc vem tambm, Basil, no vem?
  - Na verdade, no posso ir.  melhor no ir. Tenho muito
trabalho a fazer.
  - Bem, ento vamos s ns os dois, Mr. Gray.
  - Gostaria imenso.


                              38


  O pintor procurou dominar-se, e, de chvena na mo,
dirigiu-se para o retrato.
  - E eu vou ficar com o verdadeiro Dorian - disse ele, com
tristeza.
  - Esse  o verdadeiro Dorian? - exclamou o original do
retrato, encaminhando-se para ele. - Sou realmente assim?
  - . Voc  exactamente assim.
  - Maravilhoso, Basil!
  - Pelo menos, parece-se com ele na aparncia. Mas este nunca
se modificar - disse Hallward, suspirando. - E isso j 
alguma coisa.
  - Que importncia exagerada se d  fidelidade! - exclamou
Lord Henry. - Ora, mesmo no amor,  simplesmente uma questo
da fisiologia. No tem nada a ver com a nossa prpria vontade.
Os jovens querem ser fiis, e no o so, os velhos querem ser
infiis, e no o conseguem. E est tudo dito.
  - No v ao teatro esta noite, Dorian - pediu-lhe Hallward.
- Fique e jante comigo.
  - No posso, Basil.
  - Porqu?
  - Porque prometi a Lord Henry Wotton que iria com ele.
  - Ele no ir gostar mais de voc s por cumprir as
promessas. Ele mesmo nunca cumpre as que faz. Peo-Lhe que no
v.
  Dorian Gray riu-se e fez que no com a cabea.
  - Suplico-lhe.
  O rapaz hesitou e olhou em direco a Lord Henry, que, do
lugar onde se encontrava, junto  mesa de ch, observava-os,
com um sorriso divertido.
  - Tenho de me ir embora, Basil - respondeu ele.
  - Muito bem - disse Hallward, depois foi colocar a sua
chvena no tabuleiro. - J  tarde, e, como voc tem que mudar
de roupa, seria melhor no perder tempo. Adeus, Harry. Adeus,
Dorian. Venha ver-me em breve. Venha amanh.


                              39


  - Com certeza.
  - No se vai esquecer?
  - No, claro que no - exclamou Dorian.
  - E.. voc, Harry!
  - Diga, Basil.
  - Lembre-se do que Lhe pedi, quando estvamos esta manh no
jardim.
  - J me esqueci.
  - Olhe que confio em si.
  - Quem me dera poder confiar em mim mesmo - disse Lord
Henry, rindo. - Vamos, Mr. Gray, o meu cabriol est l fora,
e posso deix-lo em casa. Adeus, Basil. Foi uma tarde muito
interessante.
  Logo que a porta se fechou quando eles saram, o pintor
atirou-se para um sof, e uma expresso sofrida surgiu-lhe no
rosto.



                         Captulo III


     s doze e trinta do dia seguinte, Lord Henry Wotton foi
de Curzon Street at Albany visitar o tio, Lord Fermor, um
solteiro jovial, ainda que de modos um tanto rudes, a quem o
mundo  sua volta chamava egosta porque dele no recebia
nenhum benefcio especial, mas que era considerado generoso
pela alta sociedade, pois dava de comer s pessoas que o
divertiam. O pai tinha sido embaixador em Madrid quando
Isabella era jovem, e no se pensava em Prim, mas tinha-se
afastado do servio diplomtico num caprichoso momento de
enfado por Lhe no terem oferecido a Embaixada de Paris, um
lugar a que, em sua opinio, tinha pleno direito, por razes
de nascimento, indolncia, o ingls perfeito dos seus
despachos e a sua paixo desregrada pelo prazer. O filho, que
fora secretrio do pai, tinha-se demitido juntamente com o seu
superior, considerada na altura uma atitude tola, e,
conseguindo alguns meses mais tarde o ttulo, lanara-se no
estudo srio da grande arte aristocrtica de no fazer
absolutamente nada. Tinha duas grandes moradias na cidade, mas
preferia viver em quartos alugados, visto que causava menos
confuso, e tomava as refeies no seu clube. Dedicava alguma
ateno  gesto das suas minas de carvo nos condados do
Midland, justificando-se por este vestgio de indstria com
base na nica vantagem de ter carvo: possibilitava a um
cavalheiro a decncia de queimar lenha na sua prpria lareira.
Na poltica era conservador, excepto quando os Conservadores
estavam no poder, perodo em que os insultava por serem um
bando de radicais. Era um heri para o seu criado de quarto,
que o intimidava, e um terror para a maioria dos seus
parentes, a quem ele intimidava,  por sua vez. Ele s poderia
ser um produto de Inglaterra, e dizia sempre que o pas se
estava a arruinar. Os seus princpios eram antiquados, mas
havia muito a dizer dos seus preconceitos.
  Quando Lord Henry entrou na sala, encontrou o tio enfiado
num grosseiro casaco de caa, sentado a fumar um charuto e a
resmungar enquanto lia o Times.
  - Ento, Harry - perguntou o velhote -, o que te traz por c
to cedo? Pensava que vocs, dndis, nunca se levantavam antes
das duas horas, e no eram visveis antes das cinco.
  - Puro afecto familiar, posso assegurar-lhe, tio George.
Preciso de uma coisa de si.
  - Dinheiro, suponho - disse Lord Fermor, torcendo o nariz. -
Bem, senta-te e diz-me o que queres. Hoje em dia, os jovens
imaginam que o dinheiro  tudo.
  -  verdade - murmurou Lord Henry endireitando a botoeira do
seu casaco -, e quando envelhecem sabem que o . Mas, no  de
dinheiro que eu preciso. S as pessoas que pagam as suas
contas  que o precisam, tio George, e eu nunca pago as
minhas. O crdito  o capital de um filho mais novo que vive
sedutoramente dele. Alm disso, eu fao negcios com os
comerciantes de Dartmoor, e, por consequncia, eles nunca me
incomodam. Do que eu preciso  de informaes, no de
informaes teis, evidentemente, mas sim de informaes
inteis.
  - Pois bem, posso dar-te qualquer informao que se encontre
em qualquer Livro-Azul(1) ingls, Harry, ainda que esses
indivduos escrevam, hoje em dia, uma srie de disparates.
Quando eu estava no servio diplomtico, as coisas estavam
muito melhor, Mas ouo dizer que os admitem agora por meio de
um exame. O que  que se pode esperar? Os exames, meu caro,
so uma pura farsa do princpio ao fim. Se o indivduo 
gentleman, tem sabedoria que chegue,


  *1. Livro onde se encontram registados os nomes dos membros
da alta sociedade. (N. da T.)


                              42


se no for um gentleman, saiba o que souber  mau para ele.
  - Mr. Dorian Gray no faz parte dos livros azuis, tio George
- disse Lord Henry, com o seu ar lnguido.
  - Mr. Dorian Gray? Quem  ele? - perguntou Lord Fermor,
franzindo as suas fartas sobrancelhas brancas.
  -  isso mesmo que venho saber, tio George. Ou antes, sei
quem ele .  o neto do ltimo Lord Kelso. A me era uma
Devereux - Lady Margaret Devereux. Queria que falasse da me
dele. Como era ela? Com quem casou? O senhor conheceu quase
toda a gente do seu tempo, por isso pode t-la conhecido. De
momento, estou muito interessado por Mr. Gray. Acabo de o
conhecer.
  - Neto de Kelso! - repetiu, como um eco, o velho. - Neto de
Kelso!... Mas claro... conheci a me dele intimamente. Creio
que assisti ao seu baptizado. Era uma rapariga de beleza
extraordinria, Margaret Devereux, e deixou todos os homens
desvairados, quando fugiu com um jovem sem vintm,
simplesmente um z-ningum, meu caro, um subalterno de um
regimento de infantaria, ou qualquer coisa desse gnero. Com
certeza. Lembro-me de tudo como se tivesse acontecido ontem. O
pobre diabo morreu num duelo em Spa, uns meses a seguir ao
casamento. Correu uma histria desagradvel acerca disso.
Dizia-se que Kelso contratou um miservel aventureiro, um
belga abrutalhado, para insultar o genro em pblico, pagou-lhe
para o fazer, meu caro, pagou-lhe, e que o tal indivduo o
trespassou como a um passarinho. A coisa foi abafada, mas,
senhores, depois Kelso passou a comer sozinho no clube durante
algum tempo. Trouxe a filha de volta com ele, segundo me
contaram, mas ela deixou de lhe falar. Foi um caso muito
grave. A rapariga tambm morreu depois, morreu no espao de um
ano. Mas deixou um filho, no  assim? Tinha-me esquecido
disso. Como  o rapaz?. Se for como a me, deve ser um
indivduo bem parecido.
  - E muito bem parecido -- confirmou Lord Henry.
  - Espero que ele tenha arrecadado uma boa herana,


                              43


- continuou o velho. - Ele devia ter uma boa maquia  sua
espera, se  que Kelso deixou as disposies adequadas. A me
tambm tinha dinheiro. Todos os bens Selby ficaram para ela
atravs do av. O av odiava Kelso, considerando-o um co de
m raa. Mas ele tambm o era. Uma vez veio a Madrid quando eu
ainda l estava. Meu Deus, como ele me fez passar por uma
vergonha. A rainha costumava perguntar-me pelo aristocrata
ingls que discutia sempre os preos das corridas com os
cocheiros. No falavam de outra coisa. Durante um ms, no me
atrevi a pr os ps na Corte. Espero bem que ele tenha tratado
o neto melhor do que tratou os cocheiros.
  - No sei - respondeu Lord Henry. - Imagino que o rapaz vive
com desafogo. Ainda no atingiu a maioridade. Sei que Selby
lhe pertence. Foi ele que mo disse. E... a me era muito
bonita?
  - Margaret Devereux era uma das criaturas mais lindas que j
vi, Harry. Mas por que cargas de gua foi ela fazer o que
fez?! Nunca cheguei a perceber. Ela podia ter casado com quem
quisesse. Carlington era louco por ela. Mas ela era uma
romntica, como todas as mulheres daquela famlia. Os homens
no valiam nada, mas, senhores, as mulheres eram maravilhosas.
Carlington ajoelhava-se-lhe aos ps. Ela prpria mo confessou.
Ela ria-se dele, e, contudo, no havia rapariga em Londres que
nesse tempo no andasse atrs dele. E a propsito de
casamentos disparatados, Harry, que farsa  essa, que o teu
pai me conta, de Dartmoor querer casar com uma americana?
Ento as raparigas inglesas no Lhe servem?
  - Sabe, tio George, agora  moda casar com americanas.
  - Pois eu, Harry, apoio as mulheres inglesas contra todo o
mundo - disse Lord Fermor, batendo com o punho na mesa.
  - Todos apostam nas americanas.
  - Mas no vai durar muito, segundo me disseram - resmungou o
tio.
  - Um noivado prolongado fatiga-as, mas elas so muito boas
na corrida de obstculos. Elas apanham as coisas a voar. No
me parece que Dartmoor tenha sorte.


                              44


  - Quem  a famlia dela? - resmungou o velhote. - Ela tem
alguma?
  Lord Henry abanou a cabea negativamente.
  - As raparigas americanas so to hbeis a esconder os pais
como o so as mulheres inglesas a encobrir o seu passado -
disse ele, levantando-se para sair.
  - Eles devem dedicar-se ao negcio de carne de porco
embalada, no achas?
  - Espero bem que sim, tio George, para bem de Dartmoor.
Disseram-me que o negcio de carne de porco embalada  a
profisso mais lucrativa da Amrica, a seguir  poltica.
  - E ela  bonita?
  - Comporta-se como se o fosse. De resto,  como faz a
maioria das mulheres americanas. Esse  o segredo do seu
encanto.
  - Porque  que estas mulheres americanas no ficam por l no
seu pas? Andam sempre a dizer-nos que  o Paraso das
mulheres.
  - E . Esse  o motivo porque, tal como Eva, esto demasiado
ansiosas por sair de l - disse Lord Henry. - Adeus, tio
George. Vou chegar atrasado ao almoo, se ficar mais tempo.
Obrigado por me ter prestado as informaes que eu queria.
Gosto sempre de saber tudo dos meus novos amigos, e nada
acerca dos velhos.
  - Onde vais almoar, Harry?
  - Em casa da tia Agatha. Fiz-me convidado, a mim e a Mr.
Gray. Ele  o seu protg mais recente.
  - Hum! Harry, diz  tua tia Agatha que no me mace mais com
os seus pedidos de beneficncia. Estou farto deles. Ora a boa
da mulher pensa que no tenho mais nada que fazer, seno
preencher cheques para as suas loucas excentricidades.
  - Est bem, tio George, eu digo-lhe, mas no far nenhum
efeito. As pessoas filantrpicas perdem todo o sentido de
humanidade.  a sua caracterstica especial.
  O velhote emitiu um grunhido de aprovao, e tocou a
campainha para chamar o criado.


                              45


Lord Henry foi ter a Burlington Street passando pela baixa
arcada, e dirigiu os seus passos em direco a Berkeley
Square.
  Ento, era essa a histria da ascendncia de Dorian Gray.
Apesar de Lhe ter sido contada de maneira to crua,
causara-lhe uma certa perturbao, por sugerir um estranho
romance de amor quase moderno. Uma mulher bela que arrisca
tudo por uma louca paixo. Umas semanas delirantes de
felicidade bruscamente interrompida por um crime hediondo e
traioeiro. Meses de tormento silenciado, e, depois, uma
criana nascida no meio do sofrimento. A me arrebatada pela
morte, o rapaz  merc da solido e da tirania de um homem
velho e insensvel. Era, de facto, um passado interessante.
Definia o rapaz, tornando-o, por assim dizer, mais perfeito.
Por detrs da coisa mais delicada, havia sempre alguma coisa
de trgico. Os mundos tinham de sofrer as dores de parto, para
que pudesse nascer a flor mais insignificante... E que
encantador ele tinha sido ao jantar da noite anterior, quando,
de olhar assustado e lbios entreabertos de prazer e medo, se
tinha sentado  sua frente no clube, as sombras avermelhadas
das velas dando um rosa mais rico ao despertar do espanto no
seu rosto. Conversar com ele era como tocar um violino
primoroso. Ele respondia a cada toque e vibrao do arco... O
exerccio da influncia era, simultaneamente, terrvel e
fascinante. No havia outra actividade que se lhe
assemelhasse. Projectar a nossa alma em algum de figura
graciosa e deix-la demorar-se a por um momento, ouvir os
nossos pontos de vista intelectuais soarem-nos como um eco,
com toda a msica dada pela paixo e a juventude, transmitir o
nosso temperamento a outra pessoa como se fosse um fluido
subtil ou um estranho perfume - tudo isso transmitia
verdadeiro jbilo, talvez a alegria mais gratificante para
ns, quando nos encontramos numa poca to limitada e vulgar,
uma poca grosseiramente carnal nos seus prazeres e
grosseiramente banal nos seus objectivos... Era tambm um
rapaz maravilhoso, este que, por um acaso to extraordinrio,
ele encontrara no atelier do Basil, ou, de qualquer modo,


                              46


poderia vir a transformar-se num tipo maravilhoso. Possua a
graa e a pureza impoluta da infncia, e a beleza igual  que
os antigos mrmores gregos nos guardaram. No havia nada que
no se pudesse fazer dele. Podia ser transformado em Tit ou
em brinquedo. Que pena que essa beleza estivesse destinada a
fenecer!... E Basil? Que interessante era, sob um ponto de
vista psicolgico! A nova forma de arte, o modo renovado de
olhar para a vida, estranhamente sugeridos pela simples
presena fsica de algum que nem disso tinha conscincia, o
esprito silencioso, que habitava o bosque sombrio e caminhava
invisvel em pleno campo, revelava-se, de sbito, como um.a
Drade, e sem receio, porque na alma de quem o procurava tinha
despertado essa viso maravilhosa  qual unicamente so
reveladas as coisas deslumbrantes, as simples formas e modelos
das coisas a tornarem-se, por assim dizer, refinadas e
ganhando uma espcie de valor simblico, como se elas mesmas
fossem modelos de outra forma mais perfeita, cuja sombra elas
tornavam reais. Que estranho era tudo isso! Ele lembrava-se de
algo semelhante na histria. No foi Plato, esse artista do
pensamento, quem primeiro o analisara? No foi Buonarotti que
o esculpira nos mrmores coloridos de uma sequncia de soneto?
Mas, no nosso sculo, era estranho... Sim, ele tentaria ser
para Dorian Gray, sem que disso se apercebesse, o que o rapaz
era para o pintor que tinha dado forma ao retrato
extraordinrio. Procuraria domin-lo. Na verdade, j em parte
o fizera. Tornaria seu esse esprito fantstico. Havia um
certo fascnio neste filho do Amor e da Morte.
  Deteve-se, de repente, e olhou para as casas. Viu que tinha
deixado para trs, a alguma distncia, a casa de sua tia, e,
sorrindo para si mesmo, retrocedeu. Quando entrou no vestbulo
um pouco sombrio, o mordomo anunciou-lhe que j todos tinham
entrado na sala para almoar. Entregou a um dos lacaios o
chapu e a bengala, e passou  sala de jantar.
  - Atrasado como sempre, Harry - exclamou a tia, abanando a
cabea num gesto de reprovao.


                              47


  Ele inventou uma desculpa fcil e, depois de ter ocupado o
lugar vago ao lado dela, olhou  sua volta para ver quem
estava l. Dorian acenou-lhe timidamente l do extremo da
mesa, ao mesmo tempo que lhe subia ao rosto um rubor de
prazer.  sua frente encontrava-se a duquesa de Harley, uma
senhora de admirvel ndole generosa e de bom temperamento,
muito querida de todos os que a conheciam, e possuindo aquelas
amplas propores arquitecturais que, em mulheres que no so
duquesas, os historiadores contemporneos designam por
corpulncia. Ao lado dela,  sua direita, estava Sir Thomas
Burdon, um membro radical do Parlamento, que, na vida pblica,
seguia o seu lder, e, na vida privada, seguia os melhores
cozinheiros, jantando com os Conservadores, e pensando com os
Liberais, de acordo com uma regra de prudncia muito
conhecida. O lugar  esquerda da duquesa era ocupado por Mr.
Erskine de Treadley, um cavalheiro idoso, de cultura e encanto
considerveis, que, porm, adquirira desagradveis hbitos de
silncio, pois que, como ele explicara uma vez a Lady Agatha,
j dissera tudo que tinha a dizer antes dos seus trinta anos.
Ao lado dele estava Mrs. Vandeleur, uma das mais velhas amigas
de sua tia, uma verdadeira santa entre as mulheres, mas to
horrivelmente desmazelada no vestir, que lhe fazia lembrar um
daqueles livros de cnticos com a encadernao em mau estado.
Felizmente para ele, do outro lado dela, encontrava-se Lord
Faudel, um inteligentssimo medocre de meia idade, to calvo
como um relatrio ministerial da Cmara dos Comuns, e com quem
ela conversava, daquela maneira intensamente fervorosa que  o
nico erro imperdovel - como ele prprio uma vez notara - em
que caem todas as pessoas verdadeiramente boazinhas, e a que
nenhuma delas consegue escapar.
  - Estamos a falar do pobre Dartmoor, Lord Henry - observou a
duquesa, do outro lado da mesa, com um simptico aceno de
cabea para ele. - Acha que ele ir mesmo casar com essa jovem
to fascinante?


                              48


  - Eu creio que ela decidiu pedi-lo em casamento, duquesa.
  - Que horror! - exclamou Lady Agatha. - Realmente devia
haver a interveno de algum.
  - Eu soube de fonte segurssima que o pai dela tem um
armazm de produtos secos americanos - disse Sir Thomas
Burdon, com um ar de superioridade.
  - O meu tio j sugeriu que se tratava de carne de porco
embalada, Sir Thomas.
  - Produtos secos! O que so produtos secos americanos? -
perguntou a duquesa, levantando as suas mos enormes em sinal
de espanto, e acentuando o verbo.
  - Romances americanos - respondeu Lord Henry, servindo-se de
um pouco de codorniz.
  A duquesa ficou confusa.
  - No lhe d importncia, minha querida - segredou Lady
Agatha. - Ele nunca fala a srio.
  - Quando se descobriu a Amrica - disse o membro radical,
comeando a fornecer alguns factos fastidiosos. Como todas as
pessoas que tentam esgotar um assunto, ele esgotava os seus
ouvintes.
  A duquesa suspirou e exerceu o seu privilgio de poder
interromper.
  - Oxal nunca tivesse sido descoberta! - exclamou. - Na
verdade, as nossas meninas no tm, hoje, sorte nenhuma.  uma
enorme injustia.
  - Talvez que, no fim de contas, a Amrica nunca tenha sido
descoberta - acrescentou Mr. Erskine. - Eu diria mesmo que
tinha sido detectada.
  - Oh! Mas eu vi alguns exemplares dos seus habitantes -
respondeu a duquesa, de um modo vago. - Devo confessar que a
maioria  extremamente bonita. E tambm vestem bem. Mandam vir
todos os seus vestidos de Paris. Quem me dera poder dar-me ao
luxo de fazer o mesmo.
  - Dizem que, quando morrem, os americanos bons vo para
Paris - casquinou Sir Thomas, que tinha um vasto guarda-roupa
de peas de refugo da casa Humour.


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  - Ah, vo? E para onde vo os americanos maus quando morrem?
- quis saber a duquesa.
  - Vo para a Amrica - murmurou Lord Henry.
  Sir Thomas carregou o sobrolho.
  - Parece-me que o seu sobrinho tem preconceitos
relativamente a esse grande pas - disse ele a Lady Agatha. -
Viajei por toda a Amrica, em automveis providenciados pelos
directores que, em assuntos desta natureza, so de uma extrema
urbanidade. Posso garantir que visit-la  um acto educativo.
  - Mas precisamos mesmo de visitar Chicago para nos
educarmos? - perguntou Mr. Erskine, melancolicamente. - No me
sinto capaz de uma viagem dessas.
  Sir Thomas esboou um gesto com a mo.
  - Mr. Erskine de Treadley tem o mundo na sua estante. Ns,
os homens prticos, gostamos de ver as coisas, e no de ler
acerca delas. Os Americanos so um povo extremamente
interessante. So extraordinariamente sensatos. Creio que  a
sua caracterstica especfica. Repito, Mr. Erskine, um povo
extraordinariamente sensato. Tenho a certeza de que no existe
falta de sensatez entre os Americanos.
  - Que horror! - exclamou Lord Henry. - Consigo suportar a
fora bruta, mas a sensatez bruta  absolutamente intolervel.
H uma certa deslealdade na sua utilizao. Aplica o golpe
abaixo do intelecto.
  - No o entendo - retorquiu Sir Thomas, um pouco corado.
  - Mas eu entendo, Lord Henry - murmurou Mr. Erskine, com um
sorriso.
  - Os paradoxos so muito correctos  sua maneira... -
replicou o baronete.
  - Aquilo era um paradoxo? - perguntou Mr. Erskine. - No me
pareceu. Talvez fosse. Bem, a maneira dos paradoxos  a
maneira de chegar  verdade. Para testar a Realidade  preciso
v-la a fazer equilbrio. Quando as verdades se tornam
acrobatas  que podemos avali-las.


                           50  51


  - Valha-me Deus! - disse Lady Agatha -, como vocs
argumentam! Estou convencida de que nunca irei perceber de que
 que vocs esto a falar. Oh, Harry, estou muito aborrecida
contigo. Porque tentaste convencer o nosso simptico Mr.
Dorian Gray a desistir do East End? Garanto-te que ele seria
indispensvel. Eles adorariam ouvi-lo tocar.
  - Eu quero que ele toque para mim - exclamou Lord Henry, a
sorrir; percorreu a mesa com o olhar, e encontrou a resposta
no entusiasmo de outros olhos.
  - Mas, em Whitechapel so to infelizes - continuou Lady
Agatha.
  - Eu sou capaz de ter simpatia por tudo, excepto pelo
sofrimento - disse Lord Henry, encolhendo os ombros. - No
consigo condoer-me.  demasiado feio, demasiado horrvel,
demasiado confrangedor. H um sentimento terrivelmente mrbido
na moderna simpatia pela dor. Ns devamos simpatizar com a
cor, a beleza, a alegria da vida. Quanto menos se falar das
chagas da vida, melhor.
  - E, contudo, o East End  um problema muito importante -
fez notar Sir Thomas, com um grave aceno de cabea.
  - Absolutamente - respondeu o jovem lorde. -  tambm o
problema da escravatura, que tentamos resolver divertindo os
escravos.
  O poltico olhou para ele intensamente.
  - Que transformaes prope ento? - perguntou.
  Lord Henry riu-se.
  - No desejo mudar nada em Inglaterra, excepto o tempo -
respondeu ele. - Satisfaz-me bastante a reflexo filosfica.
Mas, como o sculo xIx abriu falncia devido a um excesso de
dispndio com a simpatia, eu sugeria que recorrssemos 
Cincia para nos organizar. A vantagem das emoes  a de nos
extraviar, e a vantagem da Cincia  a de no ter emoes.
  - Mas ns temos responsabilidades to graves - arriscou Mrs.
Vandeleur, timidamente.
  - Terrivelmente graves - repetiu, como um eco, Lady Agatha.
  Lord Henry dirigiu um olhar para Mr. Erskine.
  - A Humanidade leva-se a si prpria demasiado a srio. Esse
 o pecado original do mundo. Se o homem da caverna tivesse
aprendido a rir, a Histria teria sido diferente.
  - O senhor, realmente, deu-me nimo - interveio a duquesa,
com gorjeios na voz. - Tive sempre uma certa sensao de culpa
quando vinha ver a sua querida tia, pois no me interessa
absolutamente nada o East End. Futuramente, poderei olh-la de
frente sem corar.
  - Um certo rubor fica muito bem, duquesa - observou Lord
Henry.
  - S quando somos jovens - retorquiu ela. - Quando uma
senhora de idade como eu fica corada  mau sinal. Ai, Lord
Henry, se me pudesse dizer como ficar jovem outra vez.
  Ele ficou a pensar por uns instantes.
  - Consegue lembrar-se de algum erro grave que tenha cometido
nos seus tempos de juventude, duquesa? - perguntou-Lhe ele,
olhando-a do outro lado da mesa.
  - Muitos, receio bem - exclamou ela.
  - Ento cometa-os outra vez - disse ele, gravemente. - Para
se voltar  juventude, basta que se repitam as mesmas
loucuras.
  - Que teoria deliciosa! - exclamou ela. - Tenho de p-la em
prtica.
  - Que perigosa teoria! - foram as palavras sadas dos lbios
estreitamente apertados de Sir Thomas.
  Lady Agatha abanou a cabea, mas no pde deixar de se
sentir divertida. Mr. Erskine escutava atentamente.
  - Sim - continuou Lord Henry -, esse  um dos grandes
segredos da vida. Actualmente, grande parte das pessoas morre
de uma espcie de senso comum arrepiante, e, quando 
demasiado tarde, chega  concluso de que as nicas coisas de
que nunca nos arrependemos so os nossos erros.
  Houve uma gargalhada geral  volta da mesa.
  Ele brincava com a ideia, e tornava-se intencional,
atirava-a ao ar e transformava-a, deixava-a escapar-se,


                              52


e tornava a apanh-la, dava-lhe iridescncias de fantasia e
asas de paradoxo. O louvor da loucura,  medida que ele
continuava, ascendia  altura de uma filosofia, e a prpria
Filosofia rejuvenescia: apreendendo a msica louca do Prazer e
usando, como se podia imaginar, o seu manto manchado de vinho
e a grinalda de hera, danava como uma bacante pelas colinas
da vida e zombava do lento Sileno, por se encontrar sbrio. Os
factos fugiam  frente dela como criaturas silvestres
assustadas. Os seus alvos ps calcavam a enorme prensa, junto
da qual se encontra sentado o sbio Omar, at que o sumo de
uva efervescente subia, rodeando os seus membros nus em roxas
ondas borbulhantes, ou transbordava em espuma vermelha os
lados inclinados e gotejantes da dorna. Era um improviso
extraordinrio. Ele sentia que os olhos de Dorian Gray o
fitavam, e a percepo de que entre os que o ouviam havia
algum cujo temperamento desejava fascinar parecia transmitr
subtileza ao seu esprito e emprestar cor  sua imaginao.
Ele foi brilhante, fantstico, irresponsvel. O seu fascnio
arrebatava os que o escutavam, e estes seguiam-no
incondicionalmente, rindo s gargalhadas. Dorian Gray nunca
desviou o olhar, antes parecia enfeitiado, com sorrisos
brincando nos seus lbios e um espanto grave nos olhos
escurecidos.
  Por fim, usando libr,  moda da poca, a Realeza entrou na
sala na pessoa de um criado a anunciar  duquesa que a
carruagem a esperava. Ela torceu as mos, fingindo-se
desesperada.
  - Que maada! - exclamou. - Tenho de partir. Tenho que
passar pelo clube para levar o meu marido a uma reunio
absurda nas Williss Rooms, a que ele vai presidir. Se me
atrasar, de certeza que vai ficar furioso e eu no poderia
enfrentar uma cena com esta touca.  demasiado frgil. Uma
palavra brusca acabaria com ela. Tenho mesmo de me retirar,
querida Agatha. Adeus, Lord Henry, o senhor  encantador, e
horrivelmente desmoralizante. Francamente, no sei que dizer
sobre as suas opinies. Tem que vir jantar connosco uma noite
destas. Pode ser tera-feira? No tem compromissos para
tera-feira?


                              53



  - Por si, duquesa, eu abandonaria qualquer pessoa -
respondeu Lord Henry, com uma vnia.
  - Ah!  muito simptico, e tambm muito errado, da sua parte
- exclamou ela -, veja l no falte.
  E saiu impetuosamente da sala, seguida de Lady Agatha e de
outras senhoras.
  Quando Lord Henry se voltara a sentar, Mr. Erskine deixou o
seu lugar do outro lado da mesa e, sentando-se numa cadeira
perto dele, colocou-lhe a mo no brao.
  - O senhor fala como nos livros - disse ele. - Porque no
escreve um tambm?
  - Gosto demasiado de os ler para me preocupar em
escrev-los, Mr. Erskine.  certo que gostaria de escrever um
romance, um romance que fosse to belo como um tapete persa, e
igualmente irreal. Porm, no h em Inglaterra um pblico
literato, apenas se lem jornais, devocionrios e
enciclopdias. De todos os povos do mundo, os Ingleses so os
que possuem em menor grau o sentido da beleza da literatura.
  - Temo que tenha razo - respondeu Mr. Erskine. - At eu
cheguei a ter ambies literrias, mas h muito tempo que
desisti. E agora, meu caro e jovem amigo - se  que me permite
trat-lo assim -, posso perguntar-lhe se falava a srio,
quando nos disse tudo aquilo ao almoo?
  - Esqueci tudo o que disse - respondeu Lord Henry, sorrindo.
- Foi assim to desagradvel?
  - Mesmo muito. Na verdade, considero o senhor extremamente
perigoso. E se alguma coisa acontecer  nossa querida duquesa,
acus-lo-emos todos de ser o principal responsvel. Mas o que
eu gostaria era de conversar consigo acerca da vida. A gerao
a que pertenci era enfadonha. Um dia destes, quando estiver
farto de Londres, venha at Treadley, e, ento, explicar-me-
a sua filosofia do prazer, enquanto provamos um Borgonha
excelente que tenho a sorte de possuir.


                              54


  - Ser um prazer. Uma visita a Treadley seria um grande
privilgio, visto ir encontrar um ptimo anfitrio e uma
ptima biblioteca.
  - E que ficaria completa com a sua presena - retorquiu o
ancio, com uma vnia de cortesia. - E agora tenho de
despedir-me da senhora sua tia. Tenho encontro marcado no
Ateneu.  a hora de adormecermos l.
  - Todos vs, Mr. Erskine?
  - Somos quarenta, em quarenta poltronas. Estamo-nos a
treinar para uma Academia Inglesa de Letras.
  Lord Henry desatou a rir e levantou-se.
  - Eu vou at ao Parque - exclamou.
  Ao transpor a porta, Dorian Gray tocou-lhe no brao.
  - Permita-me que v consigo - murmurou.
  - Mas eu supunha que o senhor tinha prometido a Basil
Hallward ir visit-lo - respondeu-lhe Lord Henry.
  - Prefiro ir consigo. Sinto que tenho de ir consigo.
Permita-mo, por favor. E promete conversar comigo todo o
tempo? No h ningum que fale de maneira to assombrosa como
o senhor.
  - Ah, por hoje j falei o suficiente - comentou Lord Henry,
a sorrir. - Agora tudo o que desejo  contemplar a vida. Pode
vir contempl-la comigo, se quiser.


                           Captulo IV


     Uma tarde, passado um ms, estava Dorian Gray recostado
numa sumptuosa poltrona, na pequena biblioteca da casa de Lord
Henry, em Mayfair. Era, no seu estilo, uma sala encantadora,
com altos lambris de carvalho cor de azeitona, friso creme,
tecto de estuque lavrado e alcatifa de feltro cor de tijolo
juncada de tapetes persas de seda franjados. Sobre uma pequena
mesa de pau-cetim, estava uma estatueta de Clodion e um
exemplar de Les Cent Nouvelles, encadernada para Margarida de
Valois por Clovis Eve e ornamentada com as margaridas douradas
que a rainha adoptara como sua divisa. Umas jarras azuis de
porcelana e umas tlipas ornamentavam o rebordo da chamin, e,
atravs das pequenas vidraas da janela, coava-se a luz cor de
damasco de um dia de Vero londrino.
  Lord Henry ainda no tinha chegado. Normalmente, atrasava-se
sempre, tendo por princpio que a pontualidade  o ladro do
tempo. Por isso o rapaz estava um pouco aborrecido, enquanto
os seus dedos distrados folheavam uma edio primorosamente
ilustrada de Manon Lescaut, que encontrara numa das estantes.
A monotonia do tiquetaque metdico do relgio Lus XIV
incomodava-o. Por uma ou duas vezes pensou em ir-se embora.
  Finalmente ouviu passos, e a porta abriu-se.
  - To atrasado, Harry! - murmurou.
  - No foi o Harry quem chegou, Mr. Gray - respondeu uma voz
aguda.
  Ele olhou rapidamente de relance, e levantou-se.
  - Peo perdo. Pensava...
  - Pensava que era o meu marido.  apenas a sua esposa.


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Permita-me que seja eu mesma a apresentar-me. J o conheo
muito bem pelas fotografias. Creio que o meu marido tem umas
dezassete.
  - Dezassete, no, Lady Henry!
  - Ento, sero dezoito. E vi o senhor na companhia dele, uma
noite destas na pera.
  Ela ria nervosamente enquanto falava, e observava-o com uns
olhos vagos cor de miostis. Era uma mulher estranha, cujos
vestidos pareciam ter sido inventados num momento de fria, e
usados em dia de vendaval. Habitualmente estava apaixonada por
algum, mas, como as suas paixes nunca eram retribudas,
mantinha todas as suas iluses. Esforava-se por ter um
aspecto original, e s conseguia ter um ar desalinhado.
Chamava-se Victoria, e tinha uma rematada mania de frequentar
a igreja.
  - Foi no Lohengrin, no foi, Lady Henry?
  - Foi, foi no nosso querido Lohengrin. No h ningum que
goste mais da msica de Wagner do que eu.  to ruidosa que
podemos conversar todo o tempo sem que ningum nos oia.  uma
grande vantagem. No acha, Mr. Gray?
  Dos seus lbios finos irrompia o mesmo riso nervoso em
staccato, e os seus dedos comearam a brincar com uma comprida
faca de tartaruga.
  Dorian sorriu e abanou a cabea.
  - No me parece, Lady Henry. Nunca converso durante a
msica, pelo menos quando  boa msica. Se a msica for m,
ento  nosso dever abaf-la com a nossa conversa.
  - Ah, essa  uma das opinies do Harry, no  assim, Mr.
Gray? Costumo ouvir as opinies dele pela boca dos amigos. S
assim  que fico a conhec-las. Mas no deve pensar que no
gosto de boa msica. Adoro-a, mas tenho medo dela. Torna-me
excessivamente romntica. Tenho tido uma enorme adorao por
pianistas - s vezes, por dois ao mesmo tempo, disse-me o
Harry. No sei o que tm de especial. Talvez por serem
estrangeiros. Todos eles o so, no  verdade? Mesmo os que
nasceram em Inglaterra ficam estrangeirados passado algum
tempo, no ficam?


                              57


Isso s revela talento da parte deles, e  tambm uma
homenagem  Arte. Torna-a muito cosmopolita, no acha? Ah,
nunca esteve em nenhuma das minhas recepes, pois no, Mr.
Gray? Tem de aparecer. No posso gastar dinheiro em orqudeas,
mas no olho a despesas com estrangeiros. Do um ar to
pitoresco aos nossos sales. Ah! O Harry j chegou! Harry, vim
 sua procura para lhe fazer uma pergunta sobre qualquer coisa
que j esqueci, e encontrei Mr. Gray. Tivemos uma conversa
muito agradvel sobre msica. Temos exactamente as mesmas
ideias. No, creio que as nossas ideias so completamente
diferentes. Mas foi agradabilssimo. Ainda bem que o
encontrei.
  - Folgo muito em saber, meu amor, mesmo muito - comentou
Lord Henry, erguendo as sobrancelhas escuras em forma de
crescente e olhando para os dois com um sorriso divertido. -
Peo desculpa por chegar atrasado, Dorian. Fui ver se
conseguia um pedao de brocado antigo em Wardour Street, e
tive que regatear horas e horas. Actualmente, as pessoas sabem
o preo de tudo e no sabem o valor de coisa nenhuma.
  - Tenho de me ir embora - exclamou Lady Henry, interrompendo
um silncio incmodo com o seu sbito riso apalermado. -
Prometi passear de carro com a duquesa. Adeus, Mr. Gray.
Adeus, Harry. Suponho que jantas fora. Eu tambm. Talvez te
encontre em casa de Lady Thornbury.
  -  provvel, querida - disse Lord Henry, fechando a porta
depois de ela, qual ave do paraso que tivesse passado a noite
 chuva, ter sado rapidamente da sala, deixando atrs de si
um leve aroma de frangipana. Depois ele acendeu um cigarro e
refastelou-se no sof.
  - Nunca case com uma mulher de cabelo cor de palha, Dorian -
disse, aps umas fumaas.
  - Porqu, Harry?
  - Porque so to sentimentais.
  - Mas eu gosto de pessoas sentimentais.


                              58


  -  melhor nunca se casar, Dorian. Os homens casam-se por
cansao, as mulheres, por curiosidade, e uns e outros ficam
decepcionados.
  - No  provvel que eu me case, Henry. Estou demasiado
apaixonado. Esse  um dos seus aforismos. Estou a p-lo em
prtica, como fao com tudo o que voc diz.
  - Por quem est apaixonado? - perguntou Lord Henry, aps uma
pausa.
  - Por uma actriz - respondeu Dorian Gray, corando.
  - Para estreia, no  nada original - disse Lord Henry,
encolhendo os ombros.
  - Se a conhecesse no diria isso, Harry.
  - Quem  ela?
  - Chama-se Sibyl Vane.
  - Nunca ouvi falar dela.
  - Nem ningum. Mas um dia as pessoas ho-de ouvir falar
dela. Ela  um gnio.
  - Meu caro, no h mulher alguma que seja um gnio. As
mulheres pertencem ao sexo de ornamento. Nunca tm nada para
dizer, mas dizem-no de uma maneira encantadora. As mulheres
representam o triunfo da matria sobre o esprito, ao passo
que os homens representam o triunfo do esprito sobre a moral.
  - Harry, como  possvel que fale assim?
  - Meu caro Dorian,  rigorosamente verdade. Presentemente,
dedico-me a analisar as mulheres, por isso  natural que
saiba. O assunto no  to confuso como eu pensei que fosse.
Acabo de descobrir que, basicamente, h apenas duas espcies
de mulheres: as simples e as pintadas. As mulheres simples so
muito teis. Se quisermos obter reputao de respeitabilidade,
levamo-las simplesmente a cear. As outras mulheres so
encantadoras. Cometem, porm, um erro. Pintam-se para tentar
parecer jovens. As nossas avs pintavam-se a fim de tentar
conversar com brilhantismo. Rouge e esprit costumavam andar
juntos. Tudo isso acabou j. Assim que consegue parecer dez
anos mais nova do que a prpria filha, uma mulher fica
totalmente satisfeita. Relativamente a conversao,


                              59


h unicamente cinco mulheres em Londres com quem vale a pena
conversar, e duas delas no podem ser admitidas na sociedade
de boas maneiras. Mas, fale-me do seu gnio. H quanto tempo a
conhece?
  - Ah! As suas teorias assustam-me, Harry.
  - No d importncia. H quanto tempo a conhece?
  - H aproximadamente trs semanas.
  - E onde  que a conheceu?
  - Eu conto, Harry. Mas voc tem que ser um pouco indulgente.
No fim de contas, isto nunca teria acontecido se eu no o
tivesse encontrado. Foi voc que fez nascer dentro de mim um
desejo desenfreado de conhecer todas as coisas da vida. Depois
de o ter encontrado, e durante vrios dias, parecia que havia
algo a latejar nas minhas veias. Quando deambulava pelo
Parque, ou caminhava at Piccadilly, costumava olhar para
todas as pessoas que passavam e apoderava-se de mim uma louca
curiosidade de saber como eram as suas vidas. Umas
fascinavam-me. Outras enchiam-me de terror. Pairava no ar um
veneno subtil. Eu sentia paixo pelas sensaes... Ora uma
noite, por volta das sete horas, resolvi sair em busca de uma
aventura. Sentia que esta nossa Londres cinzenta e monstruosa,
com suas mirades de pessoas, os seus srdidos pecadores, e os
seus gloriosos pecados - como voc uma vez fraseou -, devia
ter alguma coisa reservada para mim. Imaginei milhares de
coisas. A simples ideia de perigo provocava em mim uma
sensao deliciosa. Lembrei-me do que voc me havia dito
naquela noite maravilhosa em que jantmos juntos pela primeira
vez: procurar a verdade  o verdadeiro segredo da vida. No
sei do que estava  espera, mas encaminhei-me ao acaso para a
zona oriental, perdendo-me pouco depois num labirinto de ruas
imundas e praas escuras e sem relva. Deviam ser umas oito
horas e trinta quando passei por um teatrinho ridculo,
iluminado pelo claro de enormes bicos de gs e exibindo uns
cartazes de mau gosto. Um judeu repelente, com o colete mais
espantoso que j vi em toda a minha vida, estava  entrada a
fumar um cigarro abominvel.


                              61


O cabelo tnha uns pequenos caracis oleosos, e mesmo ao
centro da camisa imunda luzia um enorme diamante. "Quer um
camarote, senhor?", perguntou ele quando me viu, tirando o
chapu com um gesto de servilismo exagerado. Mas, Harry, havia
nele qualquer coisa que me divertia. Era tal qual um monstro.
Vai rir-se de mim, eu sei, mas entrei mesmo e paguei um guinu
por um camarote de proscnio. Ainda hoje no consigo descobrir
o motivo por que o fiz. Porm, se o no tivesse feito, meu
caro Harry, se no tivesse... teria perdido a maior aventura
amorosa da minha vida. Bem vejo que est a rir-se. No seja
horrvel!
  - No estou a rir-me, Dorian, isto , no estou a rir-me de
voc. Voc no deveria ter dito a maior aventura amorosa da
sua vida, mas sim a primeira aventura amorosa da sua vida.
Voc ser sempre amado e estar sempre apaixonado pelo amor.
Uma grande passion  privilgio dos que no tm nada que
fazer.  o nico hbito das classes ociosas de um pas. No
tenha medo. H coisas extraordinrias  sua espera. Isto 
apenas o comeo.
  - Julga-me assim to frvolo? - exclamou Dorian Gray muito
irritado.
  - No, julgo-o muito profundo.
  - O que quer dizer com isso?
  - Meu caro rapaz, pessoas frvolas so aquelas que amam s
uma vez na vida. quilo a que chamam lealdade e fidelidade,
chamo eu letargia do hbito ou falta de imaginao (1). A
fidelidade est para a vida emocional como a coerncia est
para a vida do intelecto, quer dizer, uma simples confisso de
fracassos. A fidelidade! Preciso de a analisar um dia destes.
Existe nela a paixo pela posse. H muitas coisas que
atiraramos fora se no recessemos que os outros as pudessem
apanhar. Mas no quero interromp-lo. Continue a sua histria.


  *1. Palavras e expresses em francs, latim, italiano...
encontram-se no texto original ingls. (N. da T.)


                              61


  - Bem, fiquei sentado num horrvel camarotezinho privado e
tinha mesmo  minha frente um vulgar pano de boca. Espreitei
pela cortina e inspeccionei a sala. Era uma coisa de mau
gosto, com cupidos e cornucpias, mais parecendo um bolo de
noiva de terceira categoria. A galeria e a plateia estavam
bastante completas, mas as duas filas de poltronas encardidas
estavam totalmente vazias e nem sei se haveria uma pessoa
naquilo que suponho chamar-se primeiro balco. Andavam umas
mulheres a vender laranjas e gasosas, e havia um elevado
consumo de amendoins.
  - Deve ter sido exactamente como na poca florescente do
drama britnico.
  - Precisamente, mas tambm muito deprimente. Comeava a
interrogar-me o que havia eu de fazer quando vi o programa.
Que pea acha que era, Harry?
  - Talvez O Idiota ou Pateta mas Inocente. Os nossos pais 
que costumavam apreciar esse gnero de pea, creio eu. Quanto
mais anos vivo, Dorian, mais vivamente sinto que o que era bom
para os nossos pais no  bom para ns. Em arte, bem como em
poltica, les grands pres ont toujors tort.
  - A pea era bastante boa para ns, Harry. Era Romeu e
Julieta. Devo confessar que me mortificou bastante a ideia de
ver Shakespeare representado numa baiuca. Mesmo assim, sentia,
de certo modo, algum interesse. Seja como for, resolvi esperar
pelo primeiro acto. A orquestra era pssima, regida por um
jovem hebreu que se encontrava sentado a um piano to
desafinado que estive para fugir dali, mas finalmente o pano
de boca subiu e a pea comeou. Romeu era um cavalheiro idoso
e corpulento, de sobrancelhas escurecidas com rolha queimada,
uma voz enrouquecida e trgica, e rolio como um barril de
cerveja. A figura de Merccio no era melhor. Era representado
por um comediante de baixo coturno, que intercalava piadas de
sua autoria e que tinha o melhor relacionamento com a plateia.
Eram ambos to grotescos como o cenrio, que parecia ter sado
de uma barraca de feira. Ah! Mas Julieta!


                              62


Imagine, Harry, uma menina que talvez no tivesse ainda
dezassete
anos, o rosto lindo como uma flor, uma pequena cabea  grega
de longas tranas castanhas, os olhos, fontes violceas de
paixo, e os lbios, duas ptalas de rosa. Era o ser mais
formoso que jamais havia visto na minha vida. Voc disse-me
uma vez que era insensvel ao pattico, mas que a beleza podia
provocar-lhe as lgrimas. Pois eu, Harry, mal conseguia ver
esta menina atravs da nvoa de lgrimas que me arrasaram os
olhos. E tinha uma voz como nunca ouvi.
  Era muito grave, a princpio, de sons profundos e
melodiosos, que pareciam cair um a um no nosso ouvido. Depois
tornava-se um pouco mais alta e soava como uma flauta ou um
longnquo obo. Na cena do jardim, tinha o xtase trmulo que
ouvimos quando a madrugada vai chegar e os rouxinis cantam.
Havia, depois, momentos em que possua a paixo desvairada das
violetas. Voc sabe bem como uma voz nos pode perturbar. A sua
voz e a voz de Sibyl Vane, nunca as esquecerei. Quando fecho
os olhos, oio-as e cada uma delas diz-me algo diferente. No
sei qual das duas hei-de seguir. Por que no haveria de
am-la?  que eu amo-a, Harry. Ela  tudo para mim na vida.
Vou v-la representar todas as noites. Uma noite ela 
Rosalinda e na noite seguinte  Imognia. Assisti  sua morte
num sombrio tmulo italiano, sugando o veneno dos lbios do
amante. Vi-a vagueando pela floresta de Arden, disfarada de
lindo rapazinho de calas justas, gibo e uma boina gracica.
Ela enlouqueceu e chegou  presena de um rei criminoso, e
deu-lhe arruda para se enfeitar, e ervas amargas para provar.
Ela foi inocente, e as negras mos do cime estrangularam-lhe
a garganta frgil como um junco. Vi-a em todas as pocas e
vestida  moda de cada poca. As mulheres vulgares nunca
apelam para a nossa imaginao. Ficam limitadas ao seu tempo.
Nenhum encanto as transfigura.
  Conhecemos-Lhes as mentalidades com a mesma facilidade com
que conhecemos as suas toucas. Acabamos sempre por
descobrir-lhas. No possuem mistrio algum. De manh montam a
cavalo no Parque, e  tarde tagarelam  hora do ch.


                              63


Tm sorrisos estereotipados e maneiras ditadas pela moda. So
totalmente previsveis. Mas uma actriz,
como  diferente! Harry! Por que no me disse que a nica
coisa que merece ser amada  uma actriz?
  - Porque amei tantas, Dorian.
  - Ah, estou a ver, pessoas horrendas que pintam o cabelo e a
cara.
  - No deprecie o cabelo pintado e as caras pintadas.
Tm por vezes um encanto extraordinrio - disse Lord Henry.
  - Agora estou arrependido por Lhe ter contado tudo acerca de
Sibyl Vane.
  - Voc no podia deixar de me contar, Dorian. Durante toda a
sua vida contar-me- tudo o que fizer.
  - Sim, Harry, creio que tem razo. No consigo deixar de lhe
contar tudo. Voc exerce em mim uma estranha influncia. Se
por acaso eu cometesse um crime, viria logo confessar-lho.
Voc compreender-me-ia.
  - As pessoas como voc - obstinados raios de sol desta vida
- no cometem crimes, Dorian. Mas, apesar de tudo,
agradeo-lhe o elogio. E agora conte-me. seja amvel e
passe-me os fsforos, obrigado. conte-me quais so exactamente
as suas relaes com Sibyl Vane?
  Dorian Gray ps-se de p num salto, as faces afogueadas e os
olhos chamejantes.
  - Harry! Sibyl Vane  sagrada!
  - As coisas sagradas so as nicas em que vale a pena tocar,
Dorian - disse Lord Henry, com uma estranha entoao pattica
na voz. - Mas por que fica to melindrado? Suponho que um dia
ela h-de pertencer-lhe. Quando uma pessoa se apaixona, comea
sempre por se enganar a si mesma e acaba sempre por enganar
outras pessoas.
A isso o mundo chama um caso de amor. Ao menos, conhece-a?
  - Claro que a conheo. Na primeira noite em que estive no
teatro, o tal judeu horrendo veio ter comigo ao camarote,


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depois do espectculo, oferecendo-se para me levar at aos
bastidores e apresentar-ma. Fiquei indignado e disse-lhe que
Julieta morrera havia muitos sculos, e que o seu corpo jazia
num tmulo de mrmore em Verona. Pelo ar perplexo e atnito
com que me olhou, devia ter pensado que eu bebera champanhe a
mais, ou coisa parecida.
  - No me surpreende nada.
  - Depois perguntou-me se eu escrevia para os jornais.
Respondi-Lhe que nem sequer os leio. Pareceu ter ficado
extremamente decepcionado, e confidenciou-me que todos os
crticos de teatro estavam conluiados contra ele e que todos
eles se deixavam comprar - No me surpreendia nada que nisso
ele tivesse razo.
Mas, por outro lado, a julgar pelo seu aspecto, grande parte
deles no devem sair muito caros.
  - Bem, talvez pensasse que eles viviam acima dos seus
recursos - observou Dorian a rir. - Ora quela hora, porm,
estavam a apagar as luzes do teatro, e eu tive que sair.
Ento ele quis que eu experimentasse uns charutos que me
recomendava veementemente. Recusei. Na noite seguinte,
como  evidente, voltei l. Quando me viu, fez-me uma grande
vnia e asseverou-me que eu era um generoso patrono das artes.
Embora fosse um repulsivo brutamontes,
tinha uma paixo extraordinria por Shakespeare. Uma vez,
contou-me, com um ar orgulhoso, que as cinco falncias que
sofrera se deviam inteiramente ao Bardo - era assim que ele
insistia em chamar-lhe. Ele pensava que isso Lhe podia dar uma
certa distino.
  - E dava mesmo, meu caro Dorian, uma grande distino. Quase
todas as pessoas que abrem falncia investiram fortemente na
prosa da vida. Ser levado  runa pela poesia  uma honra. Mas
quando  que falou com Miss Sibyl Vane pela primeira vez?
  - Na terceira noite. Ela tinha representado o papel de
Rosalinda. No resisti e fui v-la. Eu tinha-Lhe atirado
algumas flores para o palco, e ela olhou para mim, pelo menos,
imaginei que sim. Quanto ao velho judeu, continuava a
insistir. Pareceu-me decidido a levar-me at aos bastidores,


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e, ento, consenti. No acha curioso que eu no tivesse
querido conhec-la?
  - No, no acho.
  - E porqu, meu caro Harry?
  - Dir-lho-ei noutra ocasio. Agora quero saber tudo sobre a
rapariga.
  - Sibyl? Ah! Ela era to tmida e to meiga. H nela ainda
muito de criana. Os olhos escancararam-se de espanto quando
Lhe disse o que pensava da sua actuao, e no parecia ter
conscincia da sua fora. Creio que estvamos os dois bastante
nervosos. O velho judeu, de sorriso alvar, ficou  porta do
camarim poeirento, fazendo discursos floreados acerca de ns,
enquanto ns ficmos a olhar um para o outro como duas
crianas. Ele teimava em chamar-me My Lord,
por isso tive que garantir a Sibyl que eu no era nada disso.
Ela disse-me muito simplesmente: "O senhor parece-se mais com
um prncipe. Devo chamar-lhe Prncipe Encantado"?
  - Palavra de honra, Dorian, Miss Sibyl sabe elogiar.
  - Voc no a compreende, Harry. Ela considerava-me apenas
uma personagem de uma pea. Ela no sabe nada da vida. Vive
com a me, uma mulher cansada e dbil, que, na primeira noite,
fez de Lady Capuleto, vestindo um roupo escarlate, e que tem
o ar de ter tido uma vida mais prspera.
  - Conheo esse ar. Deprime-me - murmurou Lord Henry, olhando
para os seus anis.
  - O judeu quis contar-me a histria da vida dela, mas eu
disse-lhe que no estava interessado.
  - Fez muito bem. H sempre qualquer coisa extremamente
mesquinha na tragdia das outras pessoas.
  - S a Sibyl me interessa. Que me importam as suas origens?
Da cabea aos ps, ela  absoluta e inteiramente divina. Vou
v-la actuar sem falhar uma noite, e ela  sempre mais
maravilhosa noite aps noite.
  - Creio que  esse o motivo por que deixou de jantar comigo.
Pensei que voc devia andar envolvido em alguma aventura
especial. E anda, s que no  exactamente o que eu esperava.


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  - Mas meu caro Harry, jantamos, tocamus juntos todos os
dias, e fui com voc  pera vrias vezes - disse Dorian,
arregalando de espanto os seus olhos azuis.
  - Voc chega sempre tardssimo.
  - Bem, no posso deixar de ir ver a Sibyl actuar - exclamou
ele -, nem que seja apenas um nico acto. Estou vido da sua
presena, e quando penso na alma maravilhosa que se oculta
naquela figurinha de marfim, sinto admirao e respeito.
  - Esta noite pode jantar comigo, Dorian, no pode?
  - Esta noite ela faz de Imognia - respondeu ele, abanando a
cabea -, e amanh  noite vai representar Julieta.
  - E quando  que ela  Sibyl Vane?
  - Nunca.
  - Dou-lhe os meus parabns.
  - Voc  horrvel! Saiba que ela rene em si todas as
grandes heronas do mundo.  mais do que uma pessoa.
Voc ri-se? Pois digo-Lhe que ela tem gnio. Amo-a e tenho de
lev-la a amar-me. Voc, que conhece todos os segredos da
vida, diga-me como hei-de enfeitiar Sibyl Vane para que ela.
me ame! Quero que Romeu tenha cimes de mim.
Quero que todos os amantes mortos do mundo ouam o nosso riso
e fiquem tristes. Quero que um sopro da nossa paixo remexa
essas cinzas at ganharem conscincia e que
desperte as suas cinzs para a dor. Meu Deus, Harry, como eu a
adoro!
  Ele percorria a sala, de um lado para o outro, enquanto
falava. Manchas rosceas esbraseavam-lhe febrilmente as faces.
Estava excessivamente excitado.
  Lord Henry observava-o com uma subtil sensao de prazer.
Que diferente era agora do rapaz tmido e assustado que
encontrara no atelier de Basil Hallward. O seu ser
desabrochara como uma flor, em florescncias de chama
escarlate. A Alma conseguira sair do seu esconderijo secreto,
e o Desejo viera ao seu encontro.
  - E o que  que sugere: - disse, por fin, Lord Henry.
  - Quero que voc e o Basil venham uma noite comigo v-la
representar. No tenho o mnimo receio do resultado. De
certeza que vocs iro reconhecer o seu gnio. Depois temos de
arranc-la s mos do judeu. Ela tem com ele um contrato de
trs anos - pelo menos, de dois anos e oito meses - a partir
de agora. Terei que pagar ao homem qualquer coisa, por certo.
Quando tudo estiver resolvido, alugo um teatro do West End e
h-de ser conhecida como merece. H-de arrebatar o pblico tal
como me arrebatou a mim.
  - Isso seria impossvel, meu menino!
  - H-de, sim! Ela possui mais do que arte, um consumado
instinto artstico, tem tambm personalidade, e voc disse-me
repetidas vezes que so as personalidades, e no os
princpios, que fazem mover os nossos tempos.
  - Pois bem, em que noite vamos?
  - Deixe-me ver. Hoje  tera-feira. Marcamos para amanh.
Amanh ela representa o papel de Julieta.
  - Combinado. No Bristol s oito horas, eu trago o Basil.
  - s oito no, Harry, por favor. s seis e meia. Temos de
estar l antes de subir o pano. Tm de v-la no primeiro acto,
que  quando ela se encontra com o Romeu.
  - s seis e meia! Nem pensar!  como ir tomar ch, ou ler um
romance ingls. Tem de ser s sete. Nenhum cavaLheiro janta
antes das sete. Voc ainda vai estar com o Basil at l? Ou
quer que eu Lhe escreva?
  - O querido Basil! H uma semana que no o vejo. Tenho-me
portado horrivelmente com ele, tanto mais que me mandou o meu
retrato com uma moldura maravilhosa especialmente concebida
por ele, e, posto que sinta alguns cimes do retrato por ser
exactamente um ms mais novo do que eu, devo confessar que me
encanta.  talvez prefervel que voc lhe escreva. No quero
estar a ss com ele.
Diz coisas que me aborrecem. Costuma dar-me bons conselhos.
  - As pessoas - comentou Lord Henry, sorrindo -- gostam muito
de se desfazer daquilo de que mais precisam.
A isso costumo chamar generosidade levada ao extremo.


                              68


  - Mas o Basil  o melhor dos indivduos, ainda que tenha um
pouco de filistino. Descobri isso depois de o ter conhecido a
si, Harry.
  - O Basil, meu menino, pe na sua obra tudo o que h de
fascinante dentro dele. Como consequncia s lhe restaram para
a vida os seus preconceitos, e princpios, e senso comum. Os
nicos artistas de personalidade encantadora que conheci so
maus artistas. Os bons artistas existem simplesmente em tudo o
que criam e, por conseguinte, so completamente falhos de
interesse em tudo o que so. Um grande poeta, um poeta que
seja realmente extraordinrio,  a menos potica de todas as
criaturas. Contudo, os poetas menores so absolutamente
fascinantes. Quanto mais medocres so os seus versos, mais
pitorescos parecem. O sinples facto de ter publicado um livro
de sonetos de segunda ordem faz de um homem uma pessoa
extraordinariamente irresistvel. Ele vive a poesia que no
consegue escrever. Os outros escrevem a poesa que no ousam
realizar.
  - Ser mesmo assim, Harry? - perguntou Dorian Gray,
pondo no leno um pouco de perfume de um grande frasco com
tampa de ouro que estava em cima da mesa. - Deve ser, se 
voc que o diz. E agora vou-me embora. Imognia est  ninha
espera. No se esquea do dia de amanh.
Adeus.
  Quando ele saiu da sala, Lord Henry baixou as suas pesadas
plpebras e comeou a meditar. No havia, certamente, muitas
pessoas que lhe tivessem despertado tamanho interesse como
Dorian Gray, e, contudo, a exagerada adorao que o rapaz
sentia por outra pessoa no lhe causava a mnima angstia ou
cime. Causava-lhe mesmo satisfao e fazia dele um objecto de
estudo mais interessante. Os mtodos das cincias naturais
tinham-no atrado sempre, mas o vulgar assunto dessas cincias
representara-se-Lhe como trivial e sem importncia. Por isso,
comeara por dissecar-se a si mesmo, e acabara por dissecar os
outros. A vida humana  que lhe parecia ser a nica coisa que
valia a pena investigar. No havia mais nada de valor que se
lhe comparasse.


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Era certo que, quando se observava a vida no seu singular
cadinho de dor e de prazer, no era possvel proteger o rosto
com uma mscara de vidro, nem impedir que as emanaes
sulfurosas afectassem o crebro, toldando a imaginao com
fantasias monstruosas e sonhos disformes. Havia venenos to
subtis que para conhecer as suas propriedades era preciso
adoecer, experimentando-os.
Havia doenas to invulgares que tinha que se passar por elas
para se compreender a sua natureza. E, porm, a recompensa
recebida era enorme! Como o mundo se tornava maravilhoso aos
nossos olhos! Observar a lgica rigorosa e singular da paixo
e a vida colorida e emocional do intelecto, atentar nos pontos
em que se encontravam e se separavam, no ponto de concrdia e
no de discrdia... que prazer havia em tudo isso! No
importava o custo que havia que pagar! Nunca era demasiado
elevado o preo de qualquer sensao.
  Ele tinha conscincia de que - e, s de pensar nisso, os
olhos de um castanho gata brilhavam de prazer - fora devido a
determinadas palavras suas, palavras muscais e proferidas com
uma expresso musical, que a alma de Dorian Gray se votara a
essa rapariga inocente, que adorava com reverncia. Em larga
medida, o rapaz era uma criao sua. Tornara-o precoce. Foi um
bom resultado. As pessoas vulgares aguardavam que a vida lhes
revelasse os seus segredos, mas eram poucos, s os eleitos,
aqueles a quem. os mistrios da vida se revelavam antes de se
levantar o vu.
s vezes isso acontecia por efeito da arte, e principalmente
da arte literria, que tinha uma relao imediata com as
paixes e o intelecto. Todavia, por vezes, uma personalidade
complexa surgia e assumia o labor da arte, passava a ser,
de certo modo, uma verdadeira obra de arte, possuindo a Vida
as suas esmeradas obras-primas, tal como a poesia, ou a
escultura, ou a pintura o possuem.
  O rapaz era, na verdade, permaturo. Ele fazia a sua coLheita
enquanto era ainda Primavera. Nele pulsava a paixo da
juventude. mas estava a tornar-se consciente de si prprio.


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Era maravilhoso observ-lo. A beleza do seu rosto e a da sua
alma faziam dele um ser admirvel. No importava como tudo
acabava, ou estava destinado a acabar. Ele assemelhava-se a
uma dessas graciosas figuras de um cortejo alegrico ou de uma
pea, cujas alegrias parecem afastadas de ns, mas cujas
tristezas emocionam o nosso sentido de beleza e as chagas so
como rosas vermelhas.
  A alma e o corpo, o corpo e a alma - que mistrio tinham!
Havia sensualidade na alma e o corpo tinha momentos de
espiritualidade. Os sentidos podiam aperfeioar-se, e o
intelecto podia degradar-se. Quem podia dizer onde terminava o
impulso carnal, ou comeava o impulso espiritual? Como eram
triviais as definies arbitrrias de vulgares psiclogos! E,
porm, como era difcil decidir entre as pretenses das
diversas escolas! Seria a alma uma sombra sentada na casa do
pecado? Ou estaria realmente o corpo dentro da alma, como
pensava Giordano Bruno? A separao entre o esprito e a
matria constitua um mistrio, e a unio do esprito com a
matria era tambm um mistrio.
  Ele comeou a interrogar-se se poderamos alguma vez fazer
da psicologia uma cincia to absoluta que cada pequena
primavera da vida nos seria revelada. Ns, por assim dizer,
nunca nos entendamos a ns mesmos e raramente compreendamos
os outros. A experincia no tinha valor tico algum. Era
simplesmente o nome que os homens davam aos seus prprios
erros. Em regra, os moralistas tinham-na considerado um modo
de advertncia, tinham reivindicado para ela uma certa
eficcia tica na formao do carcter, tinham-na elogiado
como uma coisa que nos ensinava o que devamos seguir e nos
mostrava o que devamos evitar. Mas a experincia no tinha
fora motriz. Era uma causa to pouco activa como a prpria
conscincia.
Na realidade, apenas demonstrava que o nosso futuro seria
igual ao nosso passado, e que o pecado, que cometeramos apenas
uma vez e com relutncia, seria cometido muitas vezes e com
prazer.
 Era bem evidente para ele que o mtodo experimental era o
nico mtodo atravs do qual se podia chegar a uma anlise
cientfica das paixes, e era certo que Dorian Gray era um
objecto de estudo  sua medida e parecia prometer resultados
ricos e frutificantes. A sua sbita paixo por Sibyl Vane era
um fenmeno psicolgico com interesse a no desprezar. Era
indubitvel que a curiosidade dera um grande contributo, a
curiosidade e o desejo de experimentar novas sensaes no
era, porm, uma paixo simples, mas antes uma paixo muito
complexa. O que nela havia de instinto puramente sensual da
adolescncia transformara-se, devido  actividade da
imaginao, em algo que ao prprio jovem parecia muito
distante dos sentidos, e era tanto mais perigoso por esse
mesmo motivo. As paixes que mais violentamente nos
tiranizavam eram aquelas acerca de cujas origens nos iludamos
a ns mesmos. As nossas razes mais inconsistentes eram
aquelas de cuja natureza tnhamos conscincia. Acontecia
frequentemente que, quando julgvamos fazer experincias em
outras pessoas, estvamos, de facto, a fazer experincias em
ns prprios.
  Enquanto Lord Henry especulava sobre estas questes,
ouviu-se bater  porta e o seu criado de quarto entrou e
fez-lhe lembrar que eram horas de mudar de fato para o jantar.
Levantou-se e olhou para fora para a rua. O sol poente tinha
chapeado de ouro escarlate as janelas dos andares superiores
das casas em frente. As vidraas brilhavam incandescentes como
chapas de metal em brasa. O cu parecia uma rosa a esmaecer.
Ele lembrou-se da fogosa vida juvenil do seu amigo e
interrogava-se como iria tudo terminar.
  Quando chegou a casa, eram aproximadamente doze horas e
trinta, viu um telegrama em cima da mesa do vestbulo. Ao
abri-lo, viu que era de Dorian Gray. O telegrama informava-o
de que ele estava noivo de Sibyl Vane.



                         Captulo V


   - Me, Me, estou to feliz! - murmurou a rapariga
mergulhando o rosto no regao da mulher gasta e cansada que,
de costas para a luz ofuscante e incmoda, estava sentada na
nica poltrona da acanhada sala de estar. - Estou to feliz! -
repetiu ela -, e a me tambm devia sentir-se feliz!
  Mrs. Vane retraiu-se e colocou as mos franzinas e
embranquecidas com bismuto sobre a cabea da filha.
  - Feliz! - repetiu como um eco. - S estou feliz, Sibyl,
quando te vejo representar. No deves pensar em mais nada
seno na tua arte de representar. Mr. Isaacs tem sido muito
bom para ns e ns devemos-lhe dinheiro.
  A rapariga levantou os olhos para a me e fez um trejeito de
amuo.
  - Dinheiro, me? - exclamou ela -, que importncia tem o
dinheiro? O amor vale mais do que o dinheiro.
  - Mr. Isaacs adiantou-nos cinquenta libras para pagarmos as
nossas dvidas e comprar um fato decente para o James. No te
deves esquecer disso, Sibyl. Cinquenta libras  uma quantia
muito elevada. Mr. Isaacs tem sido extremamente atencioso.
  - Ele no  um senhor, me, e detesto a maneira como ele
fala comigo - disse a rapariga, levantando-se e aproximando-se
da janela.
  - No sei como poderamos aguentar sem ele - respondeu a
mulher mais velha, com voz lamuriosa.
  Sibyl Vane atirou a cabea para trs e desatou a rir.
  - No precisamos mais dele, me. Agora  o Prncip Encantado
que orienta a nossa vida. - Fez uma pausa. Uma rosa
agitava-lhe o sangue e coloria-Lhe as faces. A respirao
ofegante apartava os seus lbios de ptalas. Estavam trmulos.
Um vento sul de paixo tomou-a impetuosamente e agitou as
pregas delicadas do vestido. - Eu amo-o - disse apenas.
  - Que tolinha! Que tolinha! - foi a resposta papagueada pela
me. O movimento dos dedos retorcidos e cobertos de jias
falsas tornavam as suas palavras grotescas.
  A rapariga riu-se novamente. A voz tinha a alegria de um
pssaro engaiolado. Os oLhos captavam a melodia e
irradiavam-na como um eco, depois fechavam-se por um momento,
como que a esconder o seu segredo. Quando se abriram tinha
passado por eles a nvoa de um sonho.
  A sensatez, de lbios apertados, instalada na poltrona
puda, falava para ela, sugeria prudncia, fazia citaes
daquele livro da cobardia cujo autor macaqueia o nome do bom
senso. Mas ela a nada atendia. Era livre no seu crcere de
paixo. O seu prncipe, o Prncipe Encantado, estava consigo.
Recorrera  memria para o reconstituir. Dissera  sua alma
que o procurasse e ela trouxera-lho de volta. O beijo dele
voltava a queimar-lhe a boca. O seu hlito afagava-lhe as
plpebras. Ento a Sensatez modificou a sua estratgia e falou
de espionagem e descoberta. Este jovem talvez fosse rico.
Sendo assim, devia pensar-se no casamento. As ondas da astcia
interesseira desfaziam-se contra as conchas dos ouvidos da
jovem. As setas da malcia passavam por ela sem lhe tocar. Via
o movimento dos lbios apertados, e sorria. Subitamente,
sentiu necessidade de falar. O silncio palavroso
perturbava-a.
  - Me, me - exclamou -, por que me ama ele tanto? Eu
conheo as razes do meu amor. Amo-o porque ele  como o
prprio amor deve ser. Mas o que v ele em mim? Eu no sou
digna dele. E, contudo, no sei dizer porqu, embora
sentindo-me to abaixo dele, no me sinto inferior. Sinto-me
orgulhosa, terrivelmente orgulhosa. A me amava o meu pai como
eu amo o Prncipe Encantado?


                              74


  A mulher mais velha empalideceu sob a camada grosseira de p
que lhe revestia as faces, e os lbios ressequidos
crisparam-se num espasmo de dor. Sibyl correu para ela,
abraou-a e beijou-a.
  - Perdo, me, sei que lhe  doloroso falar do pai. Mas isso
atormenta-a,  porque o amava. tanto. No fique to triste.
Sou to feliz hoje como a me o era h vinte anos.
Ah! Quero ser feliz para sempre!
  - Minha filha, s muito nova ainda para pensar em te
apaixonares. Alm disso, que sabes tu deste rapaz? Nem sequer
sabes o seu nome. Tudo isto  muito inoportuno, e,
realmente, agora que o James vai para a Austrlia, e eu tenho
tanto em que pensar, devo dizer-te que devias mostrar mais
considerao. No entanto, como eu dizia h pouco, se ele for
rico...
  - Ah! Me, me, quero ser feliz!
  Mrs. Vane olhou para ela e, com um daqueles postios gestos
teatrais que tantas vezes se tornam uma segunda natureza de um
actor de palco, apertou-a nos braos. Nesse momento, a porta
abriu-se e entrou na sala um rapaz de spero cabelo castanho.
Era uma figura atarracada, de mos e ps enormes, e de
movimentos um tanto desajeitados. No tinha a classe
requintada da irm. Seria difcil adivinhar que os unia uma
relao de parentesco to chegada. Mrs. Vane fitou-o e
acentuou o sorriso. Mentalmente, elevava o filho  dignidade
de um pblico. Tinha a certeza de que o rapaz era atraente.
  - Bem podias guardar alguns dos teus beijos para mim,
Sibyl - disse o rapaz, com um resmungo carinhoso.
  - Ah, mas tu no gostas que te beijem, Jim - exclamou ela. -
s um urso insuportvel. - E correu a abra-lo.
  James Vane olhou para o rosto da irm com ternura.
  - Quero que saias comigo a passear, Sibyl. Creio que jamais
voltarei a ver esta Londres horrVel. Tenho a certeza de que
nem vou querer.
  - Meu filho, no digas coisas to desagradveis - murmurou
Mrs. Vane, que, suspirando, pegou num vestido de mau gosto
para usar em cena e comeou a remend-lo.


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Estava um pouco decepcionada por no ter feito parte do grupo.
Teria realado o pitoresco teatral da cena.
  - Por que no, me?  o que penso.
  - Tu desgostas-me, meu filho. Tenho f em que hs-de voltar
da Austrlia muito rico. Creio que no existe nenhum tipo de
vida social nas colnias, nada a que se possa chamar vida
social, nesse caso, quando tiveres feito fortuna deves
regressar e ser algum em Londres.
  - Vida social! - resmungou o rapaz. - No quero saber nada
disso. Gostaria de ter algum dinheiro para tirar a me e a
Sibyl desse palco. Odeio-o!
  - Ai, Jim - disse, rindo, Sibyl -, no sejas antiptico! Mas
 mesmo verdade que vais dar um passeio comigo? Que bom! E eu
que receava que te fosses despedir de alguns amigos teus, como
o Tom Hardy, que te deu aquele cachimbo medonho, ou o Ned
Langton, que zomba de ti por o usares. s muito querido por me
dedicares a tua ltima tarde. Aonde havemos de ir? Vamos ao
Parque.
  - Pareo um maltrapilho - respondeu ele, com ar carrancudo.
- O Parque  frequentado s por gente que veste bem.
  - Que disparate, Jim - murmurou ela, afagando-Lhe a manga do
casaco.
  Ele hesitou por um instante.
  - Est bem - disse, por fim -, mas no leves muito tempo a
vestir-te.
  A irm saiu da sala a danar. Ouviram-na a cantar quando
subia as escadas a correr. Ouviram-se depois os seus passinhos
midos no andar de cima.
  Ele percorreu a sala umas duas ou trs vezes. Depois
dirigiu-se  figura que continuava sentada em silncio.
  - Me, tenho tudo pronto? - perguntou.
  - Tudo pronto, James - respondeu a me, continuando com os
olhos postos no trabalho que estava a fazer. Durante os
ltimos meses, sentira-se pouco  vontade quando estava a ss
com este seu filho severo e carrancudo.


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A sua ndole secretamente mesquinha perturbava-se quando o seu
olhar se cruzava com o dele. Costumava interrogar-se se ele
suspeitaria de alguma coisa. O silncio tornava-se-lhe
intolervel, pois ele no fez mais nenhuma observao. Ento
comeou a lamuriar-se. As mulheres defendem-se atacando, assim
como atacam recorrendo a estranhas e sbitas capitulaes.
  - Espero, James, que fiques satisfeito com a tua vida no mar
- disse ela. - No te esqueas de que a escolha foi... tua.
Podias ter entrado para o cartrio de um advogado. Os
advogados so uma classe muito respeitvel, e os que vivem na
provncia costumam jantar com as melhores famlias.
  - Odeio cartrios e amanuenses - replicou ele. - Mas tem
toda a razo. Fui eu que escolhi o meu modo de vida.
Tudo o que lhe peo  que olhe pela Sibyl. No deixe que lhe
acontea mal algum. Ouve, me? Olhe bem por ela.
  - Que maneira to estranha de falares comigo, James.
Claro que olho pela Sibyl.
  - Soube que h um cavalheiro que vem todas as noites ao
teatro e vai falar com ela ao camarim. Acha isso bem? O que 
que me diz?
  - Tu falas de coisas que no entendes, James. Nesta
profisso, estamos habituadas a receber muitas atenes que
nos so gratificantes. At comigo acontecia oferecerem-me
muitos ramos de flores de uma s vez. Isso era no tempo em que
o teatro era realmente apreciado. Quanto  Sibyl,
de momento no sei se a sua ligao  a srio ou no. Mas no
h dvida de que o jovem em questo  um perfeito cavalheiro.
 sempre delicadssimo comigo. Alm disso, tem aspecto de ser
rico, e as flores que oferece so um espanto.
  - Mesmo assim, nem sabe o nome dele - disse o rapaz,
asperamente.
  - No, no sei - respondeu a me, com uma expresso
tranquila no rosto. - Ele ainda no revelou o seu verdadeiro
nome. Acho isso to romntico da parte dele. Provavelmente
pertence  aristocracia.
  James Vane procurou dominar-se.
  - Ollhe pela Sibyl, me - exclamou ele. -- Olhe bem por ela.
  - Meu filho, no me aflijas tanto. Tenho sempre um cuidado
muito especial com a Sibyl. Evidentemente que, se este
cavalheiro for rico, no h motivo para que ela no faa
contrato de casamento com ele. Tenho f que ele seja da
aristocracia. Tem todo o aspecto disso, tenho que reconhecer.
Seria um casamento magnfico para a Sibyl. Fariam um par
encantador. A beleza dele  realmente notvel, toda a gente
repara nela.
  O rapaz disse qualquer coisa entredentes e tamborilou no
vidro da janela nn os seus dedos grossos. Precisamente quando
se voltava para dizer alguma coisa, a porta abriu-se e Sibyl
entrou a correr.
  - Esto os dois com um ar to srio! -- exclamou. - O que
aconteceu?
  - Nada - respondeu o irmo. - Parece-me que s vezes 
preciso estar-se srio. Adeus, me, vou jantar s cinco horas.
Est tudo emalado, excepto as minhas camisas, por isso no
precisa de se incomodar.
  - Adeus, meu filho - respondeu, inclinando a cabea num
gesto de contida altivez.
  Estava extremamente contrariada com u tom que o filho
adoptara com ela, e notara no seu olhar uma expresso que Lhe
causara medo.
  - Um beijo, me - pediu a rapariga. E os seus lbios de flor
tocaram ao de leve na face mirrada, dando-Lhe um pouco de
calor.
  - Minha filha! Minha filha! - exclamou Mrs. Vane, erguendo o
olhar para o tecto  procura de um imaginrio pblico da
galeria.
  - Vamos, Sibyl -- disse o irmo, com impacincia. Detestava
os modos teatrais da me.
  Saram os dois ao encontro de um dia de sol inconstante e
batido pelo vento, e desceram a sombria Euston Road.
Os transeuntes olhavam admirados para o jovem de ar taciturno
e apressado que vestindo roupas grosseiras e mal feitas,


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era acompanhado por uma rapariga to graciosa e de aspecto to
distinto. Parecia um rude jardineiro a passear uma rosa.
  De vez em quando, Jim franzia o sobrolho quando vislumbrava
o olhar de curiosidade de algum desconhecido.
Ele tinha aquela averso de ser olhado que aparece tarde nas
pessoas de gnio e que permanece sempre na gente comum. Sibyl,
porm, no tinha noo alguma do efeito que causava. O amor
que sentia estremecia no riso dos seus lbios. Pensava no
Prncipe Encantado e, s por nele poder pensar, no falava
dele, mas falava entusiasticamente do navio em que Jim ia
partir, do ouro que ele ia de certeza encontrar, da
maravilhosa herdeira que havia de salvar das mos de cruis
salteadores de camisas vermelhas. No havia de ser sempre
marinheiro, ou comissrio de bordo, ou l o que era. Ah! Isso
 que no. A vida de um marinheiro era terrvel. Imagine-se!
Ficar engaiolado num navio horrvel, e as ondas, de dorso
enrolado e com um rudo cavo, a quererem entrar, e um vento
tenebroso a derrubar os mastros e rasgando as velas em longas
tiras sibilantes! Ele devia desembarcar em Melbourne,
despedir-se educadamente do capito e partir de imediato para
as minas de ouro. Em menos de uma semana havia de encontrar
uma enorme pepita de ouro puro, a maior que alguma vez fora
descoberta, e traz-la at  costa num vago escoltado por
seis guardas montados. Os salteadores haviam de os atacar trs
vezes, e seriam derrotados e chacinados. No! Ele no havia de
ir para as minas de ouro. Eram lugares horrendos onde os
homens se embriagavam e disparavam uns contra os outros nos
bares e diziam palavres. Ele havia de ser um simptico
criador de gado, e uma tardinha, ao voltar a cavalo para casa,
havia de ver a formosa herdeira a ser raptada por um ladro
montando um cavalo preto, e que ele havia de perseguir,
salvando-a. Claro que ela se apaixonaria por ele, e ele por
ela, e haviam de casar, e de regressar, e viver numa enorme
casa em Londres. Havia coisas maravilhosas que o futuro Lhe
reservava. Mas era preciso que ele fosse muito bom,


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e no perdesse a pacincia, nem gastasse o dinheiro  toa. Ela
era apenas um ano mais velha do que ele, mas sabia da vida
tanto ou mais do que ele. Ele que no se esquecesse tambm de
Lhe escrever todos os dias em que havia correio,
e de rezar todas as noites antes de se deitar. Deus era muito
bom e proteg-lo-ia. Ela tambm rezaria por ele e daqui a
alguns anos regressaria muito rico e feliz.
  O rapaz ia ouvindo, de mau humor, as suas palavras e no lhe
dava resposta alguma. Sentia-se muito infeliz por deixar o
pas.
  No entanto, no era s por isso que ele se sentia abatido e
taciturno. Por muito inexperiente que fosse, tinha ainda uma
noo precisa do perigo que Sibyl corria. Esse jovem dndi que
lhe fazia a corte no devia ter boas intenes em relao a
ela. Era um cavalheiro, e por isso odiava-o, odiava-o devido a
um curioso instinto de raa que ele no sabia explicar, e que,
por esse mesmo motivo, mais prevalecia dentro de si.
Apercebia-se tambm da mesquinhez e vaidade do carcter da
me, e via a um perigo ilimitado para Sibyl e para a
felicidade de Sibyl. As crianas comeam por amar os pais, 
medida que crescem tornam-se seus juzes,
perdoam-lhes, s vezes.
  Mas a me! Tinha na ideia uma coisa para lhe perguntar,
uma coisa em que havia cismado durante muitos meses de
silncio. Uma frase ocasional que ouvira no teatro, um certo
sarcasmo em segredo que lhe chegara aos ouvidos, numa noite em
que esperava junto  porta de acesso ao palco, tinham
desencadeado uma srie de pensamentos medonhos.
Lembrava-se disso como se lhe tivessem chicoteado o rosto. As
sobrancelhas franziram-se num sulco profundo e,
com uma contraco dolorosa, mordeu o lbio inferior.
  - No ests a ouvir uma nica palavra do que estou a dizer,
Jim - exclamou Sibyl -, e eu a arquitectar os planos mais
fantsticos para o teu futuro. Diz qualquer coisa.
  - O que queres que eu diga?
  - Ora, que vais ser bom rapaz e no nos vais esquecer -
rrespondeu, sorrindo-lhe.


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  O irmo encolheu os ombros.
  -  mais provvel que tu te esqueas de mim do que eu de ti,
Sibyl.
  Ela corou.
  - O que queres dizer com isso, Jim? - perguntou.
  - Pelo que ouvi, tens um novo amigo. Quem ? Por que no me
falaste dele? Ele no tem boas intenes a teu respeito.
  - Cala-te, Jim! - exclamou a irm. - No deves dizer nada
contra ele. Eu amo-o.
  - Ora, tu nem sequer sabes o seu nome - respondeu o rapaz. -
Quem  ele? Tenho o direito de saber.
  - Chama-se Prncipe Encantado. No gostas do nome? Seu tolo!
No devias esquec-lo. Bastava s que o visses para o achares
a pessoa mais maravilhosa de todo o mundo.
Um dia hs-de encontr-lo, quando regressares da Austrlia.
Irs gostar muito dele. Todos gostam dele. E eu... amo-o.
Quem me dera que pudesses vir ao teatro esta noite. Ele vai
estar l e eu vou fazer de Julieta. Oh! Nem imaginas como vou
representar! Imagina, Jim, estar apaixonada e fazer de
Julieta! Saber que ele est ali! Representar para Lhe dar
prazer! Receio poder vir a assustar a companhia, assustar ou
fascin-los. Estar apaixonado  ir para alm de si mesmo.
O coitado do horrvel Mr. Isaacs h-de gritar aos frequen
tadores do seu bar que sou um gnio. Tem-me apregoado como um
dogma, esta noite ir anunciar-me como uma revelao. Sinto
que ser assim. E tudo isto por causa dele, s ele, o Prncipe
Encantado, o meu apaixonado encantador, o deus dos meus dons.
Mas ao lado dele sou pobre. Pobre? Que importa isso? Quando a
pobreza entra pela porta, entra o amor pela janela. Os nossos
provrbios precisam de ser revistos. Foram feitos no Inverno e
agora  Vero, e a Primavera parece-me uma verdadeira dana de
flores em cus azuis.
  - Mas ele  um senhor - disse o rapaz, com ar carrancudo.
  - Um prncipe! - exclamou ela, com voz musical. - Que queres
mais?
  - Ele pretende dominar-te.
  - Estremeo s de pensar em ser livre.
  - Quero que tenhas cautela.
  - V-lo  ador-lo, conhec-lo  nele confiar.
  - Sibyl, tu ests louca por ele.
  Ela riu-se e pegou-lhe no brao.
  - Meu querido Jim velhinho, falas como se tivesses cem anos.
Um dia tambm tu te hs-de apaixonar. Ento sabers o que .
No faas esse ar to rabujento. Certamente que deves estar
contente ao pensar que, embora vs partir para to longe, me
deixas mais feliz do que nunca. A vida tem sido dura para ns
ambos, terrivelmente dura e difcil.
Mas agora ser diferente. Tu vais para um novo mundo, e eu
descobri um outro. Olha, temos aqui duas cadeiras, sentemo-nos
a ver passar as pessoas elegantes.
  Puxaram as cadeiras para o meio de multdo de mirones. Os
canteiros de tlipas do outro lado da rua flamejavam como
vibrantes anis de fogo. Um p branco, que parecia uma trmula
nuvem de rizoma de lrio, pairava no ar ofegante. Os
guarda-sis de cores vivas danavam subindo e baixando como
borboletas gigantes.
  Ela conseguiu que o irmo falasse de si, das suas esperanas
e perspectivas. Ele falava devagar e com esforo.
Passavam as palavras um para o outro como jogadores a passarem
fichas quando jogam. Sibyl sentia-se oprimida.
No conseguia comunicar a sua alegria. S encontrava eco no
breve sorriso que fazia levantar os cantos daquela boca
tristonha. Aps uns instantes ficou silenciosa. De repente
vislumbrou um cabelo dourado e uns lbios sorridentes
quando Dorian Gray passou com duas senhoras numa carruagem
aberta.
  E ela levantou-se de um salto.
  - Ali vai ele! - exclamou.
  - Quem? - perguntou Jim Vane.
  - O Prncipe Encantado - respondeu ela, procurando a vitria
com os olhos.
  Ele deu um salto e agarrou-Lhe o brao com violncia.


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  - Indica-mo. Qual ? Tenho de o ver! - exclamou, mas nesse
mesmo momento interps-se a carruagem do duque de Berwick e,
quando deixou o espao livre, j a outra carruagem tinha
desaparecido do Parque.
  - Desapareceu - murmurou Sibyl com tristeza. - Gostava que o
tivesses visto.
  - Tambm eu, pois, to certo como Deus estar no cu,
se ele te fizer algum mal eu mato-o.
  Ela olhou-o horrorizada. Ele repetiu as mesmas palavras.
Cortavam o ar como uma adaga. As pessoas  volta comearam a
olhar embasbacadas. Uma senhora que estava perto dela abafou
um sorriso.
  - Vamos embora, Jim, vamos embora - segredou ela.
Ele seguiu-a com um ar obstinado, enquanto ela abria caminho
atravs da multido. Sentia-se satisfeito com o que tinha
dito.
  Quando chegaram ao p da esttua de Aquiles ela vultou-se.
Havia compaixo nos seus olhos que se tornava em riso nos
lbios. Abanou a cabea, com um ar de reprovao.
  - Tu s tolinho, Jim, completamente tolinho, um rapaz
mal-humorado,  o que s. Como podes dizer coisas to
horrveis? No sabes do que ests a falar. s simplesmente
ciumento e mau. Ah! S desejo que te apaixones. O amor torna
as pessoas boas, e o que disseste foi grave.
  - Tenho dezasseis anos - retorquiu ele -, e sei o que devo
fazer. A me no te presta grande auxlio. Ela no sabe cuidar
de ti. Quem me dera agora no ter de ir para a Austrlia.
Tenho uma grande vontade de livrar-me disto tudo. E f-lo-ia,
se o meu contrato no estivesse assinado.
  - V l, no sejas to sisudo, Jim. Pareces um dos heris
daqueles melodramas idiotas que a me tanto gostava de
representar. No vou discutir contigo. Eu vi-o, e v-lo  a
suprema felicidade. No vamos discutir. Sei que nunca farias
mal a algum que eu amasse, pois no?
  - No, se tu o amares, creio - foi a resposta macambzia.
  - Am-lo-ei para sempre! - exclamou ela.
  - E ele?
  - Tambm para sempre!
  -  melhor que o faa.
  Ela afastou-se dele. Depois riu-se e pegou-Lhe no brao.
Ele no passava de um rapazinho.
  Em Marble Arch fizeram parar uma diligncia, que os deixou
perto da sua modesta casa na Euston Road. Passava das cinco da
tarde, e Sibyl precisava de repousar durante algumas horas
antes da sua actuao. Jim insistiu com ela.
Disse ainda que preferia despedir-se quando a me no
estivesse presente. Ela ia de certeza fazer uma cena e ele
detestava todo o tipo de cenas.
  Despediram-se mesmo no quarto de Sibyl. O rapaz tinha o
corao carregado de cime, e ainda de um dio feroz e
homicida pelo desconhecido que Lhe parecia haver-se
intrometido entre ele e a irm. No entanto, quando ela lhe
enlaou o pescoo com os braos e, com os dedos, lhe afagou o
cabelo, enterneceu-se e beijou-a com verdadeiro afecto.
Havia lgrimas nos seus olhos quando desceu as escadas.
  Em baixo, a me aguardava-o. Resmungou pela sua falta de
pontualidade, quando ele vinha a entrar Sem lhe dar qualquer
resposta, sentou-se  mesa para comer a parca refeio. As
moscas zuniam  volta da mesa e trepavam pela toalha manchada.
Atravs do estrpito das diligncias e do chocalhar dos
fiacres, ouvia a voz montona a devorar-lhe cada minuto que
lhe restava.
  Algum tempo depois, arredou o prato e mergulhou a cabea
entre as mos. Sentia que tinha o direito de saber.
Deviam-Lho ter contado antes, se era o que ele suspeitava.
Paralisada pelo medo, a me quedava-se a observ-lo. As
palavras tombavam-Lhe maquinalmente dos lbios. Torcia entre
os dedos um leno de renda j esfarrapado. Quando o relgio
bateu as seis, ele levantou-se e encaminhou-se para a porta.
Depois, retrocedeu e olhou para ela. Os olhares de ambos
cruzaram-se. No dela, ele viu um desesperado pedido de
compaixo, que o enfureceu.
  - Me, tenho uma coisa para lhe perguntar - disse ele.


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  Os olhos dela erravam distraidamente pela sala. No Lhe
respondeu.
  - Diga-me a verdade. Tenho o direito de saber. A me era
casada com o meu pai?
  Ela soltu um profundo suspiro... (Era um suspiro de alvio.
O terrvel momento, o momento que noite e dia, semanas e
meses, tanto temera, chegara por fim, e, todavia, no se
sentia apavorada. At certo ponto, foi mesmo uma decepo. A
pergunta, feita cruamente e sem rodeios, merecia uma resposta
directa. A situao no fora gradualmente preparada. Foi
abrupta. Fazia-lhe lembrar um mau ensaio.
  - No - respondeu, surpreendendo-se com a crua simplicidade
da vida.
  - O meu pai era ento um miservel? - indignou-se o rapaz,
cerrando os punhos.
  Ela fez um gesto negativo com a cabea.
  - Eu sabia que no era um homem livre. Amvamo-nos muito. Se
no tivesse morrido, teria assegurado o nosso futuro. No
fales contra ele, meu filho. Era teu pai e era um senhor. Era
at de famlias importantes.
  Uma imprecao irrompeu da boca do rapaz.
  - No  comigo que me preocupo - exclamou. - Mas no deixe a
Sibyl... Quem est apaixonado por ela  um senhor, ou que diz
que o , no  assim? E tambm de famlas muito importantes,
creio.
  por um instante, a mulher foi tomada por uma sensao
abominvel de humilhao. Deixou pender a cabea. Enxugou os
olhos com mos trmulas.
  - A Sibyl tem me - murmurou -, eu no tinha.
  O rapaz comoveu-se. Aproximou-se dela e, inclinando-se,
abraou-a.
  - Perdoe-me por t-la feito sofrer ao perguntar-lhe pelo meu
pai - disse -, mas no podia deixar de o fazer. Agora tenho de
partir. Adeus. No se esquea de que fica apenas com uma filha
para cuidar, e pode crer que se esse homem fizer mal  minha
irm, hei-de encontr-lo, persegui-lo e abat-lo como um co.
Juro que o fao.


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  A exagerada insensatez da ameaa, o gesto apaixonado que a
acompanhou, a loucura melodramtica das palavras tornaram a
vida mais intensa aos olhos da me. Era o seu ambiente.
Respirou mais livremente e, pela primeira vez, em muitos
meses, sentiu verdadeira admirao pelo filho. Gostaria que a
cena continuasse no mesmo nvel emocional, mas o filho
interrompeu-a abruptamente. Havia malas a transportar e
agasalhos a procurar. O criado da penso entrava e saa numa
grande azfama. Havia ainda a discutir o preo com o cocheiro.
O momento perdeu-se em detaLhes triviais. Foi com um renovado
sentimento de decepo que ela acenou da janela com o leno de
rendas, quando o filho se afastava. Tinha noo de que se
tinha desperdiado uma grande oportunidade. Consolava-se
contando a Sibyl como a sua vida passaria a ser solitria,
agora que s tinha uma filha para cuidar. Lembrava-se da
frase. Agradara-Lhe. No mencionou a ameaa. Foi expressa com
vivacidade e dramatismo. Tinha a sensao de que todos haviam
de rir dela um dia.


                         Captulo VI


     - J ouviu a novidad, Basil? - perguntou Lord Henry,
nesse fim de tarde, quando Hallward era acompanhado at 
pequena sala privada do Bristol, onde a mesa para o jantar
tinha sido posta para trs pessoas.
  - No, Harry - respondeu o artista, entregando o chapu e o
casaco ao criado, que se curvava numa vnia. - O que ? Nada
de poltica, espero bem. No me interessa. Quase que no se
encontra um nico indivduo na Cmara dos Comuns que valha a
pena pintar, ainda que muitos deles precisassem de um pequeno
disfarce.
  - Dorian Gray est noivo e vai casar - respondeu Lord Henry,
observando-o enquanto falava.
  Hallward sobressaltou-se, depois carregou os sobrolhos.
  - O Dorian vai casar! - exclamou ele. - Impossvel!
  -  inteiramente verdade.
  - Com quem?
  - Com uma pequena actriz qualquer.
  - No posso acreditar. O Dorian  muito sensato.
  - O Dorian  demasiado sensato para no cometer loucuras de
vez em quando, meu caro Basil.
  - No se pode dizer que o casamento seja uma coisa que se
faz de vez em quando, Harry.
  - Excepto na Amrica - retorquiu Lord Henry languidamente. -
Mas eu no disse que ele estava casado. Disse que estava
noivo. H uma grande diferena. Recordo-me nitidamente de
estar casado, mas no me lembro nada de estar noivo. Sou
levado a pensar que nunca estive noivo.
  - Mas pense nas origens do Dorian, e a sua posio social e
a sua fortuna. Seria absurdo que ele casasse com algum de
nvel inferior.
  - Se quiser lev-lo a casar com esta rapariga, v dizer-lhe
isso, Basil. De certeza que o far ento. Sempre que um homem
comete um disparate, f-lo sempre pela mais nobre das causas.
  - Espero que ela seja boa rapariga, Harry. No quero ver o
Dorian ligado a uma criatura desprezvel, que viesse a
aviltar-lhe a ndole e arruinar-lhe a inteligncia.
  - Oh, ela  mais do que boa,  bela - murmurou Lord Henry,
bebericando um vermute com bter de laranja. - O Dorian diz
que ela  lindssima, e ele no se costuma enganar com coisas
deste gnero. O retrato dele que voc fez estimulou o seu
apreo pela aparncia das outras pessoas.
Tem produzido esse efeito excelente, entre outros. Devemos
v-la Esta noite, se o rapaz no se tiver esquecido do que
ficou combinado.
  - Fala a srio?
  - Muito a srio, Basil. Sentir-me-ia incomodado s de pensar
que deveria estar mais a srio do que estou neste momento.
  - Mas voc aprova, Harry? - perguntou o pintor, andando de
um lado para o outro, e tentando dominar-se. -  impossvel
que voc aprove. Isso  alguma paixoneta idiota.
  - Eu agora nunca aprovo nem reprovo nada.  uma atitude
absurda que se toma em relao  vida. No fomos postos neste
mundo para divulgar os nossos preconceitos morais. Nunca
presto ateno ao que dizem as pessoas vulgares, e nunca
interfiro no que fazem as pessoas encantadoras. Se ficar
fascinado por determinada personalidade, ela encantar-me-
sempre, seja qual for o modo de expresso que tomar. Dorian
Gray apaixona-se por uma bela rapariga que faz de Julieta e
pede-a em casamento. E por que no? Se casasse com Messalina,
ele no seria menos interessant. Voc sabe que no sou um
defensor do casamento. A verdadeira desvantagem do casamento 
o facto de tornar as pessoas to altrustas. E as pessoas
altrustas so desenxabidas. Falta-lhes personalidade.


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H, porm certos temperamentos que se tornam mais complexos
com o casamento. Conservam o seu egosmo, e acrescentam-lhe
muitos outros egos. So obrigados a ter mais do que uma vida.
Tornam-se mais sumamente organizados, e ser sumamente
organizado , a meu ver, o desgnio da existncia do homem.
Alm disso, toda a experincia tem valor e, digam o que
disserem do casamento, ele  seguramente uma experincia.
Espero que Dorian Gray- faa desta rapariga sua esposa, a
adore apaixonadamente durante seis meses e depois fique
subitamente fascinado por mais algum. Ele seria um objecto de
estudo fascinante.
  - Voc no acredita numa nica palavra do que acaba de
dizer, Harry; sabe bem que no. Se a vida de Dorian Gray fosse
arruinada, ningum se sentiria mais penalizado do que voc.
Voc  muito melhor do que finge ser.
  Lord -enry riu-se.
  - Gostamos de pensar to bem dos outros porque temos medo de
ns mesmos. A base do optimismo  simplesmente o terror.
Consideramo-nos generosos porque atribumos ao nosso
semelhante o mrito de possuir aquelas virtudes que podero
vir a beneficiar-nos. Tecemos louvores ao banqueiro a fim de
podermos sacar a descoberto, e encontramos boas qualidades no
assaltante, na esperana de que ele poupe as nossas
algibeiras. Acredito em tudo o que disse. Sinto o maior
desprezo pelo optimismo. Quanto a uma vida arruinada, s o 
aquela cujo desenvolvimento  interrompido. Se se quiser
estragar o temperamento de algum, basta reform-lo. Quanto ao
casamento, isso seria um disparate, evidentemente. Mas existem
outros e mais interessantes laos entre homens e mulheres. Por
certo que os encorajarei. Tm o atractivo de estar na moda.
Mas veja, o Dorian acaba de chegar. Ele pode inform-lo melhor
do que eu.
  - Meu caro Harry, meu caro Basil, devem felicitar-me! -
disse o rapaz, tirando a capa de abas forradas de cetim e
cumprimentando os amigos, apertando-lhes a mo. - Nunca estive
to feliz. Claro que foi repentino, mas todas as coisas
realmente agradveis o so. E, no entanto, parece-me ser a
nica coisa de que andei  procura toda a minha vida.


                              89


  Estava corado de excitao e alegria e extremamente bonito.
  - Espero que voc seja sempre muito felz, Dorian - disse
Hallward -, mas no lhe perdoo no me ter comunicado o seu
noivado. Comunicou-o a HarrY.
  - E eu no lhe perdoo por ter chegado atrasado para o jantar
- interrompeu Lord Henry, colocando a mo no ombro do rapaz, e
sorrindo enquanto falava. - Venham,
sentemo-nos para saber como  a comida do novo chefe de
cozinha, e ento voc vai contar-nos como tudo aconteceu.
  - De facto no h muito que contar - exclamou Dorian,
quando se sentaram  pequena mesa redonda. - Aconteceu
simplesmente isto. Depois de o ter deixado ontem  noite,
Harry, mudei de roupa, jantei no pequeno restaurante italiano
da Rupert Street que voc me indicou e fui para o teatro s
oito horas. A Sibyl fazia de Rosalinda. Claro que o cenrio
era horrvel, e Orlando, absurdo. Ah! Mas Sibyl! Haviam de a
ter visto! Quando apareceu nas suas roupas de rapazinho era de
um encanto extraordinrio. Trazia um gibo de veludo cor de
musgo com mangas cor de canela, meias estreitas castanhas com
ligas, uma graciosa boina verde com uma pena de falco pregada
com uma jia, e uma capa de capuz forrada de um vermelho mate.
Nunca me parecera to requintada. Tinha toda a graa delicada
daquela estatueta de terracota que voc tem no estdio, Basil.
O cabelo emoldurava-lhe o rosto como folhas escuras em volta
de uma rosa plida. Quanto  sua actuao... bem,
vo ter ocasio de v-la esta noite.  simplesmente uma
artista nata. Sentado naquele srdido camarote, senti-me
totalmente arrebatado. Esqueci-me que estava em Londres e no
sculo XIX. Sentia-me longe com a minha amada, numa floresta
que nenhum homem jamais vira. Quando o espectculo terminou,
fui ao camarim falar com ela. Quando estvamos sentados os
dois, surgiu de repente nos seus olhos uma expresso que nunca
vira antes. Os meus lbios aproximaram-se dos seus.
Beijmo-nos. No sei descrever--lhes o que senti nesse
momento. Era como se toda a minha vida se tivesse reduzido a
um perfeito ponto de alegria cor-de-rosa.


                              90


Toda ela estremecia e tremia como um narciso branco. Depois
ps-se de joelhos e beijou-me as mos. Eu sinto que no devia
contar-vos tudo isto, mas no posso evit-lo.
Evidentemente que o nosso noivado  um segredo absoluto. Ela
nem sequer contou  prpria me. No sei o que os meus tutores
iro dizer. Lord Radley vai com certeza ficar furioso. No me
importo. J no falta um ano para eu atingir a maioridade. e
ento posso fazer o que eu quiser. Fiz bem Basil, no
concorda, em ir buscar o meu amor  poesia e encontrar uma
esposa nas peas de Shakespeare? Os lbios que Shakespeare
ensinou a falar murmuraram-me o seu segredo ao ouvido. Os
braos de Rosalinda abraaram-me, e eu beijei Julieta na boca.
  - Sim, Dorian, suponho que fizeste bem - disse Hallward,
lentamente.
  - Voc viu-a hoje? - perguntou Lord Henry.
  Dorian Gray negou com movimento de cabea.
  - Deixei-a na floresta de Arden, e vou encontr-la num pomar
de Verona.
  Lord Henry bebericou o seu champanhe de um modo pensativo.
  - Em que momento exacto mencionou a palavra casamento,
Dorian? E o que respondeu ela?  provvel que voc se tenha
esquecido completamente.
  - Meu caro Harry, eu no considerei isto como uma transaco
comercial e no fiz nenhuma proposta formal de casamento.
Disse-lhe que a amava, e ela respondeu que no era digna de
ser minha esposa. Que no era digna! Ora, o mundo inteiro
comparado com ela no tem valor algum.
  - As mulheres so espantosamente prticas - murmurou Lord
Henry -, muito mais prticas do que ns. Em situaes desse
gnero ns esquecemo-nos frequentemente de falar em casamento,
mas elas fazem-nos lembrar.
  Hallward pousou a mo no brao dele.


                              91


  - No continue, Harry. O Dorian ficou ofendido. Ele no 
como os outros homens. Nunca faria ningum infeliz. Tem uma
ndole demasiado delicada.
  Lord Henry olhou do outro lado da mesa.
  - O Dorian nunca se ofende comigo - respondeu. - Fiz a
pergunta pela razo mais plausvel, pela nica razo que,
na verdade, nos desculpa por fazer uma pergunta: simples
curiosidade. Eu tenho uma teoria, segundo a qual so sempre as
mulheres a proporem-nos casamento e no ns a propor casamento
s mulheres. Com excepo, claro, na vida da classe mdia. Mas
tambm as classes mdias no so modernas.
  Dorian Gray riu-se, atirando a cabea para trs.
  - Voc  inteiramente incorrigvel, Harry, mas no me
importo.  impossvel ficar zangado consigo. Quando vir Sibyl
Vane, voc sentir que o homem que a ultrajasse seria uma
fera, sem corao. No posso compreender como  que algum
pode querer humilhar o ser que ama. Eu amo Sibyl Vane. Quero
coloc-la sobre um pedestal de ouro e ver o mundo venerar a
mulher que me pertence. O que  o casamento? Um voto
irrevogvel.  por isso que voc fala dele com escrnio. Ah!
No faa zombaria...  um voto irrevogvel que eu quero
cumprir. Sou fiel porque ela confia em mim, sou bom porque ela
acredita em mim. Quando estou com ela, lamento tudo o que voc
me ensinou. Torno-me diferente daquele que voc conheceu.
Modifiquei-me, e o simples toque da mo de Sibyl Vane faz-me
esquecer de voc e de todas as suas erradas, e fascinantes,
e venenosas, e deliciosas teorias.
  - E que so? - perguntou Lord Henry, servindo-se de um pouco
de salada.
  - Ora, as suas teorias da vida, e as suas teorias do amor,
e as suas teorias do prazer. Em suma, todas as suas teorias,
Harry.
  - O prazer  a nica coisa que merece ter uma teoria -
respondeu, com a sua voz lenta e melodiosa. - Mas receio no
poder reivindicar a minha teoria como pertena minha. Ela
pertence  Natureza e no a mim.


                           92  93



O prazer  o teste da Natureza, o seu sinal de aprovao.
Quando somos felizes somos sempre bons, mas quando somos bons
nem sempre somos felizes.
  - Ah, mas o que entende voc por bons? - exclamou Basil
Hallward.
  - Sim - repetiu Dorian como um eco, recostando-se na cadeira
e olhando para Lord Henry, por cima dos pesados ramos de ris
de lbios prpura que estavam no centro da mesa -, o que
entende voc por bons, Harry?
  - Ser bom  estar de harmonia consigo mesmo - retorquiu ele,
tocando no p delicado do clice com os seus dedos plidos e
finos. - O conflito  ser obrigado a estar de harmonia com os
outros. O que  importante  a nossa prpria vida. Quanto s
vidas dos nossos semelhantes, se desejarmos ser moralistas ou
puritanos, podemos alardear as nossas opinies morais sobre
elas, mas elas no nos dizem respeito. Alm disso, o
individualismo tem realmente um objectivo mais elevado. A
moralidade moderna consiste em aceitar o modelo da prpria
poca. Considero que uma forma da mais grosseira imoralidade 
o facto de qualquer homem de cultura aceitar o modelo da sua
poca.
  - Mas, certamente, se se vive simplesmente para si mesmo,
Harry, paga-se um preo terrvel por isso, ou no? -- sugeriu
o pintor.
  - Sim, hoje em dia cobram-nos em excesso por tudo.
A meu ver, a verdadeira tragdia dos pobres  a de no poderem
dar-se ao luxo de coisa nenhuma seno a auto-recusa. Os
pecados belos, como as coisas belas, so privilgio dos ricos.
  - H outros processos de pagamentos alm do dinheiro.
  - Que processos, Basil?
  - Ora, imagino que com o remorso, com o sofrimento,
com... bem, com a conscincia da degradao.
  lord Henry encolheu os ombros.
  - Meu bom amigo, a arte medieval  fascinante, mas as
emoes medievais so obsoletas. Podem ser usadas em fico.
evidentemente. Mas, nesse caso, as nicas coisas que  podem
usar-se em fico so as que de facto deixaram de ser usadas.
Pode crer que um homem civilizado jamais lamenta o prazer, e
que um homem incivilizado jamais sabe o que  o prazer.
  - Eu sei o que  o prazer - afirmou Dorian Gray.
-  adorar algum.
  - Sempre  melhor do que ser adorado - respondeu ele,
brincando com algumas peas de fruta. - Ser adorado  uma
maada. As mulheres tratam-nos exactamente como a Humanidade
trata os seus deuses. Veneram-nos, e depois andam sempre a
importunar-nos com pedidos.
  - Eu diria antes que tudo o que nos pedem j nos foi dado
primeiro por elas - murmurou o rapaz, gravemente -, Elas geram
em ns o amor. Tm, pois, o direito de o pedir de volta.
  -  absolutamente verdade, Dorian - concordou Hallward.
  - No h nada que seja a verdade absoluta - contestou Lord
Henry.
  - Isto  - interrompeu Dorian. - Voc tem de admitir,
Harry, que as mulheres do aos homens o verdadeiro ouro das
suas vidas.
  -  possvel - comentou ele, com um suspiro -, mas querem
invariavelmente... a sua restituio em trocos miudinhos. 
isso que se torna preocupante. As mulheres,
como dizia, com esprito, um francs, inspiram-nos o desejo de
realizar obras-primas, e impedem-nos sempre de as executar.
  - Harry, como voc  horrvel! Nem sei por que gosto tanto
de si.
  - H-de gostar sempre de mim, Dorian - replicou ele.
- Querem tomar caf, meus amigos? - Criado, sirva-nos caf, e
um bom champanhe, e traga-nos cigarros. No, cigarros no,
ainda tenho alguns. Basil, no posso permitir que fume
charutos. Tem de fumar um cigarro. Um cigarro  o modelo
perfeito de um prazer perfeito.  delicioso e deixa-nos
insatisfeitos. Que mais podemos desejar? Como estava a dizer,


                              94


Dorian, voc h-de gostar sempre de mim.
Represento para si todos os pecados que nunca teve coragem de
cometer.
  - No diga disparates, Harry! - exclamou o rapaz
acendendo um cigarro na chama de um drago de prata que
soprava fogo, e que o criado tinha pousado em cima da mesa. -
Vamos para o teatro. Quando Sibyl aparecer no palco, voc ter
um novo ideal de vida. Ela representar para si algo que nunca
conheceu.
  - J conheci tudo - disse Lord Henry, com um olhar fatigado
- e estou sempre pronto para uma nova emoo.
- Mas suponho que, pelo menos para mim, isso no existe.
Mesmo assim, pode ser que a sua admirvel rapariga me faa
vibrar. Adoro teatro.  muito mais real do que a vida.
Vamos, ento. Dorian, voc vem comigo. Lamento muito,
Basil, mas s h lugar para dois na berlinda. Voc vai ter que
seguir-nos de fiacre.
  Levantaram-se e vestiram os casacos, bebendo o caf de p. O
pintor estava silencioso e preocupado. Dominava-o uma certa
melancolia. Este casamento era-lhe insuportvel,
e, no entanto, parecia-lhe prefervel a muitas outras coisas
que poderiam ter acontecido. Uns minutos depois, passaram ao
andar inferior. Hallward seguiu sozinho, como fora combinado,
e via as luzes brilhantes da pequena berlinda que ia  sua
frente. Apoderou-se dele uma estranha sensao de perda.
Sentia que Dorian Gray nunca voltaria a ser para si tudo o que
havia sido no passado. A vida interpusera-se entre eles. Os
olhos toldaram-se-lhe, e via como numa nvoa as ruas
movimentadas e iluminadas.
Quando o fiacre parou ao chegar ao teatro, tinha a impresso
de ter envelhecido.



                         Captulo VII


     Por qualquer razo, a casa estava cheia nessa noite, e o
gordo empresrio judeu recebeu-os  porta, exibindo um sorriso
trmulo e untuoso de orelha a orelha. Acompanhou-os ao
camarote com exagerada humildade, gesticulando com as mos
gordas e cobertas de jias, e falando muito alto. Dorian Gray
abominou-o mais do que nunca.
Era como se tivesse vindo  procura de Miranda e tivesse
encontrado Caliban. Lord Henry, pelo contrrio, gostou
bastante dele. Pelo menos, assim o manifestou: insistiu em
apertar-lhe a mo, asseverando-lhe que tinha orgulho em
conhecer um homem que descobrira um verdadeiro gnio e que se
arruinara por um poeta. Hallward distraa-se a observar as
pessoas da plateia. O calor era sufocante, e um sol abrasador
dardejava como dlia gigante de ptalas de fogo. Os jovens da
galeria superior tinham despido os casacos e os coletes e
tinham-nos pendurado ao lado. Falavam uns para os outros de
uma ponta  outra do teatro e comiam laranjas, que repartiam
com as raparigas espalhafatosas a seu lado sentadas. Algumas
mulheres, de vozes estridentes e dissonantes, riam na plateia.
Do bufete chegava o rudo das rolhas a saltarem das garrafas.
  - Que estranho lugar para uma deusa! - observou Lord Henry.
  - Foi aqui, sim! - respondeu Dorian Gray. - Foi aqui que a
encontrei, e ela  um ser divino acima de todo o ser vivente.
Quando est a representar esquecemo-nos de tudo. Estas pessoas
vulgares, grosseiras, de rostos rudes e gestos abrutalhados,
transformam-se radicalmente, quando ela est em cena. Ficam a
olhar atentamente e em silncio. Ela f-los rir e chorar a seu
bel-prazer. Ela pe-nos to sensveis como um violino.


                              96


D-lhes espiritualidade, e sentimos que so to humanos como
ns.
  - To humanos como ns! Espero bem que no! - exclamou Lord
Henry, que passava os olhos pelos ocupantes da galeria
superior atravs dos seus binculos de teatro.
  - No d importncia ao que ele diz, Dorian - disse o
pintor. - Eu sei o que voc quer dizer e acredito nesta
rapariga. Qualquer pessoa que voc ame deve ser maraviLhosa, e
qualquer rapariga que cause em si o efeito que descreve deve
ser requintada e nobre. Espiritualizar a sua poca  algo que
vale a pena fazer. Se esta rapariga consegue transmitir uma
alma aos que tm vivido privados de uma alma, se consegue
criar o sentido da beleza em pessoas de vidas srdidas e
execrveis, se consegue extirpar-lhes o egosmo e
provocar-lhes lgrimas pelo sofrimento alheio,
ela  digna da sua venerao, digna da venerao de todo o
mundo.  um casamento perfeito. A princpio eu no pensava
assim, mas agora aceito-o. Os deuses criaram Sibyl Vane para
si. Sem ela, voc estaria incompleto.
  - Obrigado, Basil - respondeu Dorian Gray, apertando-lhe a
mo. - Sabia que havia de me compreender. O Harry  to cnico
que me apavora. Olha, chegou a orquestra.  pssima, mas s
toca durante cerca de cinco minutos. Depois o pano sobe, e
vereis a rapariga a quem vou dar toda a minha vida, a quem dei
tudo o que h de bom em mim.
  Um quarto de hora depois, por entre o estrondo dos aplausos,
Sibyl Vane deu entrada no palco. Sim, era de facto linda, uma
das criaturas mais bonitas que jamais vira,
pensou Lord Henry. Tinha um pouco da graa tmida e do olhar
assustado de uma cora. Subiu-Lhe ao rosto um leve rubor, como
o reflexo de uma rosa num espelho de prata,
quando viu a casa cheia de um pblico entusiasmado. Recuou
alguns passos e os lbios pareciam tremer. Basil Hallward
ps-se de p num salto e comeou a aplaudir. Imvel,
como num sonho, Dorian Gray ficou sentado a contempl-la. Lord
Henry perscrutava atravs dos binculos,
murmurando "Encantadora! Encantadora!"


                              97


  A cena passava-se no trio da casa dos Capuleto, e Romeu,
trajado de peregrino, tinha entrado com Merccio e os outros
amigos. A orquestra tocou alguns compassos de msica e o baile
comeou. Por entre o conjunto de actores desajeitados,
pobremente vestidos, Sibyl Vane movimentava-se como uma
criatura de um mundo mais requintado.
Ao danar, movia o corpo como uma planta que oscila na gua. A
linha do pescoo era a de um lrio branco. As mos pareciam de
frio marfim.
  No entanto, estava surpreendentemente aptica. No mostrou
qualquer sinal de alegria, quando os seus olhos pousaram em
Romeu. As poucas linhas que tinha de dizer:


     Good pilgrim. you do wrong your hand too much,
     Which mannerly devotion shows in this,
     For saints have hands That pilgrims' hands do tou
     And palm to palm is holy palmers kiss.


  com o breve dilogo que se Lhe segue, foram ditas de uma
maneira completamente artificial. A voz era delicada, mas o
tom totalmente inadequado. Estava no timbre errado.
Roubava aos versos toda a emoo. No transmitia veracidade 
paixo.
  Dorian Gray empalidecia ao contempl-la. Estava confuso e
angustiado. Nenhum dos dois amigos ousava dizer-lhe qualquer
coisa. Ela pareceu-lhes absolutamente incompetente. Ficaram
terrivelmente decepcionados.
  Sentiam, porm, que o verdadeiro teste de qualquer Julieta 
a cena do balco no segundo acto. Ficaram aguardando. Se ela
fracassasse a, ento s mostraria que no tinha valor algum.
  Estava sedutora no momento em que apareceu ao luar.
Era um facto inegvel.


  *1. Bom romeiro, fazeis injustia  vossa mo, / Que corts
devoo em seu gesto vem mostrar, / Os santos tm mos que os
romeiros tocar vo,
! E as palmas juntas so dos romeiros seu beijar. (N. da T.)


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Mas a teatralidade da sua representao era insuportvel e
piorava  medida que ela continuava. Os gestos tornaram-se
absurdamente artificiais. Colocava uma nfase exagerada em
tudo o que dizia. A passagem to bela:


     Thou knowest the mask of night is on my face
     Else would a maiden blush bepaint my cheek
     For that Which thou hast heard me speak tonight.


  foi declamada com a penosa preciso de uma menina de escola
que foi ensinada a recitar por um professor de declamao de
segunda ordem. Quando se debruou no balco e chegou queles
maravilhosos versos:


     Although I joy in thee
     I have no joy in this contract tonight:
     It is too rash, too unadvised, too sudden;
     Too like the lightning, which woth cease to be
     Ere one can say, It lightens.  Sweet, goodnight!
     This but of love by summers ripening breath
     May prove a beauteous flower When next we meet!


  pronunciava as palavras como se no tivessem significado
algum para ela. No era nervosismo. Na verdade, longe de
mostrar nervosismo, manifestava total reserva. No passava de
uma m representao. Foi um completo fracasso.
  At o pblico vulgar e sem instruo da plateia e da galeria
perdeu o interesse pela pea, Mostravam-se impacientes e
comearam a falar alto e a assobiar.


  *1. No fosse a mscara da noite em meu rosto, / Um casto
rubor me acudiria  face / Por teres ouvido o que eu disse
esta noite(N. da T.)
  2. Embora em ti seja meu deleite, / No me alegra o trato
desta noite / Por to inesperado, sem aviso, / Como raio que
cessa ainda antes / De nomeado. Boa noite, querido! / Tomando
do Vero seu sazonar, / Que este boto de amor seja florido /
Quando aqui nos volvermos a encontrar. (N. da T.)


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O judeu, que estava de p ao fundo do balco, batia com o p e
praguejava enfurecido. A nica pessoa impassvel era a prpria
rapariga.
  Quando terminou o segundo acto ouviu-se uma vaia de
assobios, e Lord Henry levantou-se e vestiu o casaco.
  - Ela  muito bela, Dorian - comentou -, mas no sabe
representar. Vamos embora.
  - Fico a ver a pea at ao fim - respondeu o rapaz, em tom
duro e amargo. - Lamento muito t-lo levado a desperdiar uma
noite, Harry. Peo aos dois que me desculpem.
  - Meu caro Dorian, acho que Miss Vane no se sentia bem -
interrompeu Hallward. - Havemos de voltar outra noite.
  - Quem me dera que fosse isso - retorquiu ele. - Mas ela
parece-me estar simplesmente insensvel e fria. Modificou-se
completamente. A noite passada foi uma grande artista. Esta
noite  apenas uma actriz banal e medocre.
  - No fale assim de quem ama, Dorian. O Amor  mais
maravilhoso do que a Arte.
  - Ambos so unicamente formas de imitao - comentou Lord
Henry. - Mas vamo-nos embora. Dorian, no deve ficar aqui mais
tempo. No faz bem  moral de cada um assistir a uma m
representao teatral. Alm disso, suponho que voc no vai
querer que a sua esposa seja actriz.
Por isso, que importa que ela faa de Julieta como uma boneca
de pau?  muito bonita e, se souber tanto da vida como sabe da
arte de representar, ela ser uma experincia deliciosa.
Existem apenas dois tipos de pessoas que so realmente
fascinantes: as que sabem absolutamente tudo e as que no
sabem absolutamente nada. Meu Deus, menino,
no ponha esse ar to trgico! O segredo de manter a juventude
consiste em nunca ter qualquer emoo que no nos fique bem.
Venha at ao clube com Basil e comigo. Fumamos uns cigarros e
bebemos  beleza de Sibyl Vane. Ela  bela. Que mais pode
querer?
  - V-se embora, Harry - gritou o rapaz. - Quero ficar s.
Voc tambm deve ir, Basil. Ah! No vem que tenho o corao
despedaado?


                              100


  Os olhos marejaram-se de lgrimas escaldantes. Os lbios
tremiam, depois, correndo para o fundo do camarote,
encostou-se  parede, escondendo o rosto entre as mos.
  - Vamos, Basil - disse Lord Henry, com uma estranha ternura
na voz, e os dois jovens saram juntos.
  Pouco tempo depois, acenderam-se as luzes da ribalta e subiu
o pano para o terceiro acto. Dorian Gray regressou ao seu
lugar. Estava plido, com um ar altivo e indiferente.
A pea arrastava-se e parecia interminvel. Metade do pblico
saiu, rindo e caminhando ruidosamente com as suas botas
grossas. Tudo aquilo foi um fiasco. O ltimo acto foi
representado para uma sala quase vazia. O pano desceu entre
roncos e risadas.
  Assim que tudo terminou, Dorian Gray precipitou-se para os
bastidores e entrou no camarim. A rapariga encontrava-se s,
ostentando um ar de triunfo. Os olhos fulgiam com uma luz
estranha. Toda ela irradiava. Os lbios entreabertos sorriam
de um segredo apenas seu.
  Quando Dorian entrou, olhou para ele com uma expresso de
infinita alegria.
  - Representei to mal esta noite, Dorian! - exclamou ela.
  - Horrivelmente! - respondeu, fitando-a atnito -,
horrivelmente! Foi pavoroso. Sente-se indisposta?  que no
faz a mnima ideia do que foi. Nem... faz ideia do que eu
sofri.
  A rapariga sorriu.
  - Dorian - respondeu ela, demorando-se no nome dele,
prolongando musicalmente a voz, como se tivesse um sabor mais
doce do que o mel nas ptalas vermelhas da sua boca -, Dorian,
deve ter compreendido. Mas compreende agora, no  assim?
  - Compreender o qu? - perguntou ele, zangado.
  - Por que motivo representei to mal esta noite. Ora,
hei-de representar sempre mal. Pois nunca mais hei-de
representar bem.
  Ele encolheu os ombros.
  - A Sibyl deve estar doente. Quando no se sente bem,


                              101


no deveria representar. Expe-se ao ridculo. Os meus amigos
estavam incomodados. Eu estava incomodado.
  Ela parecia que no o estava a ouvir. A alegria
transfigurava-a. Dominava-a um xtase de felicidade.
  - Dorian, Dorian - exclamou -, antes de. o conhecer, o
teatro era a nica realidade da minha vida. S no teatro  que
eu vivia. Pensava que era tudo verdade. Uma noite era
Rosalinda, outra noite era Prcia. A alegria de Beatriz era a
minha alegria, e as mgoas de Cordlia eram minhas tambm.
Acreditava em tudo. As pessoas vulgares que comigo
representavam pareciam-me deuses. Os cenrios pintados eram o
meu mundo. Eu apenas conhecia sombras, e julgava-as reais. O
Dorian apareceu - oh, meu formoso amado! - e libertou a minha
alma da priso. Ensinou-me o que  realmente a realidade. Esta
noite, pela primeira vez na vida,
apercebi-me da falsidade, da impostura, da idiotice da
fantochada oca em que sempre representara. Esta noite, pela
primeira vez, dei-me conta de que Romeu era horrendo, e velho,
e pintado, de que a lua que iluminava o pomar era falsa, de
que o cenrio era tosco, e de que as... palavras que devia
dizer eram irreais, no eram palavras minhas, nem eram o que
eu queria dizer. O Dorian trouxe-me algo mais elevado, algo de
que toda a arte  somente um reflexo. Fez-me compreender o que
 realmente o amor. Meu amor! Meu amor! Prncipe Encantado!
Prncipe da vida! Enfastiei-me das sombras. Para mim, o Dorian
significa mais do que toda a arte. O que tenho eu a ver com os
fantoches de uma pea? Quando subi ao palco esta noite, no
pude compreender por que j no existia em mim tudo o que eu
fora antes. Eu supunha que iria representar maravilhosamente.
Descobri que no conseguia fazer nada. De sbito,
aclarou-se-me o esprito e percebi o significado de tudo
aquilo. Foi uma percepo maravilhosa. Ao ouvi-los assobiar,
eu sorria. Que poderiam eles saber de um amor como o nosso?
Leve-me consigo, Dorian, leve-me consigo para um lugar onde
possamos estar ss. Odeio o palco. Eu podia fingir uma paixo
que no sinto, mas no posso fingir a que me queima como fogo.


                              102


Ah, Dorian, Dorian, compreende agora o significado de tudo
isto? Ainda que o pudesse fazer, seria para mim uma profanao
representar o papel de apaixonada. Foi o Dorian que me fez ver
isso.
  Ele atirou-se para o sof e desviou a cara para o outro
lado.
  - A Sibyl matou o meu amor - balbuciou.
  Ela olhou-o profundamente espantada, e riu-se. Ele no
respondeu. Ela aproximou-se dele e afagou-lhe o cabelo com os
seus dedos frgeis. Ajoelhou-se e, tomando-lhe as mos,
levou-as aos lbios. Ele retirou-as bruscamente, e estremeceu.
  Ento, levantou-se de pronto e encaminhou-se para a porta.
  - Sim - gritou ele -, mato o meu amor. Costumava excitar a
minha imaginao. Agora nem sequer excita a minha curiosidade.
No exerce qualquer efeito em mim.
Eu amava-a porque era maravilhosa, porque possua gnio e
inteligncia, porque realizava os sonhos dos grandes poetas e
dava forma e substncia s sombras da arte. Agora deitou tudo
a perder.  ftil e estpida. Meu Deus! Que louco fui em
am-la! Como fui idiota! A Sibyl j nada representa para mim.
No voltarei a v-la jamais... Jamais pensarei em si. Jamais
pronunciarei o seu nome. No pode imaginar o que era para mim
antes. Bem, antes...
Oh! No posso suportar tal pensamento! Quem me dera que nunca
a tivesse visto. Destruiu o sonho de amor de toda a minha
vida. Pouco sabe de amor quando diz que ele prejudica a sua
arte! Sem a sua arte, a Sibyl no vale nada. Eu podia torn-la
clebre, esplndida, magnfica. O mundo t-la-ia idolatrado, e
eu ter-Lhe-ia dado o meu nome. O que  a Sibyl agora? Uma
actriz de terceira categoria com uma cara bonita.
  A rapariga empalideceu, e tremia. Apertou as mos uma na
outra, e a voz embargou-se.
  - No est a falar a srio, Dorian, pois no? - murmurou. -
Est a representar.


                              103


  - Representar! Isso cabe-lhe a si. E sabe faz-lo to bem -
respondeu ele, amargamente.
  Ela ergueu-se e, com uma comovente expresso de dor,
chegou perto dele. Pousou a mo no seu brao e fitou-o nos
olhos. Ele empurrou-a.
  - No me toque! - gritou.
  Ela gemeu baixinho, e lanou-se-lhe aos ps, e ali ficou,
como uma flor espezinhada.
  - Dorian, Dorian, no me abandone! - disse ela, num
murmrio. - Lamento tanto no ter representado bem.
Eu pensava em si o tempo todo. Mas vou tentar, prometo que
vou. O meu amor por si arrebatou-me to inesperadamente. Creio
que nunca o teria sentido se no me tivesse beijado. se nunca
nos tivssemos beijado. Beije-me mais uma vez, meu amor. No
me deixe. Isso eu no poderia suportar. Oh! No me deixe... O
meu irmo... No, no tem importncia... Ele no falava a
srio. Foi s de brincadeira. Mas, Dorian, no poder
perdoar-me por esta noite? Hei-de trabalhar aplicadamente e
tentar aperfeioar-me. No seja cruel comigo porque o amo mais
que tudo neste mundo. Alm disso, foi s desta vez que no Lhe
agradei. Mas tem razo, Dorian. Eu deveria ter mostrado mais a
artista que h em mim. Foi uma loucura o que fiz, mas foi mais
forte do que eu. Oh! No me abandone, no me abandone.
  Soluava convulsivamente. Estava dobrada no cho como animal
ferido. Dorian Gray fitou-a com os seus bonitos olhos, e
contorceu os delicados lbios numa expresso de desdm. H
sempre qualquer coisa de ridculo nas emoes das pessoas que
deixmos de amar. A seu ver,
Sibyl Vane era ridiculamente melodramtica: As suas lgrimas e
os soluos irritavam-no.
  - Vou-me embora - disse, por fim, numa voz calma e ntida. -
No gostaria de ser indelicado, mas no posso voltar a v-la.
Desiludiu-me.
  Ela chorava em silncio e no lhe respondeu, mas foi-se
aproximando mais. Estendeu s cegas as pequeninas mos,


                              104


como que  sua procura. Ele deu meia volta e saiu do camarim.
No demorou muito a sair do teatro.
  Mal sabia para onde dirigia os seus passos. Lembrava-se de
ter vagueado por ruas escuras, de ter passado sob arcadas
lgubres e sombrias e por casas srdidas. Mulheres de vozes
roucas e gargalhadas estridentes chamavam-no. Passavam, a
cambalear, bbados que praguejavam e falavam sozinhos, mais
parecendo gorilas monstruosos. Vira crianas grotescas
amontoadas nos degraus das casas e ouvira guinchos e
blasfmias vindos de ptios lbregos.
  Ao romper da madrugada, encontrava-se perto do Covent
Garden. As trevas dissiparam-se e, enrubescido por plidos
clares de fogo, o cu arredondou-se numa prola perfeita.
Carroas enormes, carregadas de lrios balouantes,
estrondeavam vagarosamente pela calada polida e deserta. O ar
estava saturado do perfume das flores, cuja beleza parecia
trazer-lhe um antdoto para o seu sofrimento.
Entrou no mercado e comeou a observar os homens a
descarregarem as carroas. Um carreteiro de bata branca
ofereceu-lhe cerejas. Agradeceu-lhe e, admirado de ele ter
recusado aceitar dinheiro por elas, comeou a com-las
distraidamente. Tinham sido colhidas  meia-noite, e
entranhara-se nelas o frio do luar. Uma longa fila de rapazes,
carregando grades de tlipas raiadas e de rosas vermelhas e
amarelas, desfilou em frente dele, abrindo caminho por entre
enormes pilhas de vegetais de um verde-jade. Sob o prtico de
colunas cinzentas descoradas pelo sol, um grupo de raparigas
desmazeladas e de cabea descoberta aguardava que terminasse a
lota. Outras apinhavam-se  volta da porta giratria do caf
do Plazza. Os pesados cavalos das carroas escorregavam e
batiam com as patas no empedrado irregular, fazendo sacudir os
guisos e os arreios. Sobre uma pilha de sacas, dormiam alguns
carroceiros. Os pombos, de pescoos irisados e patas rosadas,
corriam de um lado para o outro debicando sementes.
  Pouco tempo depois, ele chamou um fiacre e dirigiu-se para
casa.


                              105


  Deteve-se por uns momentos  porta a contemplar a praa
silenciosa, de inexpressivas janelas cerradas e persianas
estticas. O cu era agora de pura opala, e os telhados das
casas brilhavam como prata. De uma chamin em frente saa uma
tnue espiral de fumo, que se enroscava como uma fita lils
pelo ar cor de ncar No imponente vestbulo forrado de madeira
de carvalho, pendia do tecto uma enorme lanterna dourada de
Veneza - dos despojos da barca de algum doge -, onde ardiam
ainda trs luzes bruxuleantes: pareciam ptalas transparentes
de chama azul com orlas de fogo branco. Ele apagou-as e,
atirando o chapu e a capa para cima da mesa, atravessou a
biblioteca em direco  porta do quarto, um espaoso aposento
octogonal no rs-do-cho que, devido  sua recente predileco
pelo fausto, acabara de mandar decorar para si, ornamentando-o
com originais tapearias renascentistas que tinham sido
encontr adas arrumadas num sto abandonado em Selby Royal.
Quando fazia rodar o puxador da porta, os olhos depararam com
o seu retrato pintado por Basil Hallward. Recuou
sobressaltado, como que surpreendido. Em seguida, um pouco
perplexo, foi entrando para o quarto.
Depois de ter retirado a botoeira do casaco, pareceu hesitar.
Por fim, voltou atrs, aproximou-se do retrato e examinou-o. 
fraca claridade da luz que conseguia passar atravs dos
estores de seda creme, afigurava-se-lhe um pouco alterado. A
expresso estava diferente. Dir-se-ia que havia um laivo de
crueldade na boca. Era deveras estranho.
  Voltou-se, caminhou para a janela e subiu o estore. O
esplendor do amanhecer invadiu a sala e varreu as fantsticas
sombras para cantos escuros, onde ficaram tremendo.
Mas a curiosa expresso que notara no rosto do retrato parecia
ter permanecido, ter-se acentuado ainda mais. A luz trmula e
candente do sol revelava-lhe os traos de crueldade que
contornavam a boca to nitidamente como se estivesse a ver-se
num espelho, depois de ter cometido alguma aco terrvel.
  Estremeceu e, retirando de cima da mesa um espelho oval


                              106


emoldurado por Cupidos de marfim - mais um dos muitos
presentes de Lord Henry -, lanou um rpido olhar ao mais
fundo da superfcie polida. No viu traos como aqueles a
distorcerem-lhe os lbios rubros. Que significava aquilo?
  Esfregou os olhos, aproximou-se do retrato e examinou-o de
novo. No via indcios de qualquer alterao quando olhava
para a pintura em si, e, no entanto, no tinha dvida alguma
de que toda a expresso se modificara.
No se tratava de pura fantasia sua. Aquilo era de uma
evidncia horrvel.
  Afundou-se numa poltrona, e comeou a pensar. De repente,
veio-lhe  memria o que havia dito no atelier de Basil
Hallward no dia em que o retrato fora acabado. Sim,
lembrava-se perfeitamente. Proferira o extravagante desejo de
querer ficar sempre jovem e de ser o retrato a envelhecer, de
que a sua beleza permanecesse imaculada e que fosse a cara
pintada na tela a suportar o peso das suas paixes e dos seus
pecados, de que a imagem pintada fosse marcada pelas rugas do
sofrer e do pensar e que ele mantivesse toda a delicada
frescura e beleza da sua mocidade, de que s ento tomara
conscincia. Ter-se-ia cumprido o seu desejo? Essas coisas
eram impossveis! S pensar nelas era monstruoso. E, todavia,
ali estava, mesmo  sua frente, o retrato com o ricto de
crueldade nos lbios.
  Crueldade! Tinha sido cruel? A culpa foi da rapariga, e no
dele. Imaginara-a uma grande artista, dera-lhe o seu amor,
porque a julgara extraordinria. E ento ela decepcionara-o.
Fora ftil e desprezvel. Porm, assaltou-o um sentimento de
infinito remorso, ao recordar-se dela prostrada a seus ps,
chorando como uma criana. Recordou-se da indiferena com que
para ela olhara. Por que nascera ele assim? Por que Lhe fora
dada uma alma como a sua? Mas ele tambm sofreu. Durante as
trs horas terrveis que a pea durara, vivera sculos de
sofrimento, eternidades de tortura. A sua vida valia bem mais
do que a vida dela. Ela magoara-o por um momento, ainda que
ele a tivesse magoado para sempre. Alm do mais, as mulheres
tinham melhor preparao para o sofrimento do que os homens.


                              107


Viviam das prprias emoes, s pensavam nas suas emoes.
Possuam amantes pela simples razo de ter algum com quem
pudessem armar um escndalo. Dissera-lho Lord Henry, e Lord
Henry sabia como eram as mulheres. Por que haveria de se
preocupar com Sibyl Vane? Ela agora nada valia para ele.
  Mas o retrato? Como explicar aquilo? Continha o segredo da
sua vida e revelava a sua histria. Ensinara-lhe a amar a sua
prpria beleza. Ensinar-Lhe-ia a odiar a prpria alma? Teria
coragem de voltar a encarar o retrato?
  No, no podia ser verdade, no era mais do que uma
alucinao fabricada pelo distrbio dos sentidos. A horrvel
noite que ele passara deixou atrs de si alguns fantasmas. O
seu crebro fora subitamente atingido por aquela minscula
partcula escarlate que enlouquece os homens. O retrato no
mudara. Era loucura pensar que sim.
  E, no entanto, l estava a observ-lo, o belo rosto
desfigurado de sorriso cruel. O brilho dourado dos cabelos
cintilava aos primeiros raios de sol. Os olhos azuis
encontraram-se com os seus, e apoderou-se dele uma sensao de
infinita piedade, no por si, mas pela imagem pintada de si.
J se tinha alterado e havia de continuar a sofrer alteraes.
O ouro dos cabelos tornar-se-ia bao at ficar grisalho, e as
rosas brancas e vermelhas das faces feneceriam. Por cada
pecado que cometesse, nova mcula iria marcar e arruinar a sua
beleza. Mas ele no pecaria. O retrato, alterado ou
inalterado, seria para ele o emblema visvel da sua
conscincia.
Resistiria  tentao. Deixaria de se encontrar com Lord
Henry, pelo menos, no daria ouvidos s suas subtis teorias
venenosas que, no jardim de Basil Hallward, tinham,
pela primeira vez, despertado dentro de si a paixo pelas
coisas impossveis. Voltaria para Sibyl Vane, compens-la-ia
pelo mal que lhe fizera, casaria com ela e tentaria voltar a
am-la. Sim, era seu dever faz-lo. Ela de certo sofreu mais
do que ele. Pobre menina! Tratara-a com egosmo e crueldade. O
fascnio que exercera sobre ele havia de voltar.



                              108


Iriam ser felizes os dois. Teria com ela uma vida bela e pura.
  Levantou-se e arrastou um grande biombo que colocou em
frente do retrato, estremecendo ao olhar para ele.
  - Que horrvel! - murmurou.
  Depois foi at  porta envidraada e abriu-a. Quando pisou a
relva do jardim, respirou fundo. O ar puro da manh parecia
dissipar todas as suas paixes sombrias.
Pensava somente em Sibyl. Sentiu um dbil eco do amor que
sentira por ela. Pronunciou repetidas vezes o seu nome. Os
pssaros que cantavam no jardim hmido de orvalho pareciam
falar dela s flores.


                              Captulo VIII


     Passava muito do meio-dia quando acordou. J vrias vezes
o criado entrara sorrateiramente no quarto, p ante p, para
ver se ele estava acordado, magicando por que motivo o seu
jovem patro estaria a dormir at to tarde.
Ouviu finalmente tocar a campainha. Victor entrou no quarto de
mansinho, levando uma chvena de ch e uma rima de cartas
sobre um pequeno tabuleiro de antiga porcelana de Svres, e
afastou as cortinas de cetim cor de azeitona, forradas de um
azul cintilante, que cobriam as trs altas janelas.
  - Vejo que monsieur dormiu bem esta manh - disse ele,
sorrindo.
  - Que horas so, Victor? - perguntou Dorian Gray, ainda
sonolento.
  - Uma hora e um quarto, Monsieur.
   To tarde! Sentou-se na cama e, depois de uns goles de ch,
pegou nas cartas. Uma era de Lord Henry e tinha sido entregue
em mo essa manh. Hesitou um instante, depois p-la de lado.
Abriu as outras com indiferena. Continham a habitual coleco
de cartes, convites para jantar, bilhetes para exposies
privadas, programas de concertos de caridade, e outras coisas
do gnero, que chovem todas as manhs sobre os jovens da alta
sociedade durante a temporada. Havia ainda uma factura
bastante avultada, referente a um conjunto de toucador Lus XV
- com embutidos de prata, e que ainda no se atrevera a enviar
aos seus tutores, pessoas extremamente antiquadas que no se
apercebiam que vivemos numa poca em que as coisas inteis so
as nossas nicas necessidades, havia vrias mensagens,
redigidas com a mxima cortesia, dos agiotas de Jermon Street,


                              110


que se ofereciam a adiantar a quantia desejada em qualquer
momento e a juros extremamente razoveis.
  Uns dez minutos depois, levantou-se e, envolvendo-se num
roupo de caxemira de l lavrado a seda, passou  casa de
banho de pavimento de nix. A gua fria refrescou-o depois de
um sono to prolongado. Parecia haver esquecido tudo o que se
passara consigo. Assaltou-o uma ou duas vezes a vaga sensao
de ter participado numa estranha tragdia
mas tudo isso envolvido pela atmosfera irreal de um sonho.
  Assim que se vestiu, passou  biblioteca para tomar um
ligeiro pequeno-almoo  francesa, que havia sido servido numa
pequena mesa redonda prximo da janela aberta. Estava um dia
excepcional. O ar tpido parecia impregnado de especiarias.
Uma abelha voou para dentro da sala e zumbiu em redor da taa
drago azul cheia de rosas amarelas, que se encontrava  sua
frente. Sentia-se completamente feliz.
  De repente, o olhar incidiu no biombo que havia colocado em
frente do retrato, e estremeceu.
  - Muito frio, Monsieur? - perguntou-lhe o criado, servindo
uma omeleta. - Fecho a janela?
  Dorian abanou a cabea.
  - No tenho frio - disse num murmrio.
  Era mesmo verdade? Havia sido real a alterao do retrato?
Ou fora apenas a sua imaginao que o levara a ver uma
expresso de maldade onde havia uma expresso de alegria?
Certamente que uma tela pintada no podia mudar! Era absurdo.
Ora a estava uma bela histria para contar um dia a Basil, e
que o havia de fazer sorrir.
  E, mesmo assim, como era ntida a lembrana de tudo o que se
passara! Primeiro, na obscuridade da penumbra,
e depois  luz clara do amanhecer, vira o ricto de crueldade
nos lbios contorcidos. Quase temia que o criado abandonasse a
sala. Sabia que, logo que ficasse s, no resistia e
examinaria o retrato. Temia a certeza. Quando o criado, aps
ter trazido o caf e os cigarros, se voltou para sair, sentiu
uma vontade irresistvel de lhe dizer que ficasse. No mesmo
instante em que a porta se fechava, chamou-o de novo.


                              111


O homem parou, aguardando ordens.
Dorian olhou-o por um breve instante.
  - No estou em casa para ningum, Victor - disse-Lhe,
dando um suspiro.
  O criado fez uma vnia e retirou-se.
  Ento, Dorian ergueu-se da mesa, acendeu um cigarro e
estendeu-se num sof sumptuosamente almofadado que estava de
frente para o biombo. O biombo era antigo, de couro dourado de
Espanha, gravado e lavrado com motivos Lus XIV- um tanto
floreados. Examinou-o com alguma curiosidade, interrogando-se
se alguma vez teria ocultado o segredo da vida de um homem.
  Afinal, deveria desvi-lo para o lado? E por que no hava
de o deixar onde estava? De que valia saber? Se aquilo era
verdade, era terrvel. Se no era verdade, porqu
preocupar-se? Mas o que aconteceria se, por um acaso do
destino ou uma fatalidade, outros olhos que no os seus
espreitassem por detrs do biombo e vissem a medonha
transformao? Que faria se Basil Hallward viesse pedir-lhe
para ver o seu quadro? De certeza que Basil Lhe iria pedir
isso.
No, aquilo tinha de ser examinado, e imediatamente. Fosse o
que fosse seria prefervel quela dvida atroz.
  Levantou-se e fechou  chave as duas portas. Pelo menos
estaria s quando enfrentasse a mscara da sua vergonha.
Afastou ento o biombo e ficou frente a frente consigo mesmo.
Era absolutamente verdade. O retrato tinha mudado.
  Como muitas vezes se havia de lembrar mais tarde, e sempre
com profundo espanto, comeou por fixar o retrato com um
interesse quase cientfico. Afigurava-se-lhe incrvel que tal
mudana tivesse ocorrido. E, todavia, era um facto
irrefutvel. Haveria alguma misteriosa afinidade entre os
tomos qumicos que assumiam forma e cor na tela e a alma que
dentro de si existia? Seria possvel que eles tivessem a
percepo de tudo o que a alma pensava? Que dessem realidade
ao que ela sonhava? Ou existiria outra razo mais terrvel
ainda? Estremeceu, atemorizado, e voltou a estender-se no
sof, fitando o retrato numa nusea de horror.


                              112


  Uma coisa, porm, reconhecia que o retrato fizera por ele.
Levara-o a aperceber-se de quo injusto e cruel fora para com
Sibyl Vane. Ainda estava a tempo de reparar o mal que fizera.
Ela ainda podia ser sua esposa. O amor irreal e egosta que
sentira antes submeter-se-ia a uma influncia superior,
transformar-se-ia numa paixo mais nobre, e o seu retrato
pintado por Basil Hallward servir-lhe-ia de guia ao longo da
vida, seria para si o que as coisas sagradas so para algumas
pessoas, e o que a conscincia  para outras, e o que o temor
a Deus  para todos ns. Havia narcticos para o remorso,
havia drogas para fazerem adormecer os princpios morais. Mas
ele tinha sempre presente um smbolo visvel da degradao do
pecado, um sinal imperecvel da runa que os homens infligiam
s suas almas.
  Bateram as trs horas, e as quatro, e soou a dupla badalada
da meia hora, sem que, entretanto, Dorian Gray esboasse
qualquer movimento. Procurava juntar os fios escarlates da sua
vida e entrela-los, encontrar o caminho no labirinto
sanguneo de paixes em que se perdia. No sabia o que fazer,
nem o que pensar. Por fim, dirigiu-se para a mesa e escreveu
uma carta apaixonada  rapariga que amara, a suplicar-Lhe que
lhe perdoasse, e acusando-se de estar louco. Encheu pginas e
pginas de veementes protestos de arrependimento e de
palavras, ainda mais veementes, expressando a sua mgoa. A
auto-recriminao  um luxo.
Quando nos autocensuramos, temos a sensao de que mais
ningum tem o direito de nos censurar.  a confisso,
e no o sacerdote, que nos d a absolvio. Depois de ter
terminado a carta, Dorian sentiu-se perdoado.
  De repente bateram  porta, e ouviu do outro lado a voz de
Lord Henry.
  - Meu rapaz, preciso de o ver. Deixe-me entrar
imediatamente. No suporto que se enclausure assim.
  A princpio no deu resposta alguma, e permaneceu em
absoluto silncio. As pancadas na porta continuavam,
tornando-se cada vez mais fortes.


                              113


Bem, era prefervel deixar entrar Lord Henry, e explicar-lhe a
nova vida que ia levar, e discutir com ele se fosse necessrio
discutir, e separarem-se se a separao fosse inevitvel.
Levantou-se lesto, ocultou apressadamente o retrato com o
biombo e abriu a porta.
  - Lamento muito o que aconteceu, Dorian - disse Lord Henry,
ao entrar. - Mas no pense muito no assunto.
  - Est a referir-se a Sibyl Vane? - perguntou o rapaz.
  - Claro que estou - respondeu Lord Henry, afundando-se numa
poltrona e descalando vagarosamente as luvas amarelas. - De
um certo ponto de vista,  horrvel, mas voc no teve culpa.
Foi ter com ela ao camarim quando a pea terminou?
  - Fui.
  - Eu tinha a certeza. E fez-lhe alguma cena?
  - Fui brutal, Harry, absolutamente brutal. Mas j passou.
No lamento nada do que aconteceu. Ensinou-me a conhecer-me
melhor.
  - Ah, Dorian, muito me alegra saber que encara as coisas
dessa maneira! Receava vir encontr-lo num poo de remorsos, a
arrancar esse seu lindo cabelo anelado.
  - Ultrapassei j tudo isso - disse Dorian, abanando a cabea
e sorrindo. - Sinto-me agora completamente feliz. Em primeiro
lugar, sei o que  a conscincia. No  nada daquilo que voc
me dizia.  a coisa mais sublime que existe dentro de ns. No
seja sarcstico a respeito disto, Harry, nunca mais, pelo
menos, no o seja na minha presena. Quero ser bom. No
suporto a ideia de possuir uma alma hedionda.
  - Ora aqui temos um encantador fundamento artstico para a
tica, Dorian! Os meus parabns. E pode saber-se como vai
comear?
  - Casando com Sibyl Vane.
  - Casar com Sibyl Vane! - exclamou Lord Henry, pondo-se de
p e fitando-o, profundamente estupefacto - Mas, meu caro
Dorian...
  - Sim, Harry, j sei o que me vai dizer. Certamente coisas
horrveis acerca do casamento. No diga.


                              114


Nem sequer volte a dizer-me as coisas do costume. H dois dias
pedi a Sibyl que casasse comigo. No vou faltar  minha
palavra.
Ela tem de ser minha esposa!
  - Sua esposa! Mas, Dorian. No recebeu a minha carta?
Escrevi-lha esta manh e mandei-a pelo meu criado.
  - A sua carta? Ah, sim, j me lembro. Ainda no a li,
Harry. Receei que tivesse alguma coisa de que no gostasse.
Voc retalha a vida em pedacinhos com o seus epigramas.
  - Ento voc no sabe nada?
  - Que quer dizer com isso?
  Lord Henry atravessou a sala e, sentando-se junto de Dorian
Gray, pegou-Lhe nas mos e apertou-as com fora.
  - Dorian - disse ento -, a minha carta... no se assuste.
era para lhe comunicar que Sibyl Vane morreu.
  Um brado de dor irrompeu dos lbios do rapaz, que se
levantou de um salto, retirando violentamente as mos das de
Lord Henry.
  - Morreu! Sibyl morreu! No  verdade!  uma mentira
monstruosa! Como ousa dizer tal coisa?
  -  realmente verdade, Dorian - disse Lord Henry,
gravemente. - Vem publicado em todos os matutinos. Escrevi a
pedir-Lhe que no recebesse ningum antes de eu chegar.
Evidentemente que vai haver um inqurito, e  preciso que voc
no esteja envolvido. Estas coisas do prestgio a um homem em
Paris. Mas em Londres, as pessoas tm tantos preconceitos.
Aqui, nunca devemos fazer a nossa estreia na sociedade com um
escndalo. Devamos deixar isso de reserva para dar algum
interesse  nossa velhice. Bem, no conhecem o seu nome no
teatro, creio. Se assim for, no h problema. Algum o viu a
dirigir-se para o camarim dela? Este  um ponto importante.
  Durante lguns instantes, Dorian no respondeu. Ficara
aturdido pelo horror da notcia. Por fim, balbuciou numa voz
abafada.
  - Harry, voc falou em inqurito? O que quis dizer com isso?
Ser que Sibyl?... Oh, Harry, no posso suportar tal ideia...
Mas no demore. Conte-me tudo imediatamente.


                              115


  - No duvido de que no se tratou de um acidente, Dorian,
embora seja essa a verso destinada ao pblico. Segundo
consta, quando ela ia a sair do teatro com a me, era
aproximadamente meia-noite e meia, disse que se esquecera de
uma coisa. Esperaram algum tempo, mas ela no regressou.
Acabaram por encontr-la morta no cho do camarim. Tinha
engolido qualquer coisa por engano, uma dessas coisas
horrveis que usam no teatro. No sei o que era, mas continha
cido prssico ou alvaiade. Eu diria que era cido prssico,
pois parece que teve morte instantnea.
  - Harry, Harry, que coisa horrvel! - exclamou o rapaz.
  - Sim, realmente  muito trgico, mas voc no deve
deixar-se envolver. Sei pelo Standard que ela tinha dezassete
anos. Supunha que fosse ainda mais nova. Tinha um ar to
infantil e parecia saber to pouco da arte de representar.
Dorian, no deixe que isto lhe afecte os nervos. Tem de vir
jantar comigo, e a seguir vamos  pera. Esta noite canta a
Patti e vai l estar toda a gente. Voc pode ir at ao
camarote da minha irm. Ela vai ter por companhia umas
mulheres muito elegantes.
  - Ento fui eu quem matou Sibyl Vane - disse Dorian Gray,
como que falando consigo mesmo -, e foi to verdade como se
Lhe tivesse golpeado com uma faca a delicada garganta. No
entanto, as rosas no deixam de ser menos belas por causa
disso. As aves continuam a cantar alegremente no meu jardim. E
esta noite devo jantar consigo, e depois vou  pera, e acabo
por ir cear em qualquer stio,
suponho. Que extraordinariamente dramtica  a vida! Se
tivesse lido isto num livro, Harry, creio que teria chorado.
No sei porqu, mas agora que aconteceu de facto, e comigo,
parece espantoso demais para me provocar lgrimas:
Aqui tem a primeira carta de amor apaixonada que escrevi na
minha vida. Como  estranho que a minha primeira carta de amor
apaixonada fosse dirigida a uma rapariga morta.
Ser que esses seres brancos e silenciosos a que chamamos
mortos podem sentir? Sibyl! Poder sentir, saber ou ouvir? Oh,


                              116


Harry, como eu a amava! Tenho a sensao de que se passou h
anos. Ela era tudo para mim. Depois aconteceu aquela noite
fatdica. foi realmente apenas na noite passada?. em que ela
representou to mal, que o meu corao ficou quase destroado.
Ela deu-me todas as justificaes.
Foi uma cena terrivelmente pattica. Mas no me comovi nem um
pouco. Achei-a ftil. Aconteceu ento, de repente,
uma coisa que me atemorizou. No lhe posso dizer o que foi,
mas foi algo terrvel. Eu disse que voltaria para ela, sentia
que procedera mal. E agora ela est morta. Meu Deus! Meu Deus!
Harry, que hei-de fazer? Voc ignora o perigo em que me
encontro, e no h nada que me possa valer. Ela t-lo-ia
feito. No tinha o direito de se matar. Foi um acto de
egosmo.
  - Meu caro Dorian - respondeu Lord Henry, tirando um cigarro
da cigarreira e puxando de uma fosforeira dourada -, a nica
maneira de uma mulher poder alguma vez regenerar um homem
consiste em aborrec-lo tanto, que ele perde todo o interesse
que possa ter pela vida. Voc seria um desgraado se tivesse
casado com essa rapariga.  certo que teria sido atencioso
para com ela. Podemos ser sempre atenciosos com as pessoas por
quem no nos interessamos. Mas em pouco tempo ela haveria de
chegar  concluso de que voc Lhe era completamente
indiferente.
E quando uma mulher chega a essa concluso a respeito do
marido, ou se torna pavorosamente desmazelada, ou passa a usar
toucas muito elegantes pagas pelo marido de outra mulher. Nem
sequer falo do erro social, que teria sido humilhante, e que,
evidentemente, eu no teria permitido.
Mas pode ter a certeza de que tudo isso teria sido um completo
fracasso.
  - Creio que sim - murmurou o rapaz, passeando nervosamente
pela sala, horrivelmente plido. - Mas pensei que esse era o
meu dever. No tenho culpa de que esta terrvel tragdia me
tenha impedido de fazer o que era correcto.
Recordo-me de me ter dito uma vez que h uma fatalidade nas
boas resolues: so tomadas sempre demasiado tarde.
As minhas foram-no, de certeza.


                              117


  - As boas resolues so sempre tentativas inteis para se
interferir nas leis cientficas. Na sua origem est a pura
vaidade. O seu resultado  um zero absoluto. Do-nos,
uma vez ou outra, algumas daquelas estreis emoes
voluptuosas que para os fracos tm um certo encanto.  tudo o
que se pode dizer delas. So apenas cheques que passamos sobre
um banco onde no temos conta aberta.
  - Harry - exclamou Dorian Gray, aproximando-se dele e
sentando-se a seu lado -, por que ser que no consigo sentir
esta tragdia to profundamente como quero? No me considero
desumano. Acha que sou?
  - Os disparates que fez nestas duas ltimas semanas foram
tantos que nem tem direito a esse atributo - respondeu Lord
Henry, com o seu sorriso doce e melanclico.
  O rapaz franziu o sobrolho.
  - No me agrada essa explicao, Harry - retorquiu ele -,
mas agrada-me saber que no me considera desumano. No sou
nada disso: Sei que no sou. Porm, sou obrigado a admitir que
isto que aconteceu no me afecta como deveria. Vejo-o como um
final fantstico de uma pea fantstica. Possui toda a
terrvel beleza de uma tragdia grega,
uma tragdia em que desempenhei um papel importante,
mas da qual sa inclume.
  -  uma questo interessante - disse Lord Henry, que tinha
um singular prazer em tirar proveito do egotismo inconsciente
do rapaz -, uma questo extremamente importante. Imagino que a
verdadeira explicao  a seguinte.
Sucede frequentemente que as tragdias da vida real ocorrem de
um modo to pouco artstico que somos afectados pela sua
violncia brutal, absoluta incoerncia, absurda carncia de
significado e total falta de estilo. Afectam-nos exactamente
do mesmo modo que a grosseria. Transmitem-nos uma mera
sensao de fora bruta, pelo que nos sentimos revoltados. Por
vezes, porm, surge na nossa vida uma tragdia que possui
elementos artsticos de beleza. Se esses elementos de beleza
so reais, todo o dramatismo acaba por apelar para o nosso
sentido de efeito dramtico.


                              118


De sbito, damo-nos conta de que j no somos os actores, mas
sim os espectadores da pea. Melhor dizendo, somos uma coisa e
outra. Observamo-nos a ns mesmos, e ficamos subjugados pelo
fascnio do espectculo. No caso em questo, o que  que
aconteceu realmente? Uma pessoa suicidou-se porque...
o amava. Eu desejaria ter passado por uma experincia
semelhante. Deixar-me-ia apaixonado pelo amor para o resto da
vida. As pessoas que me adoraram... no foram muitas,
mas ainda houve algumas. persistiram sempre em continuar a
viver, mesmo muito depois de ter deixado de interessar-me por
elas, ou de elas j no se interessarem por mim. Tornaram-se
corpulentas e fastidiosas, e quando as encontro apenas
manifestam interesse pelas recordaes do passado. Que memria
tremenda a de uma mulher!  uma coisa medonha. E como revela
uma absoluta estagnao intelectual! Devemos absorver o
colorido da vida, mas no recordar os detalhes. Os detalhes
so sempre vulgares.
  - Tenho de semear papoilas no meu jardim - disse Dorian, com
um suspiro.
  - No h necessidade - retorquiu o companheiro. - A vida
traz sempre papoilas nas mos.  certo que, de vez em quando,
as coisas tendem a prolongar-se. Uma ocasio houve em que usei
sempre violetas na lapela durante toda uma temporada, como
forma de luto artstico por uma aventura que no morria. No
entanto, acabou por morrer. Esqueci o que a matou. Acho que
foi porque ela se props sacrificar o mundo inteiro pela minha
pessoa.  sempre um momento terrvel esse. Ficamos dominados
pelo terror da eternidade...
Bem, parece inacreditvel, mas uma semana atrs, num jantar em
casa de Lady Hampshire, encontrei-me sentado ao lado da
senhora em questo, que insistia em reviver o nosso caso,
desenterrando o passado e revolvendo o futuro. Eu enterrara o
meu caso de amor num canteiro de asfdelos. Pois ela
desenterrou-o, e afianou-me que eu lhe estragara a vida. Devo
dizer que ela devorou um enorme jantar, por isso no senti a
mnima preocupao. Mas que falta de gosto o seu! O nico
encanto do passado  o de ser passado.



                              119


Mas as mulheres nunca sabem quando termina o espectculo.
Querem sempre um Sexto acto, e assim que termina completamente
o interesse da pea pretendem que ela continue. Se lhes
fizssemos a vontade, toda a comdia teria um final trgico e
toda a tragdia culminaria numa farsa. So encantadoramente
artificiais, mas no possuem sentido artstico. Voc  mais
afortunado do que eu. Posso afianar-lhe, Dorian, que nenhuma
das mulheres que conheci teria feito por mim o que Sibyl Vane
fez por si. As mulheres banais acabam sempre por se consolar.
H as que comeam a interessar-se por cores sentimentais.
Nunca confie numa mulher que se vista de lils, seja ela de
que idade for, nem numa mulher com mais de trinta e cinco anos
que goste de fitas cor-de-rosa. Significa sempre que elas tm
um passado turbulento. Outras sentem-se muito consoladas ao
descobrirem de repente as boas qualidades dos maridos. Exibem
a sua felicidade conjugal mesmo em frente do nosso nariz, como
se fosse o mais fascinante dos pecados. Algumas acham consolo
na religio. Os seus mistrios tm todo o encanto de um
namoro, segundo me disse uma vez uma mulher, e consigo
compreender isso perfeitamente. Alm disso,
no h nada que nos envaidea mais do que chamarem-nos
pecadores. A conscincia faz de todos ns uns egotistas. De
facto, no tm fim os consolos que as mulheres costumam achar
na vida moderna. Ah, no cheguei a mencionar o mais
importante.
  - Qual, Harry? - perguntou o rapaz, de modo aptico.
  - Ora, o consolo bvio. Roubar o admirador a outra,
quando se perde o prprio. Na boa sociedade, isso reabilita
sempre uma mulher. Mas realmente, Dorian, como Sibyl Vane deve
ter sido diferente de todas as mulheres que habitualmente
conhecemos! Encontro uma certa beleza na sua morte. Gosto de
viver num sculo em que acontecem prodgios como este.
Levam-nos a acreditar na realidade das coisas com que todos
ns costumamos divertir-nos, como a aventura, a paixo e o
amor.
  - Fui de uma tremenda crueldade com ela, e voc esquece-se
disso.


                              120


  - Infelizmente as mulheres apreciam a crueldade, a pura
crueldade, mais que tudo. Tm instintos espantosamente
primitivos. Ns emancipmo-las, mas, mesmo assim, continuam a
ser escravas  procura dos seus senhores. Adoram ser
dominadas. Tenho a certeza de que voc foi magnfico.
Nunca o vi realmente zangado, mas posso imaginar que deve ter
sido encantador. E, no fim de contas, anteontem voc disse-me
uma coisa que no momento me parecera pura fantasia, mas que
vejo agora ser absolutamente verdade e explicar tudo isto.
  - E o que foi, Harry?
  - Disse-me que Sibyl Vane representava para si todas as
heronas romnticas, que uma noite era Desdmona, e na outra
era Oflia, que se morresse como Julieta ressuscitaria como
Imognia.
  - Agora jamais ressuscitar - observou o rapaz num sussurro,
mergulhando a cara entre as mos.
  - De facto, jamais ressuscitar. Ela representou o seu
ltimo papel. Mas voc deve pensar nessa morte solitria num
camarim de mau gosto como um estranho fragmento sinistro de
uma pea jacobina, ou uma cena magnfica de Webster, ou de
Ford, ou de Cyril Tourneur. A rapariga nunca teve vida real,
por isso a sua morte nunca foi real.
Pelo menos para voc, ela foi sempre um sonho, uma viso que
passou como uma sombra pelas peas de Shakespeare e que as
deixou mais belas com a sua presena, um junco que entoava com
mais doura e jbilo a msica de Shakespeare. Assim que entrou
na vida real, destruiu-a e a vida destruiu-a a ela, por isso
morreu. Chore por Oflia, se quiser. Cubra a cabea de cinzas
porque Cordlia foi estrangulada. Clame aos cus porque a
filha de Brabncio morreu. Mas no desperdice as suas lgrimas
com Sibyl Vane. Era menos real do que todas elas.
  Fez-se silncio. O crepsculo adensava-se na sala.
Silenciosas, e com seus ps argnteos, iam entrando as sombras
vindas do jardim. As cores das coisas esmaeciam lentamente.


                              121


  Algum tempo depois, Dorian Gray ergueu a cabea.
  - Voc explicou-me a mim prprio - murmurou, como que
suspirando de alvio. - Eu sentia tudo o que acabou de dizer,
mas, no sei porqu, tinha medo e no conseguia express-lo a
mim mesmo. Conhece-me to bem! Mas no havemos de voltar a
falar no que aconteceu. Foi uma experincia maravilhosa, e
apenas isso. Ser que a vida me reserva ainda coisas to
maravilhosas?
  - A vida reserva-lhe tudo, Dorian. No h nada que voc, com
a sua extraordinria beleza, no possa fazer.
  - Mas, Harry, suponha que fico macilento, velho e cheio de
rugas? E ento?
  - Ah, ento - disse Lord Henry, levantando-se para se
retirar -, ento, meu caro Dorian, teria de se bater para
alcanar as suas vitrias. Por enquanto, elas vm ter consigo.
Ora, o importante  que conserve a sua beleza. Vivemos numa
poca sem sabedoria por tanto ler, e sem beleza por tanto
pensar. No podemos passar sem voc. E agora  melhor ir
vestir-se, e seguirmos para o clube. J estamos bastante
atrasados.
  - Acho que vou ter consigo  pera, Harry. Estou demasiado
cansado para comer seja o que for. Qual  o nmero do camarote
de sua irm?
  - O vinte e sete, creio. Fica na primeira ordem. Poder ver
o nome dela na porta. Mas tenho muita pena que no venha
jantar.
  - No me sinto com foras - disse Dorian, languidamente. -
Mas fico-lhe muito grato por tudo o que me disse.  sem dvida
o meu melhor amigo. Jamais algum me compreendeu como voc.
  - Estamos ainda no comeo da nossa amizade, Dorian -
respondeu Lord Henry, apertando-lhe a mo. - Adeus.
Espero v-lo antes das nove e meia. Lembre-se, a Patti canta
esta noite.
  Quando ele fechou a porta aps ter sado, Dorian Gray tocou
a campainha, e, poucos minutos depois, Victor apareceu com as
luzes e baixou os estores.


                              122


  Dorian esperava impacientemente que ele se fosse embora. O
homem parecia demorar um tempo interminvel com tudo o que
fazia.
  Logo que o criado saiu, precipitou-se para o biombo e
afastou-o. No, o retrato no sofrera outra alterao.
Recebera a notcia da morte de Sibyl Vane antes de ele prprio
ter tido conhecimento. Apercebia-se dos acontecimentos da vida
no momento em que ocorriam. A crueldade perversa que
desfigurava os traos delicados da boca aparecera, sem dvida,
no momento exacto em que a rapariga bebera o veneno. Ou no o
afectavam as consequncias? Tomaria conhecimento apenas do que
se passava na alma? Ele interrogava-se, e esperava um dia ver
a transformao no retrato realizar-se diante dos seus olhos,
mas estremecia s de o desejar.
  Pobre Sibyl! Que estranho romance de amor o seu! Foram
tantas as vezes que simulara a morte no palco. Depois foi
tocada pela prpria Morte, que a levou consigo. Como teria
representado a terrvel e ltima cena? T-lo-ia amaldioado ao
morrer? No, morrera por amor, e agora o amor passaria a ser
para ele um sacramento. Ela tudo resgatara, ao sacrificar a
prpria vida. E ele deixaria de pensar em tudo o que a fizera
sofrer naquela horrvel noite no teatro. Quando pensasse nela,
v-la-ia como maraVilhosa e trgica personagem enviada ao
palco do mundo para revelar a realidade suprema do Amor.
Maravilhosa e trgica personagem? Vieram-Lhe lgrimas aos
olhos ao recordar o seu ar infantil, os seus cativantes
caprichos e a sua tmida graciosidade. Limpou-as rapidamente e
olhou de novo o retrato.
  Sentiu que chegara o momento de fazer uma opo. Ou seria
que a sua opo j havia sido feita? Na verdade, a vida
decidira por ele. a vida, e a sua inesgotvel curiosidade
acerca da vida. Eterna juventude, paixo ilimitada, subtis e
secretos prazeres, desvairados deleites, pecados ainda mais
desvairados. tudo isso seria seu. O retrato  que suportaria o
peso da sua vergonha.


                              123


  Invadiu-o uma sensao dolorosa, quando pensou na profanao
que estava reservada ao belo rosto do quadro. Uma vez, num
infantil arremedo de Narciso, beijara, ou fingira beijar,
aqueles lbios pintados que lhe sorriam agora to cruelmente.
Passara muitas manhs sentado em frente do retrato,
surpreendido pela sua beleza, s vezes quase dela enamorado.
Iria mudar a cada variao de humor a que ele se entregasse?
Iria transformar-se em algo monstruoso e abominvel, que teria
de ser escondido num quarto trancado, ou privado da luz do sol
que tantas vezes iluminara em reflexos de ouro o ondulado do
seu cabelo? Que pena! Que pena!
  Por uns momentos pensou em fazer uma prece para que cessasse
a terrvel afinidade que existia entre ele e o retrato.
Transformara-se para dar resposta a uma prece, talvez
permanecesse inalterado para atender uma prece. E, todavia,
quem  que, conhecedor da Vida, renunciaria  oportunidade de
permanecer jovem para sempre, por muito fantstica que ela
fosse, ou por muito fatdicas que fossem as consequncias da
provenientes? Alm disso, o retrato seria realmente dominado
pela sua vontade? Fora de facto o desejo formulado que
provocara a alterao? No haveria uma singular explicao
cientfica para tudo isso? Se o pensamento podia exercer
influncia sobre um organismo vivo, no poderia exerc-la
igualmente sobre coisas inertes e inorgnicas? E, mais do que
isso, apesar de destitudas de pensamento ou de desejo
consciente, no poderiam as coisas exteriores a ns vibrar em
unssono com os nossos caprichos e as nossas paixes, tomo
atraindo tomo num secreto amor de estranha afinidade? Mas a
explicao no era importante. Ele no tornaria a incitar
qualquer terrvel poder com um pedido. Se o quadro tivesse que
mudar, pois que mudasse. No havia nada a fazer. Por que havia
de examin-lo to minuciosamente?
  Contempl-lo seria, pois, um verdadeiro prazer. Poderia
perscrut-lo at aos seus mais secretos recantos. Este retrato
seria para si o mais mgico de todos os espelhos.


                              124


Assim como Lhe revelara o prprio corpo, haveria de
revelar-lhe tambm a alma. E quando o Inverno descesse sobre o
retrato, ele estaria ainda onde a Primavera vacila  beira do
Vero. Quando o sangue lhe abandonasse o rosto, deixando atrs
de si uma lvida mscara de giz com olhos plmbeos, ele
conservaria o encanto da mocidade. Nenhuma flor da sua
formosura haveria de murchar. Nem uma nica pulsao da sua
vida se tornaria mais fraca. Seria como os deuses da antiga
Grcia: forte, e gil, e exuberante. Que importava o que
acontecia  imagem colorida da tela? Ele no correria perigo.
E isso era o essencial.
  Arrastou o biombo novamente para o lugar habitual  frente
do retrato, sorrindo ao faz-lo, e passou ao seu quarto, onde
j se encontrava o criado a aguard-lo. Uma hora depois estava
na pera, com Lord Henry apoiado na sua cadeira.



                         Captulo IX


     Quando estava, na manh do dia seguinte, a tomar o
pequeno-almoo, Basil Hallward entrou na sala.
  - Ainda bem que o encontro, Dorian - disse ele, em tom
grave. - Vim v-lo a noite passada, e disseram-me que estava
na pera. Eu sabia,  claro, que era impossvel... Mas gostava
que tivesse dito aonde tinha ido. Passei uma noite horrvel,
meio receoso que a uma tragdia se seguisse outra. Podia
ter-me enviado um telegrama assim que o soube. Li a notcia
casualmente no clube ao pegar na ltima edio do Globe. Vim
c imediatamente e fiquei desoladssimo por no o encontrar.
No consigo expressar-Lhe todo o meu pesar pelo que aconteceu.
Sei o quanto voc deve estar a sofrer. Mas onde esteve? Foi
visitar a me da rapariga? Ainda pensei em ir l ter consigo.
O endereo vinha no jornal. Algures na Euston Road, no ? Mas
receei interferir numa hora de sofrimento que no poderia
mitigar. Pobre mulher! Em que estado deve estar! E, para mais,
filha nica! O que disse ela de tudo isto?
  - Meu caro Basil, como posso saber? - murmurou Dorian Gray,
bebendo uns goles de um vinho amarelo-plido por um delicado
clice de vidro de Veneza, com filete dourado. Mostrava-se
extremamente enfadado. - Estive na pera. Voc devia ter ido.
Conheci Lady Gwendolen, a irm do Harry. Estivemos no seu
camarote. Ela  absolutamente encantadora, e a Patti cantou
divinamente. No fale de assuntos horrendos. Se no falarmos
de uma coisa,  como se nunca tivesse acontecido.  unicamente
a expresso, como diz o Harry, que d realidade s coisas.
Posso inform-lo de que ela no era filha nica. H um filho,
um rapaz encantador, creio. Mas no  do teatro.


                              126


 marinheiro, ou coisa que o valha. E agora fale-me de si e
das suas pinturas.
  - Voc foi  pera? - perguntou Hallward, falando lentamente
e com uma ponta de mgoa contida. - Foi  pera enquanto Sibyl
Vane jazia morta em qualquer quarto srdido? Tem a coragem de
me falar de mulheres encantadoras e de uma Patti que canta
divinamente, e a rapariga que voc amava ainda nem sequer
repousa na paz de uma sepultura? Como assim, homem! H
horrores aguardando aquele corpinho imaculado!
  - Basta, Basil! No quero ouvir mais nada! - gritou Dorian,
erguendo-se bruscamente. - No deve falar-me dessas coisas. O
que aconteceu acabou. O que passou pertence ao passado.
  - Chama passado ao dia de ontem?
  - Que importncia tem o verdadeiro lapso de tempo? S as
pessoas fteis precisam de anos para se libertarem de qualquer
emoo. Um homem que seja senhor de si consegue pr fim a uma
tristeza com a mesma facilidade com que inventa um prazer. No
quero ficar  merc das minhas emoes. Quero us-las,
desfrut-las e domin-las.
  - Dorian, o que est a dizer  um horror! Alguma coisa houve
que o modificou completamente. Parece exactamente o mesmo
rapaz maravilhoso que, dia aps dia, vinha ao meu atelier
posar para o seu retrato. Mas, nessa altura, era simples,
espontneo e afectuoso. Era a criatura mais impoluta deste
mundo. Agora no sei o que se passa consigo.
Fala como se no tivesse sensibilidade, nem compaixo.
Vejo que tudo isso se deve  influncia do Harry.
  O rapaz corou e, dirigindo-se at  porta envidraada,
olhou por uns momentos para o jardim verdejante que
reverberava  luz do sol.
  - Devo muito ao Harry, Basil - disse, por fim -, mesmo mais
do que devo a si. Voc apenas me ensinou a ser vaidoso.
  - Ento, estou a ser castigado por isso. ou s-lo-ei um dia.


                              127


  - No sei o que quer dizer, Basil - exclamou, voltando-se.
- No sei o que quer de mim. Diga-me.
  - Quero aquele Dorian Gray que eu costumava pintar - disse o
artista, com tristeza.
  - Basil - disse o rapaz, aproximando-se dele e pousando-lhe
a mo no ombro -, chegou demasiado tarde. Ontem, quando soube
que Sibyl Vane se suicidara...
  - Suicidou-se! Deus do Cu!  mesmo verdade? - exclamou
Hallward, olhando para ele com uma expresso de horror.
  - Meu caro Basil! Certamente que no pensa que foi um vulgar
acidente?  claro que se suicidou.
  O pintor cobriu o rosto com as mos.
  -  horrvel - disse em voz baixa, percorrendo-o um tremor.
  - No - disse Dorian Gray -, no  nada horrvel.  uma das
grandes tragdias romnticas da nossa poca. Em regra,
a gente do teatro tem uma vida muito comezinha. So bons
maridos, ou esposas fiis, ou qualquer outro gnero de
monotonia. Sabe o que eu quero dizer: a moral da classe mdia
e todo esse tipo de coisas... Como a Sibyl era diferente!
Viveu a sua mais bela tragdia. Foi sempre a herona. Na
ltima noite em que actuou, a noite em que a viu, representou
mal porque conhecera a realidade do amor. Quando conheceu a
sua irrealidade, morreu como Julieta poderia ter morrido.
Ela transitou novamente para a esfera artstica. Tem algo de
mrtir. A sua morte tem toda a inutilidade pattica do
martrio, o desperdcio de toda a beleza. Mas, como eu estava
dizendo, voc no deve pensar que no sofri. Se me tivesse
visto aqui ontem, numa determinada altura... seriam umas cinco
e meia, talvez, ou seis menos um quarto. ter-me-ia encontrado
a chorar. Mesmo o Harry, que esteve aqui a dar-me a notcia,
no fez a mnima ideia do quanto eu estava a sofrer. Sofri
imenso. Depois passou. No consigo reviver uma emoo. Nem
ningum, a no ser os sentimentalistas.
E voc  extremamente injusto, Basil. Veio c para me
consolar, o que  muito amvel da sua parte.


                              128


Encontra-me conformado, e fica furioso. Grande simpatia a sua!
Faz-me lembrar uma histria que o Harry me contou acerca de um
filantropo que levou vinte anos da sua vida a tentar reparar
uma ofensa, ou a alterar uma lei injusta. no me recordo
exactamente do que se tratava. Finalmente conseguiu o seu
intento, e a sua decepo foi insupervel. Ficou sem fazer
absolutamente nada, quase morria de ennui, e tornou-se num
misantropo inveterado. E alm do mais, meu velho,
se quiser realmente consolar-me,  prefervel que me ensine a
esquecer o que aconteceu, ou a consider-lo do ponto de vista
artstico adequado. No foi Gautier que costumava escrever
sobre la consolation des arts? Recordo-me de um dia,
no seu atelier, ter pegado num livro encadernado em velino,
onde deparei com essa frase deliciosa. Bem, no sou
precisamente como aquele jovem de que me falou, quando
estivemos os dois em Marlow, aquele que costumava dizer que o
cetim amarelo podia consolar-nos de todos os desgostos da
vida. Adoro as coisas belas que podemos tocar e manusear.
Brocados antigos, bronzes verdes, objectos de laca, marfins
esculpidos, ambientes requintados, luxo, fausto, de tudo isto
podemos tirar grande proveito. Mas o temperamento artstico
que geram, ou que ao menos revelam,  para mim ainda mais
importante. Se formos espectadores da nossa prpria vida, como
diz o Harry, furtamo-nos ao sofrimento da vida. Bem sei que
est surpreendido por me ouvir falar deste modo. Voc no
compreendeu ainda como eu evolu.
Quando me conheceu, eu no passava de um colegial. Agora sou
um homem. Tenho novas paixes, novos pensamentos, novas
ideias. Estou diferente, mas no deve gostar menos de mim por
isso. Estou mudado, mas tem de continuar a ser meu amigo. 
certo que gosto muito do Harry. Mas sei que voc  melhor do
que ele. Sei que no  mais forte - voc tem um medo exagerado
da vida - mas  melhor. E que felizes ramos os dois! No me
deixe, Basil, e no discuta comigo. Sou o que sou. E no h
mais nada a dizer.
  O pintor sentia uma estranha comoo.


                              129


Tinha um enorme afecto pelo rapaz, e a sua personalidade
assinalara um ponto decisivo na sua arte. No podia suportar a
ideia de voltar a recrimin-lo. No fim de contas, a sua
indiferena seria simplesmente um estado de esprito
passageiro. Havia nele tantos sentimentos bons e nobres.
  - Bem, Dorian - disse, por fim, com um sorriso triste -,
a partir de hoje no voltarei a falar-Lhe deste assunto
horrvel. Apenas quero ter a certeza de que o seu nome no
est envolvido. O inqurito realiza-se esta tarde. Voc foi
convocado?
  Dorian abanou a cabea, passando-Lhe pelo rosto uma
expresso de contrariedade ao ser mencionada a palavra
inqurito. Havia qualquer coisa de grosseiro e ordinrio
associada a tudo isso.
  - No sabem o meu nome - respondeu ele.
  - Mas ela com certeza sabia?
  - Apenas o meu nome de baptismo, e estou certo de que nunca
o revelou a ningum. Uma vez contou-me que todos tinham grande
curiosidade em saber quem eu era, e que lhes respondia
invariavelmente que o meu nome era Prncipe Encantado. Foi uma
ideia bonita. Tem de me fazer um retrato da Sibyl, Basil.
Gostaria de ter dela outra coisa mais que no fosse somente a
recordao de alguns beijos e umas patticas promessas no
cumpridas.
  - Vou tentar fazer alguma coisa, Dorian, se isso o satisfaz.
Mas tem de voltar a posar para mim. Sem voc no posso
continuar o meu trabalho.
  - Nunca voltarei a posar para si, Basil.  impossvel! -
exclamou, recuando.
  O pintor fitou-o, espantado.
  - Que disparate, meu rapaz! - gritou ele. - Pretende dizer
que no gosta do retrato que lhe fiz? Onde est? Por que
colocou o biombo diante dele? Deixe-me v-lo.  a mellhor
coisa que j fiz. Afaste o biombo, Dorian.  simplesmente
infame que o seu criado tenha escondido a minha obra desta
maneira. Bem me pareceu, ao entrar, que a sala estava
diferente.
  - O meu criado no tem nada a ver com isso, Basil.


                              130


No est a pensar que permito que seja ele a dispor as coisas
na minha sala? s vezes  ele que me compe as flores, mais
nada. No, fui eu que o coloquei a. A luz era forte demais.
  - Forte demais! Mas de modo nenhum, meu caro amigo! Est no
lugar ideal. Deixe-me ver.
  E Hallward encaminhou-se para o canto da sala.
  Um grito de terror irrompeu dos lbios de Dorian Gray, que
correu a interpor-se entre o pintor e o biombo.
  - Basil - disse ele, de semblante muito plido -, no pode
v-lo. Eu no quero.
  - No poder ver a minha prpria obra! No est a falar a
srio. Por que no hei-de v-lo? - exclamou Hallward a rir.
  - Se tentar v-lo, Basil, dou-Lhe a minha palavra de honra
que deixo de lhe falar para toda a vida. Falo muito a srio.
No lhe dou quaisquer explicaes, nem voc deve pedi-las. E
lembre-se de que se tocar neste biombo, acaba-se tudo entre
ns.
  Hallward estava abismado. Olhava para Dorian Gray,
com profundo pasmo. Nunca o vira assim. O rapaz at estava
plido de raiva. Tinha os punhos cerrados, e as pupilas
dilatadas pareciam discos de fogo azul. Todo ele tremia.
  - Dorian!
  - No diga nada!
  - Mas que se passa consigo?  claro que no verei o quadro
se  isso que voc quer - disse ele, com bastante frieza,
rodando sobre os calcanhares e encaminhando-se para a janela.
- Mas realmente parece um tanto absurdo que no possa ver o
meu trabalho, especialmente agora que vou exp-lo em Paris no
Outono. Provavelmente terei que lhe aplicar outra camada de
verniz antes disso, portanto tenho de v-lo um dia destes, e
por que no hoje mesmo?
  - Exp-lo! Voc quer exp-lo? - exclamou Dorian Gray, tomado
por uma estranha sensao de terror. O seu segredo ia ser
exposto aos olhos do mundo? Para que as pessoas ficassem
embasbacadas ante o mistrio da sua vida? Isso era impossvel.
No sabia ainda o qu, mas tinha que fazer qualquer coisa
imediatamente.


                              131



  - Sim, quero. No creio que voc v levantar objeces.
George Petit vai reunir os meus melhores quadros para uma
exposio especial, na Rue de Sze, que abre ao pblico na
primeira semana de Outubro. O retrato s estar fora um ms.
Suponho que no lhe far diferena dispens-lo durante esse
tempo. Coincide mesmo com a altura em que voc se ausenta da
cidade. E se o tem sempre escondido atrs do biombo,  porque
no est muito interessado nele.
  Dorian Gray passou a mo pela testa. Tinha gotas de suor.
Sentia que estava  beira de um perigo terrvel.
  - H um ms dizia-me que nunca o iria expor - exclamou. -
Por que mudou de ideias ? Vocs, os que pretendem ser
coerentes, mudam tanto de humor como os outros.
A nica diferena  que os vossos caprichos so bastante menos
significativos. No se pode ter esquecido que me afianou
muito solenemente que por nada deste mundo o iria enviar a
exposio alguma. Voc disse ao Harry exactamente a mesma
coisa.
  Calou-se de repente, e os olhos brilharam intensamente.
Lembrou-se de que Lord Henry Lhe dissera uma vez,
meio a srio, meio a brincar:
  "Se voc quer passar um quarto de hora especial, convena
Basil a dizer-lhe por que no quer expor o seu retrato. A mim
j me disse o motivo, e foi uma verdadeira revelao". Sim,
talvez Basil tivesse tambm um segredo. Perguntar-lhe-ia e
faria tudo para saber - Basil - disse, aproximando-se dele e
fitando-o bem de frente - cada um de ns tem um segredo. Se me
revelar o seu, eu conto-Lhe o meu. Por que motivo se recusava
a expor o meu retrato?
  O pintor estremeceu involuntariamente.
  - Dorian, se lhe dissesse o motivo, provavelmente ficaria a
gostar menos de mim, e por certo iria rir-se de mim tambm. Eu
no poderia suportar nem uma coisa, nem outra. Se for seu
desejo que eu nunca mais veja o retrato, estou de acordo.
Posso sempre v-lo a si. Se for seu desejo que a minha melhor
obra no seja revelada ao pblico, aceito. Prezo mais a sua
amizade do que qualquer moldura ou reputao.


                              132


  - No, Basil, tem de dizer-me - insistia Dorian Gray -,
Creio que tenho o direito de saber.
  A sensao de terror passara e dera lugar  curiosidade.
Estava determinado a descobrir o mistrio de Basil Hallward.
  - Sentemo-nos, Dorian - disse o pintor, visivelmente
perturbado. - Sentemo-nos. Responda-me primeiro a uma
pergunta. Notou algo de estranho no retrato? Uma coisa que a
princpio talvez no lhe tenha chamado a ateno,
mas que se Lhe revelou repentinamente?
  - Basil! - gritou o rapaz, apertando os braos da poltrona
com mos trmulas, e fitando-o com os olhos esgazeados de
medo.
  - Vejo que sim. No diga nada. Espere at ouvir tudo o que
tenho a dizer. Dorian, desde que o conheci, a sua
personalidade exerceu em mim a mais extraordinria influncia.
Voc dominava-me a alma, o crebro e as minhas faculdades. Foi
para mim a incarnao corprea do ideal invisvel, cuja
memria nos persegue a ns, artistas, como um sonho raro. Eu
adorava-o. Tinha cimes de toda a gente com quem voc falava.
Queria que fosse inteiramente meu. S me sentia feliz quando
estava consigo. Mesmo quando se encontrava ausente, continuava
presente na minha arte.  claro que nunca quis que soubesse
nada disto.
Seria impossvel. Voc no teria compreendido. Mesmo eu mal o
entendia. Apenas sabia que havia deparado com a perfeio, e
que o mundo se tornara maravilhoso aos meus olhos. talvez
demasiado maravilhoso, pois em tresloucadas idolatrias, existe
o perigo de perd-las, que no  menor do que o perigo de
conserv-las. As semanas passavam,
e eu ia ficando cada vez mais absorvido por voc. Depois
surgiu uma nova situao. Eu desenhara-o como Pris,
numa elegante armadura, e como Adnis, com a capa de caador e
empunhando uma reluzente lana. Coroado de pesadas flores de
ltus, sentara-se  proa da barca de Adriano, a contemplar as
guas verdes e turvas do Nilo.


                              133


Debruara-se no lago tranquilo de uma floresta grega, mirando
na prata silente da gua a graa do seu rosto. E tudo fora
como a arte devia ser: inconsciente, ideal e remota.
Um dia, penso s vezes que foi um dia fatdico, resolvi pintar
um magnfico retrato seu que o representasse tal como , no
com roupagens do passado, mas trajado a seu modo e  moda da
sua poca. No sei dizer se foi o realismo do mtodo, ou
simplesmente o fascnio da sua personalidade que assim
directamente se me apresentava sem nvoa ou vu, mas sei que,
 medida que trabalhava no retrato, toda a pincelada colorida,
mais espessa ou mais tnue, parecia revelar o meu segredo.
Tive medo de que outros ficassem a saber da minha idolatria.
Eu sentia, Dorian, que revelara demais, que tinha posto no
retrato demasiado de mim mesmo. Foi ento que resolvi jamais
permitir que ele fosse exposto. Voc ficou um pouco
melindrado, mas no sabia tudo o que ele representava para
mim. O Harry, a quem contei tudo isto, riu-se de mim. Mas no
me importei.
Quando terminei o quadro, e fiquei sozinho com ele, senti que
tinha razo. Bom, alguns dias depois ele saiu do meu atelier,
e, assim que me libertei do intolervel fascnio da sua
presena, achei que fora tolo ao imaginar que vira nele alguma
coisa mais para alm do facto de que voc era
extraordinariamente bem-parecido e que eu sabia pintar. Mesmo
agora no posso deixar de considerar errada a ideia de que a
paixo sentida no acto de criar se revela de facto na obra
citada. A arte  sempre mais abstracta do que imaginamos. A
forma e a cor falam-nos da forma e da cor, e de nada mais.
Muitas vezes afigura-se-me que a arte esconde o artista muito
mais do que o revela. E por isso, quando recebi esta proposta
de Paris, decidi que o seu retrato seria a obra principal da
minha exposio. Nunca me ocorreu que voc fosse recusar. VEjo
agora que tem razo. O retrato no pode ser exposto. No deve
ficar zangado comigo, Dorian, por aquilo que lhe contei. Como
disse numa ocasio ao Harry, voc foi feito para ser adorado.
  Dorian Gray deu um longo suspiro. As faces retomaram cor, e
brincava-lhe nos lbios um sorriso. O perigo passara.


                              134


  Por enquanto, no corria risco. Porm, no podia deixar de
sentir uma enorme compaixo pelo pintor, que acabara de lhe
fazer esta estranha confisso, e interrogava-se se tambm
seria alguma vez assim dominado pela personalidade de um
amigo. Lord Henry tinha o encanto de ser muito perigoso.
Mas nada mais que isso. Era demasiado inteligente e demasiado
cnico para que se pudesse gostar realmente dele. Haveria um
dia algum que lhe inspirasse uma idolatria to estranha?
Seria uma das coisas que a vida lhe reservava?
  - Parece-me extraordinrio, Dorian - disse Hallward -,
que voc tenha visto isso no retrato. Viu mesmo?
  - Vi uma coisa - respondeu -, uma coisa que me pareceu muito
curiosa.
  - Ento agora no se importa que eu o veja?
  Dorian abanou a cabea num gesto negativo.
  - No pode pedir-me isso, Basil. Ser-me-ia impossvel
deix-lo ver o retrato.
  - Mas um dia vai deixar, no vai?
  - Nunca...
  - Bem, talvez voc tenha razo. E entoadeus, Dorian. Foi a
nica pessoa que influenciou verdadeiramente a minha arte.
Tudo quanto fiz de bom a si o devo. Ah! No sabe o que me
custou dizer-Lhe tudo o que lhe contei.
  - Meu caro Basil - disse Dorian -, mas o que foi que me
contou? Simplesmente que sentia que me admirava demais.
Nem chega a ser um elogio.
  - No pretendeu ser um elogio. Foi uma confisso.
Agora que a fiz, tenho a impresso de ter perdido algo de mim.
Talvez no devssemos expressar por palavras o nosso
sentimento de idolatria.
  - Foi uma confisso decepcionante.
  - Mas de que estava  espera, Dorian? No viu mais nada no
retrato, pois no? No se via mais nada?
  - No, no se via mais nada. Por que pergunta? E no deve
falar-me em adorao.  um disparate. Voc e eu somos amigos,
Basil, e devemos continuar a s-lo sempre.
  - Voc tem o Harry - disse o pintor, um tanto triste.


                              135


  - Ora, o Harry -- exclamou o rapaz, dando uma gargalhada. -
O Harry passa os dias a dizer coisas incrveis, e as noites a
fazer coisas improvveis. Exactamente o gnero de vida que eu
gostaria de levar. Mas mesmo assim, no creio que fosse
procurar o Harry se me encontrasse em apuros.
Preferia procur-lo a si.
  - Voltar a posar para mim?
  - Impossvel!
  - Ao recusar, voc destri a minha vida artstica, Dorian.
No houve um homem que deparasse com dois ideais.
Poucos deparam com um.
  - No posso explicar-Lhe o motivo, Basil, mas jamais devo
voltar a posar para si. H qualquer coisa de fatdico no
retrato. Tem vida prpria. Qualquer dia vou tomar ch consigo.
Ser igualmente agradvel.
  - Mais agradvel para si, creio bem - respondeu Hallward em
voz baixa, com algum pesar. - Ento, adeus. Lamento que me no
deixe ver o quadro mais uma vez. Pacincia! Compreendo
perfeitamente a sua deciso.
  Quando ele saiu, Dorian Gray no pde deixar de sorrir.
Pobre Basil! Sabia to pouco sobre o verdadeiro motivo! E foi
to estranho que, em vez de ter sido obrigado a revelar o seu
prprio segredo, houvesse conseguido, quase por acaso,
arrancar um segredo ao seu amigo! Quantos esclarecimentos Lhe
trouxera aquela singular confisso! Os inexplicveis acessos
de cime do pintor, a sua exagerada dedicao, os seus
extravagantes panegricos, as suas curiosas reticncias. agora
compreendia tudo isso, e sentia pena. Parecia-lhe haver um
laivo de tragdia numa amizade to colorida pelo romanesco.
  Suspirou, e tocou a campainha. O retrato tinha de ser
escondido a todo o custo. Ele no podia correr novamente o
risco de que algum o descobrisse. Fora loucura da sua parte
ter deixado ficar aquilo, por uma hora sequer, numa sala aonde
entrava todo e qualquer amigo.


                              Captulo X


     Quando o criado entrou, fixou nele o olhar, como que a
querer saber se ele teria pensado em espreitar por trs do
biombo. O homem mostrava-se impassvel, aguardando as suas
ordens. Dorian acendeu um cigarro, aproximou-se do espelho e
olhou. Via perfeitamente nele reflectido o rosto de Victor.
Era uma mscara de plcido servilismo. A no havia nada a
recear. No entanto, achou que o melhor seria ficar de
sobreaviso.
  Falando muito lentamente, disse-lhe que avisasse a
governanta que precisava de falar com ela, e que fosse depois
ter com o moldureiro para lhe pedir que lhe mandasse
imediatamente dois homens. Teve a impresso de que o criado ao
sair do quarto, dirigira o olhar para o biombo. Ou seria
apenas imaginao sua?
  Pouco depois, Mrs. Leaf, com seu vestido de seda preta e
antiquados mitenes de linha nas mos engelhadas, entrou
afobadamente na biblioteca. Ele pediu-Lhe a chave do velho
quarto de estudo.
  - O velho quarto de estudo, Mr. Dorian? - exclamou.
- Mas... est cheio de p. Tenho de o mandar limpar e arrumar
antes de o senhor l entrar. O senhor no pode v-lo naquelas
condies. No, senhor.
  - Eu no quero o quarto limpo, Leaf. Apenas quero a chav
e...
  - Ento, o senhor vai ficar coberto de teias de aranha, se
l entrar. Ora ele no  aberto h quase cinco anos, foi desde
que Sua Senhoria faleceu.
  Estremeceu ao ouvir falar do av. Tinha dele recordaes
odiosas.
  - No tem importncia - respondeu. - Quero muito
simplesmente ver o quarto.  s isso. D-me a chave.
  - Est aqui a chave, senhor - disse a velhota revistando o
molho de chaves com mos trmulas e inseguras. - Est aqui a
chave. Tiro-a do molho num instante. Mas no est a pensar em
ir para l, senhor, de mais a mais estando aqui to
confortvel?
  - No, no penso - exclamou, petulante. - Obrigado,
Leaf.  tudo.
  A governanta demorou-se ainda algum tempo a tagarelar sobre
determinado problema domstico. Dorian suspirou impaciente, e
disse-lhe que resolvesse o assunto como lhe parecesse melhor.
Ento ela saiu da biblioteca, desfazendo-se em sorrisos.
  Mal a porta se fechou, Dorian meteu a chave no bolso e olhou
em volta. Os olhos depararam com uma enorme colcha de cetim
cor-de-prpura, ricamente bordada a ouro,
um sumptuoso exemplar veneziano de finais do sculo xvII que o
av descobrira num convento perto de Bolonha.
Sim, aquilo serviria para envolver aquela coisa horrvel.
Talvez tivesse j servido muitas vezes de pano morturio.
Agora devia esconder uma coisa que tinha uma corrupo muito
peculiar, pior que a corrupo da prpria morte.
uma coisa que haveria de originar horrores, mas que nunca
morreria. O que os vermes fazem a um cadver, assim fariam os
seus pecados  imagem pintada na tela. Destruiriam a sua
beleza e devorariam o seu garbo. Corromp-la-iam e
torn-la-iam vergonhosa. E, todavia, essa coisa continuaria a
viver... Para sempre.
  Estremeceu, e, por momentos, lamentou no ter dito a Basil o
verdadeiro motivo por que quisera esconder o quadro. Basil
t-lo-ia ajudado a resistir  influncia de Lord Henry, e s
influncias ainda mais venenosas do prprio temperamento. O
amor que Basil tinha por ele - pois tratava-se de verdadeiro
amor - era inteiramente nobre e intelectual. No era a simples
admirao fsica da beleza, aquela que nasce dos sentidos e
que morre com o cansao dos sentidos.


                         138  139


Era um amor como o que Miguel ngelo conhecera, e Montaigne, e
Winekelmann, e mesmo Shakespeare.
  Sim, Basil poderia t-lo salvo. Mas era demasiado tarde
agora. O passado poderia ser sempre anulado atravs do
arrependimento, da rejeio ou do olvido. Mas o futuro era
inevitvel. Tinha dentro de si paixes que explodiriam de um
modo terrvel, sonhos que tornariam real a sombra da
perversidade que projectavam.
  Retirou do sof o magnfico tecido de prpura e ouro que o
cobria e, segurando-o com as duas mos, passou para trs do
biombo. O rosto do quadro seria mais abjecto agora?
Parecia-lhe inalterado, mas, mesmo assim, a sua averso por
ele aumentava. O cabelo dourado, os olhos azuis e os lbios
rubros estavam l. Somente a expresso se alterara. Era de uma
crueldade horrenda. Comparadas com a censura e a acusao
visveis no retrato, como eram irrisrias as repreenses que
Lhe fizera Basil a propsito de Sibyl Vane! To fteis e de
to pouca monta! A sua prpria alma olhava-o, chamando-o a
juzo. Assomou-Lhe aos olhos uma expresso de dor, e lanou a
valiosa coberta por cima do retrato. Ao faz-lo, bateram 
porta. Afastou-se do biombo quando o criado entrou.
  - Os homens j chegaram, Monsieur.
  Sabia que tinha de se livrar imediatamente do criado. Este
no podia saber para onde iam levar o quadro. Havia nele uma
certa dissimulao, e tinha um olhar cauteloso e traioeiro.
Sentou-se  escrivaninha e escreveu rapidamente um bilhete a
Lord Henry, a pedir-Lhe que lhe enviasse qualquer coisa para
ler e a lembrar-Lhe o encontro combinado para as oito e quinze
dessa noite.
  - Aguarde a resposta - disse, entregando-lhe o bilhete -, e
mande entrar os homens para aqui.
  Dois ou trs minutos depois, bateram novamente  porta, e
Mr. Hubbard, em pessoa, o afamado moldureiro de South Audley
Street, entrou acompanhado por um jovem ajudante de aspecto um
tanto rude. Mr. Hubbard era um homenzinho rubicundo, de suas
ruivas, cuja admirao  pela arte era consideravelmente
moderada pela penria de quase todos os artistas que com ele
negociavam. Geralmente nunca abandonava a loja, aguardando que
as pessoas viessem ter consigo. Mas abria sempre uma excepo
relativamente a Dorian Gray. Dorian tinha um certo encanto que
seduzia toda a gente. V-lo chegava a ser um prazer.
  - Em que posso servi-lo, Mr. Gray? - perguntou, esfregando
as mos gorduchas e sardentas. - Resolvi conceder a mim mesmo
a honra de vir pessoalmente. Acabo de adquirir uma beleza de
moldura, senhor. Consegui-a num leilo. Uma antiga pea
florentina, creio que proveniente de Fonthill.
Maravilhosamente adequada para um tema religioso, Mr. Gray.
  - Lamento que se tenha dado ao trabalho de aparecer, Mr.
Hubbard. Pode ter a certeza de que no deixarei de passar por
l para ver a moldura, se bem que de momento no esteja muito
interessado por arte sacra, mas hoje desejo apenas que me
levem um quadro para o ltimo andar.  bastante pesado, por
isso pensei em pedir-lhe que me disponibilizasse dois dos seus
empregados.
  - No  maada nenhuma, Mr. Gray. Tenho o maior prazer em
servi-lo. Qual  a obra de arte?
  -  esta - respondeu Dorian, afastando o biombo. - Podem
transport-la assim tapada como est? No quero que sofra
qualquer dano ao subirem as escadas.
  - No vai haver nenhuma dificuldade, senhor - respondeu o
bem-humorado moldureiro, que, auxiliado pelo seu ajudante,
comeara a desprender o retrato das compridas correntes de
bronze que o suspendiam. - E agora para onde quer que a
levemos, Mr. Gray?
  - Eu indico-Lhes o caminho, Mr. Hubbard, se fizerem o favor
de me seguir. Mas talvez seja prefervel irem  frente. Vamos
subir pela escadaria da entrada, sempre  mais larga.
  Abriu-lhes a porta, eles passaram ao vestbulo e comearam a
subir. Os lavrados da moldura tornavam o quadro extremamente
pesado, e, de vez em quando, apesar dos protestos servis


                              140


de Mr. Hubbard, que nutria a forte averso do genuno
comerciante por ver um senhor fazer algo de til, Dorian dava
uma ajuda com a mo.
  - Isto  pesadote, senhor - disse o homenzinho, arquejando,
quando chegaram ao ltimo patamar, e enxugando a testa
luzidia.
  - Parece que  bastante pesada - murmurou Dorian, ao abrir a
porta que dava para o quarto que haveria de lhe guardar o
singular segredo da sua vida e esconder a sua alma dos olhares
dos homens.
  Haviam passado mais de quatro anos desde a ltima vez que
aqui entrara, de facto desde que primeiro fora quarto de
brinquedos quando ele era criana, e depois como quarto de
estudo quando era um pouco mais velho. Era um compartimento
grande, bem proporcionado, que fora mandado construir por Lord
Kelso especialmente para o pequenino neto que, pela sua
estranha parecena com a me, e tambm por outras razes,
sempre odiara e desejara manter  distncia. Achava que o
quarto pouco se modificara. L estava o enorme cassone
italiano, de almofadas caprichosamente pintadas e de frisos
dourados j sem brilho, e onde ele se escondera tantas vezes
quando rapazinho. E a estante de pau-cetim com os seus livros
escolares de pginas dobradas aos cantos. Na parede atrs,
estava pendurada a mesma esfarrapada tapearia flamenga, onde
um rei e uma rainha de cores esmaecidas jogavam xadrez num
jardim, enquanto um grupo de falcoeiros passava a cavalo,
levando, nos punhos protegidos por luvas, as aves de cabeas
tapadas. Recordava-se to bem de tudo! Quando os seus olhos
percorriam o quarto, acudiram-Lhe  memria todos os momentos
solitrios da infncia. Recordava a pureza impoluta da
meninice, e parecia-Lhe horrvel que fosse esconder
precisamente aqui o retrato fatdico. Nesses dias do passado,
mal pensava em tudo o que lhe estaria reservado!
  Mas no havia na casa um lugar to protegido dos olhares
indiscretos. Era ele que tinha a chave, e mais ningum poderia
l entrar.


                              141


Sob a coberta de cor prpura, o rosto pintado na tela podia
tomar um aspecto bestial, embrutecido e imundo. Que importava?
Ningum o podia ver. Nem sequer ele o veria. Por que haveria
de observar a corrupo hedionda da sua alma? Ele manteria a
sua juventude, e era quanto bastava. Ademais, a sua ndole no
poderia, mesmo assim, tornar-se mais perfeita? No havia
motivo para que o futuro viesse a ser to infame. Poderia
surgir-Lhe na vida um amor que o purificasse e o protegesse
dos pecados que pareciam estar j a agitar-se-Lhe no esprito
e na carne, aqueles estranhos pecados inimaginveis a que o
seu prprio mistrio emprestava subtileza e encanto. Talvez
que um dia a expresso cruel se esvanecesse da boca rubra e
sensvel e ele pudesse expor ao pblico a obra-prima de Basil
Hallward.
  No, isso seria impossvel. Hora a hora, semana aps semana,
aquilo na tela ia envelhecendo. Ainda que pudesse livrar-se do
horror do pecado, estava-lhe reservado o horror do
envelhecimento. As faces tornar-se-iam encovadas ou flcidas.
Rugas amarelecidas surgiriam pouco a pouco ao redor dos olhos
mortios, que tomariam um aspecto horrvel. O cabelo perderia
o brilho, a boca ficaria aberta ou descairia, ridcula ou
obscena, como so as bocas dos velhos. Haveria ainda o pescoo
engelhado, as mos glidas e de grossas veias azuis, o corpo
alquebrado. Era assim a lembrana que lhe ficara desse av to
severo com ele durante a sua meninice. O retrato tinha de ser
escondido. No havia remdio.
  - Traga-o para dentro, Mr. Hubbard, por favor - disse ele,
voltando-se com ar abatido. - Desculpe t-lo feito esperar
tanto tempo. Pensava em outras coisas.
  - Veio a propsito este descanso, Mr. Gray - respondeu o
moldureiro, que estava ainda sem flego. - Onde quer que o
ponha, senhor?
  - Ah, em qualquer lugar. Pode ser aqui. Est bem assim. No
o quero pendurado. Encoste-o apenas  parede. Obrigado.
  - Podemos ver a obra de arte, senhor?
  Dorian sobressaltou-se.


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  - No lhe iria interessar, Mr. Hubbard - respondeu, de olhos
fixos no homem. Estava pronto a saltar-lhe em cima e a
atir-lo ao cho, se ele ousasse levantar a magnfica
cobertura que escondia o segredo da sua vida. - No quero
incomod-lo mais. Estou muito grato pela amabilidade de ter
aparecido.
  - Incmodo nenhum, Mr. Gray. Sempre s suas ordens, senhor.
  E Mr. Hubbard desceu as escadas com seus passos pesados,
seguido pelo ajudante, que, com um tmido espanto no rosto
rude e sem beleza, se voltou para olhar Dorian. Nunca vira
pessoa to maravilhosa.
  Quando se extinguira o rudo dos passos, Dorian fechou a
porta  chave e meteu a chave no bolso. Sentia-se agora
seguro. Jamais algum poria os olhos naquele horror. Ningum
seno ele veria a sua vergonha. Ao chegar  biblioteca,
verificou que pouco passava das cinco horas e que j tinham
trazido o ch. Sobre uma mesinha de madeira escura e perfumada
com profusos embutidos de ncar, um presente de Lady Radley, a
esposa do seu tutor, uma invlida muito profissional que
passara o Inverno anterior no Cairo, encontrava-se um bilhete
de Lord Henry, e ao lado um livro encadernado com papel
amarelo, a capa ligeiramente rasgada e as bordas sujas. No
tabuleiro do ch fora colocado um exemplar da terceira edio
da St. Jamess Gazette. Era bem evidente que Victor havia
regressado. Comeou a pensar se ele teria encontrado os homens
ao sarem, conseguindo arrancar-lhes informaes sobre o que
tinham andado a fazer. Certamente que notaria a falta do
quadro... no havia mesmo dvida de que j a teria notado
enquanto andara a pr a mesa para o ch. O biombo no voltara
a ser reposto, e via-se na parede um espao vazio. Podia
acontecer que uma noite o encontrasse a subir sorrateiramente
at l acima e a tentar forar a porta do quarto. Era horrvel
ter um espio em casa. Soubera de homens ricos que tinham sido
chantageados toda a vida por um criado que lera uma carta,


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ou ouvira determinada conversa, ou apanhara um carto com um
endereo, ou encontrara debaixo de uma almofada uma flor
murcha ou um pedao de renda amachucada.
  Suspirou e, depois de se ter servido de ch, abriu o biLhete
de Lord Henry. Dizia apenas que lhe enviava o jornal da tarde
e um livro que talvez lhe interessasse, e que estaria no clube
s oito e quinze. Abriu o jornal languidamente e passou os
olhos por ele. Chamou-lhe a ateno uma marca a lpis vermelho
na quinta pgina, a assinalar o seguinte pargrafo:


  InQURITO  MoRTE DE UMA ACTRIZ: - Efectuou-se um inqurito
esta manh em Bell Tavern, Hoxton Road, levado a cabo por Mr.
Danby, delegado do Distrito, sobre a morte de Sibyl Vane, uma
jovem actriz recentemente contratada pelo Royal Theatre, em
Holborn. O veredicto foi de morte por acidente. Foram
expressas manifestaes de pesar  me da jovem. A pobre
senhora estava muito perturbada durante o seu depoimento e
tambm durante o de Mr. Birrell, que foi quem autopsiou a
falecida.



  Irritado, rasgou o jornal em dois e, atravessando a sala de
uma ponta  outra, atirou fora os pedaos. Que torpeza havia
em tudo isso! E como a verdadeira torpeza tornava tudo
horrvel! Sentia-se um pouco aborrecido com Lord Henry por lhe
ter mandado a notcia. E  claro que fora estupidez da parte
dele ter assinalado a notcia a vermelho. Victor poderia
l-la. O ingls que o criado sabia era mais que suficiente
para o ter feito.
  Talvez a tivesse lido e comeado a suspeitar de alguma
coisa. E, no entanto, isso que importava? Que tinha Dorian
Gray a ver com a morte de Sibyl Vane? No havia nada a recear.
Dorian Gray no a tinha assassinado.
  O seu olhar recaiu no livro de capa amarela que Lord Henry
lhe enviara. Teve curiosidade em saber o que era. Dirigiu-se
para o pequeno mvel octogonal cor de prola,


                              144


que sempre lhe parecera obra de exticas abelhas do Egipto que
trabalhavam em prata, e pegou no livro. Refastelou-se numa
poltrona e comeou a folhe-lo. Minutos depois, estava
absorvido na sua leitura. Era o livro mais surpreendente que
j lera. Tinha a sensao de que, requintadamente ataviados e
ao som suave de flautas, os pecados do mundo passavam ante
seus olhos em mudo cortejo. Coisas que ele vagamente sonhara
tornavam-se subitamente reais. Coisas que nunca sonhara eram
gradualmente reveladas.
  Era um romance sem enredo e com uma nica personagem.
Tratava-se, de facto, de um mero estudo psicolgico de um
determinado jovem parisiense que passava a vida a tentar
compreender no sculo xIx todas as paixes e mtodos de
pensamento pertencentes a todos os sculos, excepto ao seu,
condensando, por assim dizer, em si mesmo os diversos estados
por que passara o esprito do mundo, amando pela sua simples
artificialidade as renncias a que os homens insensatamente
chamavam virtude, bem como as rebeldias naturais a que os
homens sensatos continuam a chamar pecado. O estilo em que
estava escrito era aquele estilo curiosamente trabalhado, ao
mesmo tempo claro e obscuro, recheado de gria e de arcasmos,
de expresses tcnicas e de parfrases elaboradas, e que
caracteriza a obra dos melhores artistas da escola francesa
dos Symbolistes. Havia metforas to assombrosas como
orqudeas, e igualmente subtis no colorido. A vida dos
sentidos era descrita nos termos da filosofia mstica. Por
vezes, era difcil saber se o que se lia eram os xtases
espirituais de um santo medieval ou as confisses mrbidas de
um pecador moderno. Era um livro venenoso. O aroma penetrante
do incenso parecia ter-se colado s pginas, afectando o
crebro. A simples cadncia das frases, a subtil monotonia da
sua musicalidade, to recheada de complexos refros e de
andamentos elaboradamente repetidos, produziam no esprito do
rapaz,  medida que avanava de captulo em captulo, uma
espcie de devaneio, uma maleita de sonho, que o abstraam do
findar do dia e do adensar das sombras.



                              145


Atravs das janelas luzia um cu verde-cobre, sem nuvens, por
onde espreitava uma nica e solitria estrela. Ele continuava
a ler a essa luz que se ia desvanecendo, at j no conseguir
ler mais. Ento, aps o seu criado Lhe ter feito lembrar
vrias vezes o adiantado da hora, levantou-se e, passando ao
quarto contguo, pousou o livro na pequena mesa florentina que
se encontrava sempre  sua cabeceira, e comeou a vestir-se
para o jantar.
  Eram quase nove horas quando chegou ao clube, onde foi
encontrar Lord Henry sozinho na sala de estar, e com um ar
muito enfadado.
  - Peo-Lhe que me desculpe, Harry - exclamou -, mas
realmente a culpa foi toda sua. O livro que me emprestou
fascinou-me tanto que nem me apercebi do passar das horas.
  - Ah, sim. Eu calculei que voc havia de gostar do livro -
respondeu o seu anfitrio, levantando-se.
  - Eu no disse que gostei, Harry. Disse que me fascinou. H
uma grande diferena.
  - Ah, chegou a essa concluso? - murmurou Lord Henry.
  E passaram  sala de jantar.



                         Captulo XI


     Passaram-se anos sem que Dorian Gray conseguissE
libertar-se da influncia deste livro. Ou talvez fosse mais
exacto dizer que nunca procurou libertar-se dele. Mandou vir
de Paris nada menos que nove enormes brochuras da primeira
edio, que mandou encadernar em diferentes cores, de modo a
condizerem com os seus diversos estados de esprito e com os
volveis caprichos de um temperamento sobre o qual Lhe
parecia, por vezes, ter perdido todo o domnio. O heri, o
fantstico jovem parisiense, em quem se casavam de modo to
surpreendente o temperamento romntico e o cientfico,
tornou-se para ele uma espcie de prefigurao de si prprio.
E, de facto, era como se todo o livro contivesse a histria da
sua vida, escrita antes de ele a ter vivido.
  Havia um pormenor em que ele era mais afortunado do que o
fantstico heri do romance. Nunca conhecera - nem nunca
tivera motivo para conhecer - o terror um tanto grotesco dos
espelhos, e das polidas superfcies metlicas, e das guas
paradas, que se apoderara do jovem parisiense to cedo, e que
fora causado pela sbita decomposio de uma beleza que
outrora havia sido, indubitavelmente, to extraordinria. Era
com um jbilo quase cruel - e, possivelmente, em quase todo o
jbilo, como de certo em todo o prazer, h lugar para a
crueldade - que Dorian costumava ler esta parte do livro, com
o relato verdadeiramente trgico, ainda que um pouco
exagerado, da tristeza e do desespero de algum que perdera
aquilo que tanto prezava nos outros e no mundo.
   que a beleza deslumbrante que fascinara Basil Hallward, e
muitos outros alm dele, parecia jamais abandon-lo.  Mesmo
aqueles que ouviam dizer as coisas mais perversas acerca dele
- de tempos a tempos, corriam por toda a Londres boatos
esquisitos sobre o seu estilo de vida, que se tornavam tema de
conversa nos clubes -, quando o viam, no podiam acreditar em
coisas que o difamassem. O seu semblante era sempre o de
algum que se mantivera impoluto em relao ao mundo. Os
homens que diziam grosserias calavam-se quando Dorian Gray
entrava na sala. Havia na pureza do seu rosto qualquer coisa
que os censurava. A sua simples presena trazia-lhes  memria
a inocncia que eles haviam conspurcado. No sabiam como era
possvel que algum to grcil e encantador pudesse ter-se
furtado  mcula de uma poca que era, ao mesmo tempo, srdida
e sensual.
  Ao regressar a casa, depois de uma dessas misteriosas e
prolongadas ausncias que originavam aquelas inslitas
conjecturas entre os amigos, ou que julgavam s-lo, costumava,
com frequncia, subir silenciosamente at ao quarto trancado,
abrir a porta com a chave que trazia agora sempre consigo, e,
com um espelho, ficar em frente do retrato que dele fizera
Basil Hallward, olhando ora o rosto maligno e envelhecido da
tela, ora o jovem rosto formoso que lhe devolvia o sorriso na
superfcie polida do espelho. A nitidez do contraste
estimulava a sua sensao de prazer. Sentia-se cada vez mais
enamorado da prpria beleza, e cada vez mais interessado na
corrupo da sua alma. Costumava perscrutar com um cuidado
minucioso, e s vezes com um gozo monstruoso e terrvel, as
rugas hediondas que vincavam a testa engelhada, ou que
contornavam os lbios grossos e sensuais, interrogando-se por
vezes quais seriam os mais horrveis: se os estigmas do
pecado, ou os da idade. Aproximava as suas mos brancas das
mos grosseiras e inchadas do retrato, e sorria. Desdenhava do
corpo deformado e dos membros enfraquecidos.
  Em noites de insnia, quer nos seus aposentos delicadamente
perfumados, quer no quarto srdido da pequena taberna
mal-afamada perto das docas, que, disfarado e com um nome


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fictcio, tinha por hbito frequentar, havia mesmo momentos em
que pensava na runa que infligira  sua alma, sentindo uma
compaixo que era tanto mais pungente por ser totalmente
egosta. Mas momentos como esses eram raros. Aquela
curiosidade sobre a vida que Lord Henry fora o primeiro a
despertar nele, quando se sentaram juntos no jardim do amigo
Basil, parecia aumentar gratificantemente. Quanto mais sabia,
mais desejava saber. Ele tinha apetites loucos que se tornavam
mais famintos  medida que os saciava.
  Porm, no era verdadeiramente um irresponsvel, pelo menos
nas suas relaes sociais. Uma ou duas vezes por ms durante o
Inverno, e todas as noites de quarta-feira durante a
temporada, abria ao mundo as portas da sua belssima casa, e
mandava vir os msicos mais aclamados na altura, a fim de
deliciarem os convidados com a magia da sua arte. Os seus
jantares ntimos, para a organizao dos quais contava sempre
com as orientaes de Lord Henry, eram afamados tanto pela
esmerada seleco dos convidados e sua distribuio pelos
lugares, como pelo requinte da decorao da mesa, com seus
delicados arranjos sinfnicos de flores exticas, e toalhas
bordadas, e a baixela antiga de ouro e prata. Havia mesmo
muitos homens, particularmente os muito jovens ainda, que
viam, ou imaginavam que viam, em Dorian Gray a concepo
exacta do modelo com que frequentemente haviam sonhado no
tempo de estudantes em Eton ou Oxford: o modelo em que deviam
coexistir a verdadeira cultura do erudito e toda a graa,
distino e urbanidade de um cidado mundano. Comparavam-no
queles de quem Dante diz que procuravam "tornar-se perfeitos
pela adorao da beleza." Tal como Gautier, era algum para
quem o mundo visvel existia,.
  E, sem dvida, para ele a Vida era, em si mesma, a
primordial, a mais grandiosa de todas as artes, e, por isso
mesmo, todas as outras artes pareciam ser os preparativos para
a Vida. A moda, que torna a verdadeira extravagncia
momentaneamente universal, e o dandismo, que, a seu modo,


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 uma tentativa de afirmar a absoluta modernidade da beleza,
no deixavam de exercer sobre ele o seu fascnio. O modo de
vestir e os ademanes especiais que por vezes adoptava tinham
acentuada influncia nos jovens peraltas dos bailes de
Mayfair, e das janelas dos clubes de Pall Mall, que o copiavam
em tudo, tentando reproduzir o encanto ocasional das suas
graciosas, embora para ele apenas meio srias, afectaes.
  De facto, embora estivesse disposto a aceitar o lugar que
lhe foi oferecido, quase de imediato, quando atingiu a
maioridade, e at sentisse um prazer subtil ante a ideia de
que podia ser de facto para a Londres do seu tempo o que o
autor do Satyricon fora para a Roma imperial de Nero,
intimamente, porm, desejava ser algo mais do que um mero
arbiter elegantiarum, do que ser consultado sobre a melhor
maneira de pr uma jia, ou fazer o n a uma gravata, ou andar
com uma bengala. Procurava elaborar um novo projecto de vida,
que teria fundamentos filosficos prprios e uma
regulamentao de princpios, e encontrar na espiritualizao
dos sentidos a sua consumao mais sublime.
  O culto dos sentidos tem sido frequentemente, e muito
justamente, condenado, dado que os homens sentem um natural
instinto de terror em relao s paixes e s sensaes que
parecem ser mais fortes do que eles, e de que tm a
conscincia de partilhar com formas de vida inferiores. Mas
era evidente para Dorian Gray que a verdadeira natureza dos
sentidos nunca fora compreendida, e que permaneceram
indomveis e animalescos unicamente porque o mundo procurara
submet-los pela abstinncia ou mat-los pela flagelao, em
vez de procurar transform-los em elementos de uma nova
espiritualidade, em que um elevado instinto de beleza seria a
caracterstica dominante. Ao relembrar o percurso do homem ao
longo da histria, assediava-o um sentimento de perda. Tanta
renncia! E para to nfimo propsito! Ocorreram loucas
rejeies deliberadas, formas monstruosas de autoflagelao e
de rejeio de si mesmo, com origem no medo,



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e cujo resultado foi uma degradao infinitamente mais
terrvel do que a degradao imaginada, a que, por ignorncia,
se tentara fugir E a Natureza, na sua espantosa ironia,
forava o anacoreta a alimentar-se com os animais selvagens do
deserto, e ao eremita dava os animais do campo por companhia.
  Sim, deveria haver, como profetizara Lord Henry, um novo
hedonismo que recriasse a vida e a salvasse desse austero e
sombrio puritanismo que, curiosamente, est de novo em voga
nos nossos dias. Deveria ter, obviamente, o apoio da
inteligncia, sem, no entanto, aceitar teoria ou sistema que
implicasse o sacrifcio de qualquer gnero de experincia
apaixonada. O seu objectivo deveria ser mesmo a prpria
experincia, e no os frutos da experincia, por muito doces
ou amargos que fossem. Do ascetismo, que enfraquece os
sentidos, bem como da vil devassido, que os insensibiliza,
nada haveria de saber. Deveria, contudo, ensinar o homem a
concentrar-se nos momentos da vida, visto ela ser um breve
momento.
  No somos poucos os que s vezes acordamos antes do
alvorecer, quer aps uma daquelas noites sem sonhos que quase
nos fazem enamorar pela morte, quer numa daquelas noites de
horror e disforme alegria, quando pelas cmaras do crebro
esvoaam fantasmas, mais terrveis do que a prpria realidade,
e o instinto, com aquela vida intensa que nos espreita em
todos os bizarros grotescos, e que confere  arte gtica a sua
duradoura vitalidade, arte essa que, como podemos imaginar, 
especificamente a arte dos que tm as mentes perturbadas pelo
mal do devaneio. Plidos dedos penetram, trmulos, pelas
cortinas. Em negras formas fantsticas, sombras mudas rastejam
para os recantos do quarto e a se encolhem. Ouve-se l fora a
restolhada dos pssaros por entre as folhas, ou o rumor dos
homens que vo para o trabalho, ou ainda o murmrio e o gemido
do vento a descer as colinas, ou a vaguear em redor do
silncio da casa como se receasse despertar os que dormem,
mesmo quando  foroso fazer sair o sono da sua prpura gruta.


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Ergue-se vu aps vu da nvoa tnue e sombria, e as coisas
retomam gradualmente as formas e as cores, e vemos a madrugada
a refazer o mundo na sua forma primeva. Os plidos espelhos
recuperam sua vida mmica. Os castiais apagados encontram-se
onde os deixramos, e a seu lado est o livro de estudo a que
no se cortaram todas as pginas, ou a flor armada que
havamos usado no baile, ou a carta que receramos ler, ou que
fora lida vezes sem conta. Nada nos parece alterado. Das
sombras irreais da noite regressa a vida real que conhecamos.
Temos de a retomar no ponto em que a havamos deixado, e ento
assalta-nos uma sensao terrvel da necessidade de uma
energia permanente na invarivel ronda extenuante dos hbitos
estereotipados, ou um anseio desmedido por uma hipottica
manh em que os nossos olhos acordem para um mundo renovado
nas trevas para nosso prazer, um mundo em que as coisas tomem
novas formas e novas cores, e que tenha mudado, ou tenha
outros segredos, um mundo em que o passado seja nfimo ou
mesmo inexistente, ou que no sobreviva, pelo menos sob
qualquer forma consciente de dever ou remorso, pois que at a
lembrana da alegria traz amargura, e as recordaes do prazer
trazem mgoas.
  A criao de tais mundos afigurava-se a Dorian Gray como o
verdadeiro objectivo, ou um dos verdadeiros objectivos, da
vida, e, na busca de sensaes que fossem simultaneamente
novas e deliciosas, e possussem aquele elemento de novidade
que  to essencial ao romanesco, adoptava frequentemente
certos estilos de pensamento que ele sabia serem estranhos 
sua natureza, entregava-se s suas subtis influncias, e,
depois de lhes ter realmente apreendido o significado e
satisfeito a sua curiosidade intelectual, abandonava-os com
aquela singular indiferena que no  incompatvel com um
temperamento apaixonado e que, de facto, na opinio de certos
psiclogos modernos, chega a ser sua condio.
  Correu uma vez o boato de que ele iria ingressar no
catolicismo, e era verdade que tinha sido sempre atrado pelo
ritual da Igreja de Roma.


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O sacrifcio quotidiano, realmente mais impressionante do que
todos os sacrifcios do mundo antigo, emocionava-o, tanto pela
extraordinria rejeio da evidncia dos sentidos como pela
simplicidade primitiva dos seus elementos, e o eterno pathos
da tragdia humana que pretendia simbolizar. Adorava
ajoelhar-se no frio pavimento de mrmore, observando o
sacerdote, na sua casula pesada e sumptuosa, a afastar
lentamente e com mos brancas o vu do tabernculo, ou a
elevar bem alto a custdia em forma de lanterna, cravejada de
jias e contendo aquela plida hstia que, por vezes, pensamos
ser de facto o panis celestis, o po dos anjos, ou, com os
paramentos da Paixo de Cristo, partir a hstia no clice,
batendo no peito em contrio dos seus pecados. Os turbulos
fumegantes, que meninos de ar grave, vestidos de renda e
escarlate, balouavam no ar como grandes flores douradas,
exerciam nele um misterioso fascnio. Ao dirigir-se para a
sada, costumava olhar admirado para os negros
confessionrios, e desejava poder sentar-se na vaga
obscuridade do interior de um deles para escutar os homens e
as mulheres a segredarem, atravs da rede gasta, a verdadeira
histria das suas vidas.
  Mas nunca caiu no erro de impedir o curso do seu
desenvolvimento intelectual com a aceitao formal de qualquer
credo ou sistema, ou de confundir uma casa de habitao com
uma estalagem, que serve apenas para se passar uma noite, ou
algumas horas de uma noite em que no h estrelas e a Lua se
ausenta para nova gestao. O misticismo, com o seu mgico
poder de tornar inslitas as coisas banais do nosso
quotidiano, e o misterioso antinomianismo que parece sempre
acompanh-lo, atraram-no durante um tempo, e durante um tempo
voltou-se para as doutrinas materialistas do movimento do
Darwinismts alemo, encontrando um prazer singular em
descobrir as origens dos pensamentos e das paixes dos homens
em alguma pequena clula perlada do crebro, ou algum nervo
branco do corpo, deleitando-se com a noo de que o esprito
depende totalmente de determinadas condies fsicas,


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mrbidas ou saudveis, normais ou doentes. Todavia, como j
foi afirmado antes, nenhuma teoria da vida lhe parecia
importante, quando comparada com a prpria vida. Tinha a plena
conscincia de quo estril  toda a especulao intelectual,
quando dissociada da aco e da experimentao. Sabia que os
sentidos tm, em no menor grau do que a alma, os seus
mistrios espirituais a revelar.
  E, por isso, passou a estudar os perfumes e os segredos do
seu fabrico, destilando leos de odor intenso e queimando
resinas aromticas do Oriente. Descobriu que todo o estado de
esprito tinha o seu equivalente na vida sensorial, e resolveu
descobrir a sua verdadeira relao, querendo saber o que
conteria o olbano que nos tornava msticos, e o mbar-gris
que nos atiava as paixes, e as violetas que despertavam
lembranas de amores passados, e o almscar que perturbava o
crebro, e ainda a champaca que afectava a imaginao, e
tentando repetidas vezes elaborar uma verdadeira psicologia
dos perfumes e avaliar as vrias influncias das razes
odorferas, e das flores de perfumados plens, ou dos blsamos
aromticos, e das madeiras escuras e fragrantes, do nardo
indiano que provoca nuseas, da hovnia que enlouquece os
homens, e dos alos que, dizem, so capazes de expulsar da
alma a melancolia. Noutra altura, dedicou-se inteiramente 
msica, e, numa enorme sala de gelosias, com o tecto pintado a
ouro e vermelho e de paredes lacadas verde-azeitona,
costumava organizar originais concertos, em que arrebatados
ciganos arrancavam de pequenas ctaras msicas desenfreadas,
ou solenes tunisinos de xales amarelos desferiam as cordas
tensas de monstruosos alades, enquanto negros sorridentes
batiam monotonamente em tambores de cobre, e, acocorados sobre
tapetes escarlates, esguios indianos de turbante sopravam
longas flautas de junco ou metal, e encantavam, ou fingiam que
encantavam, grandes cobras-capelo e horrendas vboras
curnudas. As pausas abruptas e as dissonncias estridentes da
msica brbara faziam-no vibrar s vezes,


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quando a graa de Schubert, e a beleza melanclica de Chopin,
e at as poderosas harmonias de Beethoven eram ignoradas pelos
seus ouvidos. Coleccionava os mais exticos instrumentos
provenientes de todos os cantos do mundo,.encontrados quer nos
tmulos de naes desaparecidas, quer entre as poucas tribos
selvagens que sobreviveram ao encontro com as civilizaes
ocidentais, e adorava tocar-lhes e experiment-los. Possua os
misteriosos furuparis dos ndios do rio Negro, que esto
vedados aos olhos das mulheres, e que mesmo os jovens s podem
ver depois de submetidos a jejuns e flagelaes, e os potes de
barro dos peruanos que contm o piar agudo das aves, e as
flautas de ossos humanos, como as que Alfonso de Ovalle ouviu
no Chile, e os sonoros jaspes verdes que existem perto de
Cuzco e emitem uma nota de singular doura. Possua ainda
cabaas cheias de seixos que chocalhavam quando sacudidas, o
longo clarim dos mexicanos, onde o tocador no sopra, mas
aspira o ar, o estridente ture das tribos da Amaznia, que 
tocado por sentinelas alcandoradas o dia inteiro em altas
rvores, e que se podem ouvir, segundo dizem, a uma distncia
de trs lguas, o teponazili, que tem duas lnguas de madeira
vibrantes e que  percutido com paus untados com uma goma
elstica obtida do suco leitoso de plantas, os sinos yotl dos
astecas, que se penduram em cachos como uvas, e um enorme
tambor cilndrico, coberto com as peles de grandes serpentes,
como o que Bernal Diaz viu quando entrou com Cortez no templo
mexicano, e de cujo som lgubre nos deixou uma descrio to
vvida. O exotismo destes instrumentos fascinava-o, sentindo
um prazer especial ao pensar que a Arte, tal como a Natureza,
tem os seus monstros, coisas de formas grosseiras e vozes
hediondas. No entanto, passado algum tempo, cansou-se deles, e
passou a ocupar o seu camarote na pera, quer sozinho, quer na
companhia de Lord Henry, ouvindo extasiado o Tannhauser e
vendo no preldio dessa magnfica obra de arte uma
apresentao da tragdia da sua prpria alma.


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  Numa ocasio, passou a interessar-se pelo estudo das jias,
e apareceu num baile de mscaras fantasiado de Anne de
Joyeuse, almirante de Frana, com um vestido coberto de
quinhentas e sessenta prolas. Este interesse subjugou-o
durante anos, e pode dizer-se mesmo que nunca o deixou.
Passava frequentemente um dia inteiro a acomodar e a tornar a
acomodar nos estojos as diversas pedras que coleccionara, como
o crisoberlio verde-azeitona que toma a cor vermelha  luz da
chama, o cimofnio com seu veio de prata parecendo arame, o
peridoto cor de pistcio, topzios rseos e amarelo-vinho,
carbnculos de um escarlate flamejante com trmulas estrelas
de quatro raios, cinamonos cor de fogo, espinelas violetas e
cor de laranja, e ametistas com suas camadas alternadas de
rubi e safira. Adorava o ouro-rubro da hematite, e o
branco-prola da selenite, e o arco-ris fragmentado da opala
leitosa. Mandou vir de Amesterdo trs esmeraldas de tamanho
invulgar e de cor intensa, e tinha uma turquesa de la vieille
roche que era cobiada por todos os entendidos.
  Descobriu tambm fantsticas histrias de jias. No
Clericalis Disciplina de Afonso mencionava-se uma serpente com
olhos de jacinto autntico, e na histria lendria de
Alexandre, o conquistador de Emtia, conta-se que ele
encontrou no vale do Jordo cobras com colares de esmeraldas
verdadeiras que lhes cresciam no dorso. Havia uma pedra
preciosa no crebro do drago, conta-nos Filostrato, e ao
mostrarem-lhe letras douradas e uma tnica escarlate o monstro
podia cair num sono mgico e ser morto. Segundo o grande
alquimista Pierre de Boniface, o diamante tornava um homem
invisvel e a gata-da-ndia tornava-o eloquente. A cornalina
aplacava a ira, o jacinto provocava sono e a ametista
dissipava os vapores do vinho. A granada expulsava os demnios
e o hidrpico roubava a cor  Lua.
  A slenite crescia e minguava com a Lua, e o meloceu, que
descobre os ladres, s podia ser influenciado pelo sangue de
cabrito. Leonardus Camillus viu uma pedra branca extrada do
crebro de um sapo recm-morto e que era um antdoto contra o
veneno.


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O bezoar, que foi encontrado no corao do cervo rabe, era um
amuleto que curava a peste. Nos ninhos dos pssaros rabes
havia as aspilotas que, segundo Demcrito, protegiam do fogo
quem as usasse.
  Na cerimnia da sua coroao, o rei de Ceilo percorreu a
cavalo as ruas da cidade levando na mo um enorme rubi. As
portas do palcio do Preste Joo eram feitas de sardnica, com
o corno da vbora cornuda embutido, a fim de no poder entrar
homem com veneno. Por cima do fronto estavam duas mas de
ouro com dois carbnculos, de modo a que brilhasse o ouro
durante o dia, e os carbnculos durante a noite. No estranho
romance de Lodge, Uma Margarida da Amrica, dizia-se que no
quarto da rainha se podiam contemplar todas as damas castas do
mundo, incrustadas em prata, ao olhar atravs de belos
espelhos de crislitos, carbnculos, safiras e verdes
esmeraldas. Marco Polo vira as gentes de Zipangu colocarem
prolas rosadas nas bocas dos mortos. Um monstro marinho
enamorara-se da prola que o mergulhador trouxera ao rei
Perozes, matara o ladro e levara sete luas a chorar a sua
perda. Quando os hunos atraram o rei para o grande fosso, ele
atirou-a fora -  Procpio que nos conta a histria - e jamais
foi encontrada, posto que o imperador Anastcio oferecesse por
ela cinco quintais de moedas de ouro. O rei do Malabar
mostrara a um veneziano um rosrio de trezentas e quatro
prolas, cada uma por um deus que adorava.
  Quando o duque de Valentinois, filho de Alexandre VI,
visitou Lus XII de Frana, o seu cavalo ia carregado de
folhas de ouro, segundo o relato de Brantme, e o chapu tinha
fiadas duplas de rubis que faziam um grande resplendor. Carlos
de Inglaterra montava a cavalo com estribos suspensos por
quatrocentos e vinte e um diamantes. Ricardo II tinha um
traje, avaliado em trinta mil marcos, todo coberto de rubis
espinlios. Hall contava que Henrique VIII, quando ia a
caminho da Torre de Londres antes da sua coroao, levava um
gibo lavrado a ouro, o peitilho bordado a diamantes,


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e outras pedras preciosas, e, pelo pescoo, um boldri de
enormes espinlios. As favoritas de Jaime I usavam brincos de
esmeraldas engastadas em filigrana de ouro. Eduardo II deu a
Piers Gaveston um arns de ouro rubro cravejado de jacintos,
um colar de rosas de ouro encastoadas em turquesas e um
barrete recamado de prolas. Henrique II usava luvas que lhe
chegavam ao cotovelo enfeitadas de jias, e tinha uma luva de
falcoaria cosida com doze rubis e cinquenta e duas grandes
prolas orientais. O chapu ducal de Carlos, o Temerrio, o
ltimo duque de Borgonha da sua linhagem, era ornamentado com
prolas em forma de pra e cravejado de safiras.
  Que requintada fora a vida de outrora! Que deslumbrante em
seu fausto e adornos! At a leitura sobre o luxo devotado aos
mortos era maravilhosa.
  Depois, desviou a sua ateno para os bordados e para as
tapearias que faziam as funes de frescos nos aposentos
gelados das naes nrdicas da Europa.  medida que ia
investigando - ele sempre tivera a extraordinria capacidade
para ficar absorvido por qualquer assunto que o interessasse
de momento -, quase se entristecia ao pensar na runa que o
Tempo infligia s coisas belas e maravilhosas. Ele, ao menos,
fora poupado. A um Vero seguia-se outro Vero, os junquilhos
amarelos floriam e murchavam vezes sem conta, as noites de
horror repetiam a histria da sua vergonha, e ele, todavia,
permanecia inalterado. No havia Inverno que conseguisse
desfigurar-lhe o rosto ou tocar na sua viosa formosura. Como
tudo era diferente com as coisas materiais! Para onde se
teriam esvanecido? Onde estava a magnfica tnica cor de
aafro que fora feita por raparigas morenas para comprazer
Atena e pela qual os deuses haviam pelejado contra os
gigantes? E o enorme velrio que Nero estendera sobre o
Coliseu de Roma, esse gigantesco toldo de prpura em que
estava representado o cu estrelado, e Apolo conduzindo um
carro puxado por brancos corcis de rdeas douradas? Tanto que
gostaria de ver as originais toalhinhas lavradas para a mesa
do Sacerdote do Sol, em que se ostentavam todos os acepipes,


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e todas as iguarias invejveis para um festim, o pano
morturio do rei Chilperico, com as suas trezentas abelhas de
ouro, as excntricas tnicas que provocaram a indignao do
bispo do Ponto e em que figuravam lees, panteras, ursos,
ces, florestas, fragas, caadores, tudo o que, em verdade, um
pintor pode copiar da natureza, e o traje que Carlos de
Orlees usou uma vez, as mangas bordadas com os versos de uma
cano que comeava "Madame, je suis tout joyeux", o
acompanhamento musical da letra lavrado a fio de ouro, e cada
nota (quadrada, como era uso na poca) formada por quatro
prolas. Leu a descrio de um quarto no palcio de Reims,
preparado para uso da rainha Joana de Borgonha, decorado com
mil trezentos e vinte e um papagaios bordados e brasonados com
as armas do rei, e quinhentas e sessenta e uma borboletas com
as asas igualmente ornamentadas com as armas da rainha, tudo
lavrado a ouro. Catarina de Mdicis mandara fazer para si uma
cama de viva, de veludo negro polvilhado de crescentes e
sis. As cortinas eram de damasco lavrado com coroas e
grinaldas de folhas sobre fundo de ouro e prata, e franjas de
prolas nas orlas, e a cama estava num quarto decorado com
filas de divisas da rainha recortadas em veludo negro sobre
tecido de prata. Lus XIV tinha nos seus aposentos caritides
de quinze ps de altura e bordadas a ouro. O leito real de
Sobieski, rei da Polnia, era feito de brocado de ouro de
Esmirna, bordado de turquesas com versculos do Coro. Os
suportes eram de prata dourada, ricamente cinzelada, e
profusamente incrustada de medalhes de esmalte e jias. Fora
trazido do arraial turco perto de Viena, e o estandarte de
Maom estivera aprumado sob o dourado cintilante do seu
dossel.
  E deste modo, durante um ano inteiro, ele procurou reunir os
exemplares mais requintados de lavores txteis e bordados que
conseguia encontrar, adquirindo as delicadas musselinas de
Delhi, finamente lavradas com palmas de fio de ouro, e todas
pespontadas com asas de escaravelhos irisados,


                              159


as gazes de Dacca que, pela sua transparncia, so designadas
no Oriente por "ar tecido", e "gua corrente", e "orvalho da
noite", exticos panos estampados de Java, elaborados
reposteiros amarelos da China, livros encadernados em cetins
de tom castanho-dourado ou em sedas de tons de azul-claro e
bordados com fleurs de lys, aves e imagens, vus de lacis
bordados a ponto hngaro, brocados da Siclia e pesados
veludos de Espanha, lavores da Gergia com suas moedas
douradas, e Foukousas do Japo com seus ouros esverdeados e
aves de maravilhosa plumagem.
  Tinha tambm uma paixo especial por vestes eclesisticas
como, alis, tinha por tudo o que se relacionasse com o
servio religioso. Nas compridas arcas de cedro que ocupavam a
galeria da ala oeste da sua casa, guardara grande quantidade
de raros e belos exemplares de um autntico guarda-roupa da
Noiva de Cristo, que tem de usar prpura, jias e linho fino,
a fim de esconder o corpo plido e macerado, castigado pelo
sofrimento que busca para si, e magoado pelas dores que a si
mesma inflige. Possua uma sumptuosa capa de asperges de seda
carmesim e damasco de fios de ouro, estampado com um motivo
repetido de roms douradas sobre flores simtricas de seis
ptalas e, de cada lado, o motivo de um anans recamado de
aljfares. Os aurifrgios dividiam-se em painis que
representavam cenas da vida da Virgem, e a coroao da Virgem
estava bordada a sedas de vrias cores sobre o capelo. Era um
trabalho italiano do sculo xv. Outra capa era de veludo verde
com um bordado de folhas de acanto em forma de corao, de
onde se prolongavam flores brancas de longos caules, cujos
pormenores eram realados a fio de prata e cristais coloridos.
O fecho tinha uma cabea de serafim bordada em relevo a fio de
ouro. Os aurifrgios eram de um tecido adamascado de seda
vermelha e ouro, e estavam recamados de medalhes de muitos
santos e mrtires, entre os quais figurava So Sebastio.
Possua tambm casulas de seda cor de mbar, e seda azul e
brocado de ouro, e damasco amarelo de seda e pano de ouro,


                              160



ornamentadas com cenas da Paixo e Crucificao de Cristo, e
bordadas com lees e paves e outros smbolos, dalmticas de
cetim branco e damasco rosa de seda, decoradas com tlipas e
golfinhos e fleurs de lys, frontais de altar feitos de veludo
carmesim e linho azul, e muitos corporais, toalhas de clice e
sudrios. Nos ofcios msticos em que estas coisas se
utilizavam, havia algo que Lhe excitava a imaginao.
   que estes tesouros, bem como tudo o que coleccionava na
sua magnfica casa, serviriam de meios de esquecimento, como
meios de fugir, por algum tempo, ao medo que s vezes lhe
parecia quase grande demais para o poder suportar. Pendurara,
com suas prprias mos, na parede do quarto solitrio e
trancado onde passara tanto tempo da sua meninice, o terrvel
retrato, cujas feies em mutao lhe mostravam a verdadeira
degradao da sua vida, e que ele ocultara com a colcha
prpura e dourada a servir de cortina. Passavam-se semanas sem
l entrar, esquecia-se daquela pintura hedionda, e recuperava
a boa disposio, a sua admirvel alegria, a sua entrega
apaixonada  simples existncia. Mas depois, de repente, havia
uma noite em que saa sorrateiramente de casa, dirigia-se para
stios medonhos perto de Blue Gate Fields, e permanecia l
durante dias e dias at que o expulsavam. Quando regressava,
sentava-se em frente do retrato, umas vezes abominando-o e
abominando-se, mas, outras vezes, cheio daquele orgulho
prprio do individualismo que , em parte, o fascnio pelo
pecado, sorrindo com ntimo prazer da sombra disforme que
tinha de carregar o fardo que deveria ser seu.
  Alguns anos mais tarde, no suportava ausentar-se de
Inglaterra, e abandonou a villa de Trouville que partilhava
com Lord Henry, assim como a casinha branca, cercada de muros,
de Argel, onde tinham passado mais de um Inverno. Detestava
separar-se do retrato que j fazia parte da sua vida e, alm
disso, temia que durante a sua ausncia algum conseguisse ter
acesso ao quarto, apesar das complicadas trancas que mandara
colocar na porta.


                              161


  Estava perfeitamente convencido de que isto nada revelaria a
ningum. Era certo que, debaixo da sordidez e fealdade, o
retrato mantinha uma acentuada parecena consigo, mas que
poderiam da concluir? Ele rir se-ia de quem quer que tentasse
escarnecer. No fora ele que o pintara. Que tinha ele a ver
com o seu aspecto, por muito desprezvel e infame que fosse?
Ainda que lhes contasse, iriam acreditar?
  Apesar de tudo, tinha medo. Por vezes, quando se encontrava
na sua casa enorme em Nottinghamshire, recebendo os jovens
elegantes da sua categoria social que eram os seus habituais
companheiros, e deixando toda a regio assombrada com o luxo
desregrado e o fausto deslumbrante do seu estilo de vida,
abandonava de sbito os convidados e regressava rapidamente a
Londres para se certificar de que a porta no havia sido
forada e que o retrato ainda se encontrava no seu lugar. Que
aconteceria se fosse roubado? S de pensar nisso ficava gelado
de pavor. Com certeza que, nesse caso, o mundo ficaria a saber
o seu segredo. Talvez j o suspeitasse.
  Com efeito, embora muitos no resistissem ao seu fascnio,
no eram poucos os que dele desconfiavam. Por pouco no foi
excludo, por votao, de um clube do West End, a que, por
nascimento e posio social, tinha direito de se associar, e
contava-se que em certa ocasio, ao ser acompanhado por um
amigo at  sala de fumo do Churchill, o duque de Berwick e
outro cavalheiro levantaram-se ostensivamente e saram.
Circulavam a seu respeito histrias curiosas depois que ele
fez vinte e cinco anos. Corriam boatos de que fora visto
envolvido numa rixa com marinheiros estrangeiros num antro
abjecto das cercanias de Whitechapel, e que convivia com
ladres e moedeiros falsos, conhecendo mesmo os segredos do
seu ofcio. As suas inexplicveis ausncias tornaram-se
conhecidas de todos e, quando voltava a aparecer em sociedade,
os homens cochichavam pelos cantos, ou passavam por ele com um
sorriso sardnico, ou fitavam-no com olhar frio e
perscrutador, como se pretendessem descobrir o seu segredo.


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  Ele,  claro, no dava importncia a tais insolncias e
esboadas desconsideraes, e, na opinio de muitas pessoas,
os seus modos francos e afveis, o encanto do seu sorriso
gaiato e a graa infinita daquela maravilhosa juventude que
parecia no deix-lo nunca eram resposta suficiente s
calnias - era assim que as designavam - que circulavam a seu
respeito. Notava-se, contudo, que alguns dos que tinham
convivido intimamente com ele comearam, passado algum tempo,
a evit-lo. As mulheres que o tinham adorado loucamente, e que
por sua causa haviam enfrentado afoitamente toda a censura da
sociedade e desafiado as convenes, viam-se empalidecer de
vergonha ou horror se Dorian Gray entrava na sala.
  No entanto, estes escndalos segredados s aumentavam, aos
olhos de muitos, o seu estranho e perigoso encanto. A sua
enorme fortuna era um certificado de confiana. A sociedade,
pelo menos a sociedade civilizada, nunca est predisposta a
acreditar em tudo o que seja em detrimento daqueles que so
simultaneamente ricos e fascinantes. Sente instintivamente que
as maneiras so mais importantes do que a moral, e, em sua
opinio, a respeitabilidade, por muito grande que seja, tem
muito menos valor do que possuir-se um bom chef. E, afinal de
contas, no serve de consolao dizerem-nos que o homem que
nos ofereceu um pssimo jantar, ou um vinho de m qualidade,
tem uma vida privada irrepreensvel. As prprias virtudes
cardeais no podem resgatar entres quase frias, como uma vez
observou Lord Henry num debate sobre o assunto, e
provavelmente haver muito a dizer em abono da sua opinio. Os
cnones da boa sociedade, na verdade, so, ou deveriam ser, os
mesmos que os da arte. A forma -lhe absolutamente essencial.
Devia ter a dignidade inerente a uma cerimnia, bem como a sua
irrealidade, combinando o carcter insincero de uma pea
romntica com o esprito e a beleza que tornam essas peas to
deliciosas para ns. Ser a insinceridade assim to terrvel?
Creio que no.  simplesmente um mtodo que nos possibilita
multiplicar as nossas personalidades.


                              163


  De qualquer modo, era essa a opinio de Dorian Gray. Ficava
surpreendido com a superficialidade da psicologia daqueles que
concebem o Ego do homem como coisa simples, permanente,
fidedigna e de essncia nica. Para ele, o homem era um ser
que possui mirades de vidas e de sensaes, uma criatura
complexa e multiforme que levava dentro de si estranhas
heranas de pensamento e paixo, e cuja carne estava
contaminada pelas monstruosas doenas dos mortos. Adorava
percorrer a fria e lgubre galeria dos retratos da sua casa de
campo e contemplar os vrios retratos daqueles cujo sangue
corria nas suas veias. L estava Philip Herbert, descrito por
Francis Osborne nas suas Memrias dos Reinados da Rainha
Isabel e do Rei Jaime I, como algum que era acarinhado pela
corte pela formosura de seu rosto, que no o acompanhou por
muito tempo. A vida que por vezes levava teria sido a vida do
jovem Herbert? Teria algum germe estranho e venenoso
transitado de corpo para corpo at ter atingido o seu? Teria
sido alguma vaga sensao dessa beleza destruda que o levara,
to de sbito e aparentemente sem motivo, a proferir, no
atelier de Basil Hallward, a desvairada splica que de tal
modo modificara a sua vida? De gibo vermelho bordado a ouro,
manto ornamentado de jias, punhos e gola de orlas douradas,
ali estava Sir Anthony Sherard, com a armadura negra e
prateada aos ps. Qual teria sido o legado deixado por este
homem? O amante de Giovanna de Npoles ter-lhe-ia legado
alguma herana de pecado e infmia? Seriam os seus prprios
actos apenas os sonhos que o morto no ousara realizar? Acol,
na tela desbotada, sorria Lady Elizabeth Devereux, com sua
touca de gze, peitilho de prolas e mangas golpeadas
cor-de-rosa. Tinha uma flor na mo direita, e a mo esquerda
agarrava um colar esmaltado de rosas brancas e adamascadas. Na
mesa ao lado estavam um bandolim e uma ma. Os seus pequenos
sapatos pontiagudos ostentavam grandes rosetas verdes.
Conhecia a sua vida e as Histrias fantsticas acerca dos seus
amantes. Teria ele herdado algo do seu temperamento?


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Aqueles olhos ovais e de pesadas plpebras pareciam fit-lo
com curiosidade. E George Willoughby, de cabelo empoado e
extravagantes sinais postios? Tinha um ar to perverso! Rosto
taciturno e moreno, e nos lbios sensuais um trejeito de
desdm. Delicados folhos de renda tombavam sobre as mos
descarnadas e amarelas sobrecarregadas de anis. Fora um
peralvilho do sculo XvIII e, na sua juventude, o amigo de
Lord Ferrars. E aquele segundo Lord Beckenham, companheiro de
pndegas do Prncipe Regente e uma das testemunhas do
casamento secreto com Mrs. Fitzherbert? Que elegante e altivo,
com o cabelo castanho anelado e pose arrogante! Que paixes
lhe teria legado? Fora considerado um infame no seu tempo.
Organizara as orgias da Carlton House. A estrela da Jarreteira
cintilava-lhe no peito. A seu lado, via-se o retrato da
esposa, uma mulher plida de lbios finos, vestida de preto.
Tambm o sangue dela circulava no seu corpo. Como tudo lhe
parecia estranho! E a sua me com um rosto de Lady Hamilton, e
os lbios hmidos tingidos de vinho. Sabia o que herdara dela.
Herdara a sua beleza e a paixo pela beleza dos outros. Ela
ria-se para ele no seu vestido solto de bacante. Tinha folha
de vide nos cabelos. O roxo transbordava da taa que estava
segurando. Os rosados da tela haviam murchado, mas os olhos
eram ainda deslumbrantes no brilho e intensidade da cor.
Pareciam segui-lo para onde quer que fosse.
  Porm, na literatura, assim como na prpria famlia,
tnhamos antepassados talvez de tipo e temperamento mais
semelhantes, e de cuja influncia teramos, por certo, uma
percepo mais perfeita. Havia momentos em que toda a histria
se apresentava a Dorian Gray simplesmente como uma crnica da
sua prpria vida, no como ele a vivera em acto e
circunstncia, mas como a sua imaginao lha inventara, como
acontecera em seu crebro e suas paixes. Tinha a sensao de
as haver conhecido todas, essas estranhas e terrveis figuras
que haviam passado pelo palco do mundo, e que tornaram o
pecado to maravilhoso e o mal to pleno de subtileza.


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Parecia-Lhe que, de modo misterioso, as suas vidas haviam sido
a sua prpria vida.
  O heri do fantstico romance que exercera em sua vida
tamanha influncia tambm conhecera essa singular fantasia. No
stimo captulo, conta como ele, de coroa de louros para no
ser fulminado por um raio, se sentara, como Tibrio, num
jardim de Capri a ler os livros indecorosos de Elephantis,
enquanto anes e paves se passeavam  sua volta e o tocador
de flauta zombava do rapaz do incensrio, e, como Calgula,
embriagara-se com os jqueis de camisas verdes nas estrebarias
e ceara numa manjedoura de marfim com um cavalo de testeira
ornamentada de jias, e, fazendo de Domiciano, vagueara por um
corredor forrado de espelhos de mrmore, procurando, com olhar
desvairado, o reflexo do punhal que havia de pr termo  sua
vida, enfermando de ennui, esse terrvel taedium vitae, que se
abate sobre aqueles a quem a vida nada recusa, e, por uma
lmpida esmeralda, observara as rubras carnificinas do Circo
e, depois, em liteira de prolas e prpura puxada por mulas de
ferraduras de prata, fora transportado pela Rua das Roms at
a uma Casa do Ouro, e ouvira aclamarem Nero Csar  sua
passagem, e, agora como Heliogbalo, pintara o rosto de cores
vrias, e fiara na roca junto com as mulheres, e trouxera a
Lua de Cartago, entregando-a ao Sol em msticas npcias.
  Dorian lia vezes sem conta este fantstico captulo, e
tambm os dois captulos que se Lhe seguiam, em que, como em
estranhas tapearias ou em esmaltes habilmente trabalhados, se
representavam as formas horrendas e belas daqueles que o
vcio, e o Sangue e o Tdio haviam transformado em monstros ou
loucos, Filippo, duque de Milo, que matou a mulher e lhe
pintou os lbios com um veneno escarlate, para que o amante
sorvesse a morte do cadver que acariciava, Pietro Barbi, o
Veneziano, conhecido pelo nome de Paulo Segundo, que, devido 
sua soberba, procurou assumir o ttulo de Formoso, e cuja
tiara, avaliada em duzentos mil florins, foi comprada ao preo
de um pecado tremendo, Gian Maria Visconti,


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que utilizava ces para caar homens vivos, e cujo cadver
assassinado foi coberto de rosas por uma meretriz que o amara,
o Brgia montado em seu cavalo branco, com o Fratricdio
cavalgando ao lado, e o manto manchado com o sangue de
Perotto, Pietro Mario, o jovem cardeal-arcebispo de Florena,
filho e favorito de Sisto IV, cuja beleza s era igualada pelo
deboche, e que recebeu Leonor de Arago num pavilho de seda
branca e carmesim, cheio de ninfas e centauros, e mandou
dourar um rapaz, para que este servisse o banquete como
Ganimedes ou Hilas, Ezzelin, cuja melancolia s se curava com
o espectculo da morte, e que tinha paixo pelo vermelho do
sangue, assim como outros homens tm pelo vermelho do vinho -
filho do Demnio, como era vulgarmente designado, trapaceara o
pai aos dados quando jogava a prpria alma, Giambattista Cibo,
que por zombaria adoptou o nome de Inocente e em cujas
trpidas veias um mdico judeu infundiu o sangue de trs
rapazinhos, Sigismondo Malatesta, amante de Isotta e senhor de
Rimini, cuja efgie foi queimada em Roma como inimigo de Deus
e do homem, e que estrangulou Polyssena com um guardanapo e
envenenou Ginevra dEste por uma taa de esmeralda, e que, em
homenagem a uma paixo infame, construiu uma igreja pag para
culto cristo, Carlos VI, que amara a mulher do irmo com tal
desvario que um leproso o avisara da loucura que o havia de
acometer, e, quando o crebro entrou em delrio, s o
acalmavam cartas sarracenas em que figuravam o Amor e a Morte
e a Loucura, e, com seu gibo ornamentado, bon recamado de
jias e caracis parecendo acantos, Grifonetto Baglioni, que
matou Astorre com a noiva, e Simonetto com seu pagem, e cuja
formosura era tanta que, quando morria estendido na piazza
amarela de Perugia, os que o haviam odiado no puderam evitar
o pranto, e Atlanta, que o amaldioara, at o abenoou.
  Havia em todos eles um horror fascinante. Via-os  noite e
perturbavam-lhe a imaginao durante o dia. A Renascena
conhecia estranhos processos de envenenamento - o
envenenamento por meio de um elmo e um archote aceso, uma lua
bordada e um leque ornamentado de jias, uma dourada caixa de
aromas e uma coleira de mbar. Dorian Gray fora envenenado por
um livro. Em certos momentos, considerava o mal como um
simples meio de poder realizar a sua concepo do belo.


                         Captulo XII


     Foi a nove de Novembro, vspera do seu trigsimo oitavo
aniversrio, como depois haveria de se recordar tantas vezes.
  Deviam ser onze horas quando, depois de ter jantado com Lord
Henry, se dirigia para casa embrulhado num pesado casaco de
peles, que a noite estava fria e o nevoeiro era cerrado. 
esquina da Grosvenor Square com a South Audley Street, passou
por ele, envolto pela bruma, um homem muito apressado e com a
gola do sobretudo cinzento levantada. Levava uma mala. Dorian
reconheceu-o. Era Basil Hallward. Apoderou-se dele uma
inexplicvel sensao de medo. Fingindo que no o reconhecia,
continuou a caminhar muito depressa em direco a casa.
  Mas Hallward vira-o. Dorian ouviu-o primeiro parar no
passeio, depois a correr atrs de si. Em breves instantes, a
mo dele agarrava-lhe o brao.
  - Dorian! Que sorte fantstica! Tenho estado a aguard-lo na
sua biblioteca desde as nove horas. Por fim tive pena do seu
pobre criado e, quando me acompanhou  sada, disse-Lhe que se
fosse deitar. Vou para Paris no comboio da meia-noite, e
precisava muito de o ver antes de partir. Bem me pareceu que
era voc, ou antes o seu casaco de peles, quando passou por
mim. Mas no tinha a certeza. No me reconheceu?
  - Com este nevoeiro, meu caro Basil? Se eu nem consigo
reconhecer a Grosvenor Square! Creio que a minha casa fica
algures por aqui, mas no tenho a certeza. Tenho pena que vo
se v ausentar, pois h sculos que no o vejo. Mas vai voltar
em breve, creio?
  - No, vou ausentar-me de Inglaterra por seis meses.


                              169


Tenciono alugar um atelier em Paris e ficar l enclausurado
at acabar um grande quadro que tenho na ideia. Contudo, no
era de mim que queria falar. Ora c estamos  sua porta.
Permita-me que entre por uns minutos. Tenho uma coisa para lhe
dizer.
  - Com muito prazer. Mas no ir perder o comboio? -
perguntou Dorian Gray, languidamente, subindo os degraus e
abrindo a porta com a chave.
   luz do candeeiro, que a custo passava atravs do nevoeiro
cerrado, Hallward olhou para o relgio.
  - Tenho imenso tempo - respondeu. - O comboio no parte
antes da meia-noite e quinze, e so apenas onze horas. Eu ia
mesmo a caminho do clube procur-lo, quando o encontrei. Bem
v, no vou perder tempo com a bagagem, pois j despachei a
mais pesada. S tenho esta mala comigo, por isso consigo
chegar  estao Victoria em vinte minutos.
  Dorian olhou para ele e sorriu.
  - Que maneira de viajar para quem  pintor da moda! Com uma
mala Gladstone e um sobretudo! Vamos entrar, no v o nevoeiro
meter-se dentro de casa. Mas veja l se no fala de coisas
srias. Actualmente no h nada srio. Pelo menos, no deveria
haver.
  Hallward abanou reprovadoramente a cabea, seguindo atrs de
Dorian at  biblioteca. Na ampla lareira ardia um grande lume
de lenha. Os candeeiros estavam acesos, e, sobre uma mesinha
tauxiada, encontrava-se aberto um estojo holands de prata
para bebidas, com sifes de soda e grandes copos de cristal
lapidado.
  - Veja como o seu criado me ps completamente  vontade,
Dorian. Deu-me tudo o que eu quis, incluindo os seus melhores
cigarros de ponta dourada.  um indivduo muito amvel. Gosto
muito mais dele do que do francs que voc tinha. A propsito,
o que  feito do francs?
  Dorian encolheu os ombros.
  - Creio que casou com a criada de Lady Radley, e
estabeleceu-a em Paris como costureira inglesa.


                         170  171


Por l a Anglomanie est agora muito em moda, pelo que oio
dizer. Uma palermice dos Franceses, no acha? Mas posso
afirmar-lhe que ele no era um mau criado. Nunca gostei dele,
mas no tinha razes de queixa. s vezes imaginamos coisas
totalmente absurdas. Ele era at de uma grande dedicao, e
parecia muito penalizado quando se foi embora.
  Quer outro brandy com soda? Ou prefere vinho do Reno com
gua seltzer? Eu tomo sempre Reno com gua seltzer.
  Deve haver na sala ao lado.
  - Obrigado, no tomo mais nada - respondeu o pintor, tirando
o bon e o sobretudo e atirando-os para cima da mala, que
havia colocado a um canto. - E agora, meu caro amigo, quero
falar consigo muito a srio. No faa esse ar to aborrecido.
Asim, voc dificulta-me tudo muito mais.
  - De que se trata? - exclamou Dorian, com seu modo
petulante, atirando-se para o sof. - Espero que no seja a
meu respeito. Esta noite estou cansado de mim. Gostaria de ser
outra pessoa.
  -  a seu respeito - respondeu Hallward, na sua voz grave e
profunda -, e tenho de Lho dizer. S o vou demorar meia hora.
  Dorian suspirou, e acendeu um cigarro.
  - Meia hora! - disse em voz baixa.
  - No  pedir-Lhe muito, Dorian, e  exclusivamente para seu
bem que vou falar. Parece-me justo que voc saiba que em
Londres se dizem as coisas mais horrveis acerca de si.
  - No quero saber nada dessas coisas. Adoro os escndalos
dos outros, mas os escndalos acerca da minha pessoa no me
interessam. Falta-lhes o encanto da novidade.
  - Deviam interessar-lhe, Dorian. Todo o homem que  um
cavalheiro est interessado pelo seu bom nome. Voc no h-de
querer que falem de si como se fosse uma coisa desprezvel e
degradada.  claro que voc tem a sua posio social, e a sua
fortuna, e todas essas coisas. Mas a posio social e a
fortuna no bastam. Para dizer a verdade, no acredito de modo
algum nesses boatos. De qualquer modo, no consigo acreditar
neles quando o vejo a si.  O pecado  uma coisa que fica
estampada no rosto de um homem. No se pode ocultar. As
pessoas falam s vezes de vcios secretos. Isso so coisas que
no existem. Se um desgraado de um homem tiver um vcio, este
 visvel nas comissuras dos lbios, no descair das plpebras,
at na forma das mos. Certa pessoa, de quem no vou revelar o
nome, mas que voc conhece, veio o ano passado ter comigo para
eu lhe fazer o retrato. Nunca a vira antes, nem nunca ouvira
falar dela at ento, embora tenha ouvido muitas coisas depois
disso. Props-me um preo exorbitante. Recusei. Havia qualquer
coisa no feitio dos seus dedos que detestei. Sei agora que eu
tinha muita razo em relao ao que imaginava acerca dela.
Leva uma vida medonha. Mas voc, Dorian, com esse rosto puro,
luminoso, inocente, e a sua espantosa juventude incorrupta...
no posso acreditar em nada do que dizem contra si. E, no
entanto, vejo-o muito raramente, e voc agora nunca vai ao
atelier. Quando estou afastado de voc e oio todas essas
coisas hediondas que as pessoas segredam a seu respeito, no
sei o que dizer. Dorian, porque  que um homem como o duque de
Berwick sai da sala de um clube quando voc entra? Por que 
que muitos cavalheiros de Londres no vo visit-lo a sua
casa, nem o convidam  deles? Voc era amigo de Lord Staveley.
Encontrei-o na semana passada ao jantar. Quando o seu nome
surgiu casualmente a meio da conversa, a propsito das
miniaturas que voc emprestou para a exposio de Dudley,
Staveley fez um trejeito de desprezo, dizendo que voc teria
excelente gosto artstico, mas era um homem que nenhuma menina
de esprito ingnuo devia ser autorizada a conhecer, e com
quem nenhuma mulher honesta se deveria sentar na mesma sala.
Fiz-lhe lembrar que eu era seu amigo, e perguntei-lhe o que
pretendia dizer com aquelas insinuaes. E disse-me. Disse-mo
mesmo ali diante de toda a gente. Foi horrvel! Por que ser
que a sua amizade traz tanta desgraa aos jovens? Houve o caso
daquele infeliz rapaz da guarda real que se suicidou. Voc era
um grande amigo dele. E houve o de Sir Henry Ashton,


                              172


que teve de sair de Inglaterra, com a sua reptao manchada.
Voc e ele eram inseparveis. E que dizer de Adrian Singleton,
e do fim terrvel que teve? E o filho nico de Lord Kent e a
sua carreira? Encontrei ontem o pai na St. Jamess Street.
Parecia destroado de vergonha e desgosto. Como explica o caso
do jovem duque de Perth? Que gnero de vida  a dele agora?
Que homem de bem gostaria de andar na sua companhia?
  - Basta, Basil! Voc fala de coisas que desconhece - disse
Dorian Gray, mordendo o lbio, e com um tom de incomensurvel
desprezo na voz. - Pergunta-me por que sai Berwick da sala
quando eu entro. E porque sei tudo da vida dele, e no porque
ele saiba alguma coisa da minha. Com o tipo de sangue que lhe
corre nas veias, como poderia ter uma histria limpa? Quer
explicaes sobre Henry Ashton e o jovem Perth. Fui acaso eu
que ensinou os vcios a um, e o deboche ao outro? Se o idiota
do filho do Kent foi casar com uma mulher da rua, que tenho eu
a ver com isso? Se Adrian Singleton assina uma letra com o
nome do amigo, acaso sou seu guardio? Sei bem como  a
tagarelice em Inglaterra. As classes mdias fazem alarde dos
seus preconceitos morais durante os seus reles jantares e
dizem segredinhos sobre aquilo a que chamam a libertinagem das
classes superiores, a fim de fingir que convivem com a
sociedade distinta e que so ntimos das pessoas que difamam.
Neste pas, basta que um homem tenha distino e inteligncia
para que todas as ms lnguas o ataquem. E que vidas levam
estas mesmas pessoas que se fazem passar por modelos de
virtudes? Meu caro amigo, voc esquece-se de que vive no pas
natal dos hipcritas.
  - Dorian - exclamou Hallward -, no  essa a questo. A
Inglaterra  bastante m, eu sei, e a sociedade inglesa est
muito mal.  por esse motivo que eu quero que voc seja
perfeito. E voc no o tem sido. Temos o direito de julgar um
homem pelos efeitos que produz sobre os amigos. Os seus amigos
parecem ter perdido todo o sentido de honra, de bondade, de
pureza. Voc instilou-lhes a loucura do prazer.


                              173


Desceram ao mais fundo da degradao. Foi voc que os levou
at l. Sim, foi voc, e, entretanto, consegue sorrir, como
est a sorrir agora. E h pior ainda. Sei que voc e o Harry
so inseparveis. De certo, por essa razo, se no for por
mais nenhuma, voc no deveria ter posto a ridculo o nome da
irm.
  - Tome cuidado, Basil. Est a ir longe demais.
  - Eu tenho de falar, e voc tem de ouvir: E h-de ouvir.
Quando conheceu Lady Gwendolen, ela nunca fora atingida por
nenhum sopro de escndalo. Haver em Londres uma nica mulher
honesta que queira agora andar de carruagem com ela no Parque?
Ora se at nem permitem que os filhos vivam com ela. Depois h
ainda outras histrias... que o viram de madrugada a sair
furtivamente de tugrios horrendos e a introduzir-se
sorrateiramente, e disfarado, nos mais srdidos antros de
Londres. Sero verdadeiras? Ser possvel que o sejam? Quando
as ouvi pela primeira vez, limitei-me a rir. Ao ouvi-las
agora, estremeo de horror. E que se passa com a sua casa de
campo, e a vida que l se leva? Dorian, voc nem sabe o que
dizem de si. No lhe direi que no lhe quero pregar um sermo.
Lembro-me de uma vez o Harry dizer que sempre que um homem
fazia de padre amador por um instante comeava sempre por
dizer isso, e depois passava a faltar  palavra. Eu quero
mesmo pregar-lhe um sermo. Quero que leve um estilo de vida
que Lhe granjeie o respeito do mundo. Quero que tenha um nome
impoluto e uma histria sem mancha. Quero que se afaste da
companhia das pessoas horrendas com quem convive. No encolha
os ombros, nem se mostre to indiferente. Voc tem um
fantstico poder de influncia. Utilize-o para o bem, e no
para o mal. Dizem que corrompe todos aqueles de quem se torna
ntimo, e que basta que entre numa casa para que, logo a
seguir, acontea uma infmia. No sei se  verdade, ou no.
Como hei-de saber? Mas  o que dizem de si. Contam-me coisas
de que, ao que parece,  impossvel duvidar. Lord Gloucester
foi um dos meus maiores amigos dos tempos de Oxford.


                              174


Mostrou-me uma carta que a esposa lhe escrevera quando estava
a morrer, sozinha, na sua villa de Menton. O seu nome, Dorian,
aparecia envolvido na mais terrvel confisso que alguma vez
li. Disse-lhe que isso era absurdo, que o conhecia
perfeitamente, e que voc seria incapaz desse tipo de coisas.
Conhec-lo? Ser que o conheo? Antes de poder responder,
gostaria de ver a sua alma.
  - Ver a minha alma! - balbuciou Dorian Gray, levantando-se
sobressaltado, quase lvido de medo.
  - Sim - respondeu Hallward, com certa gravidade e uma
profunda tristeza na voz -, ver a sua alma. Mas s Deus o pode
fazer.
  Uma risada amarga e escarninha irrompeu dos lbios do mais
jovem.
  - H-de v-la voc mesmo, esta noite! - gritou ele,
agarrando num candeeiro de cima da mesa. - Venha:  a obra
feita pelas suas prprias mos. Por que no h-de
contempl-la? Depois pode falar dela ao mundo, se quiser
Ningum iria acreditar em si. Se acreditassem, ficariam ainda
mais a gostar de mim. Conheo melhor do que voc a nossa
poca, apesar de voc dissertar sobre ela de maneira to
enfadonha. Venha, digo-Lhe. Voc papagueou bastante sobre
corrupo. Pois agora vai olh-la cara a cara.
  Cada palavra que proferia tinha o delrio da arrogncia.
Batia com o p no cho, com seus modos insolentes de
rapazinho. Sentia uma alegria tremenda s de pensar que mais
algum ia partilhar do seu segredo, e que o autor do retrato
que estava na origem de toda a sua vergonha havia de carregar
para o resto da vida com o peso da memria hedionda da sua
obra.
  - Sim - prosseguiu ele, aproximando-se mais do pintor, e sem
desviar os olhos do seu olhar severo. - Vou mostrar-lhe a
minha alma. H-de ver aquilo que imagina que s Deus pode ver.
  Hallward recuou.
  - Isso  uma blasfmia, Dorian! - gritou. - No deve dizer
essas coisas. So terrveis e no significam nada.


                              175


  - Acha?
  E riu de novo.
  - Acho... E sei. Quanto ao que lhe disse esta noite, fi-lo
para seu bem. Bem sabe que tenho sido sempre um amigo
dedicado.
  - No quero que me toque. Acabe o que tem a dizer.
  O rosto de Hallward contraiu-se num breve esgar de dor.
Deteve-se um instante, e arrebatou-o um sentimento de piedade.
Afinal, que direito tinha ele de se imiscuir na vida de Dorian
Gray? Se ele fizera um dcimo do que se dizia nos boatos que
corriam, quanto devia ter sofrido! Depois endireitou-se, e,
aproximando-se da lareira, quedou-se a olhar para as achas
incandescentes, cobertas pela sua geada de cinzas e
esbraseadas pelas suas chamas crepitantes.
  - Estou  espera, Basil - disse o jovem, em voz dura e
ntida.
  O pintor voltou-se.
  - O que tenho a dizer  o seguinte - exclamou. - Tem de me
dar respostas s acusaes horrendas feitas contra si. Se me
disser que so inteiramente falsas do princpio ao fim, eu
acredito. Negue-as, Dorian, negue-as! No v como sofro? Meu
Deus! No me diga que voc  mau, e corrupto, e ignbil...
  Dorian Gray sorriu. Os lbios contraam-se num trejeito de
desdm.
  - Acompanhe-me l acima, Basil - disse ele calmamente. -
Registo dia a dia o dirio da minha vida, e nunca sai do
quarto em que o escrevo. Posso mostrar-Lho se vier comigo.
  - Vou consigo, Dorian, se assim o desejar. Vejo que perdi o
comboio. No importa. Posso ir amanh. Mas no me pea para
ler alguma coisa esta noite. Quero apenas uma resposta franca
 minha pergunta.
  - Ser-Lhe- dada l em cima. No poderia d-la aqui. E no
perder muito tempo a ler.



                         Captulo XIII


     Saiu da sala, e comeou a subir, com Basil Hallward
seguindo logo atrs de si. Subiam com passos silenciosos, como
os homens fazem instintivamente  noite. O candeeiro
projectava sombras grotescas na parede e nas escadas.
Ouviam-se algumas janelas a bater, sacudidas pelo vento que se
levantara.
  Quando chegaram ao ltimo patamar, Dorian pousou o candeeiro
no cho, tirou a chave do bolso e f-la rodar na fechadura.
  - Insiste em querer saber, Basil? - perguntou, sussurrando.
  - Sim, insisto.
  - Muito me apraz - respondeu, sorrindo. Depois, acrescentou
rispidamente: -  o nico homem do mundo que tem o direito de
saber tudo acerca de mim. Voc teve mais influncia na minha
vida do que possa imaginar.
  E, pegando no candeeiro, abriu a porta e entrou. Passou por
eles uma corrente de ar frio, fazendo levantar bruscamente a
chama, que tomou uma tonalidade de um laranja-escuro. O rapaz
estremeceu.
  - Feche a porta - sussurrou, pousando o candeeiro na mesa.
  Hallward olhou  sua volta, perplexo. O quarto parecia no
ter sido habitado havia muitos anos. Uma desbotada tapearia
flamenga, um quadro encoberto por uma cortina, um velho
cassone italiano e uma estante quase vazia eram, ao que
parecia, todo o contedo do quarto, alm de uma cadeira e uma
mesa. Quando Dorian Gray acendeu o resto de uma vela que
estava no rebordo da chamin, viu que estava tudo coberto de
p e que o tapete se encontrava todo  esburacado. Ouvia-se um
rato  bulha por detrs dos lambris. Cheirava a bafio e bolor.
  - Pensa ento que s Deus pode ver a alma, Basil? Afaste
essa cortina, e ver a minha.
  A voz que assim falava era fria e cruel.
  - Voc enlouqueceu, Dorian, ou ento est a representar -
murmurou Hallward, de sobrolho franzido.
  - No quer? Ento afasto-a eu - dsse o jovem, e puxou a
cortina, atirando-a ao cho.
  O artista gritou horrorizado, quando viu, na
semiobscuridade, a face hedionda da tela que para ele sorria
com um esgar. Havia qualquer coisa naquela expresso que lhe
provocava repulsa e nojo. Deus do Cu! Tinha mesmo  sua
frente a cara de Dorian Gray! O horror, por muito grande que
fosse, no completar os seus estragos naquela beleza
deslumbrante. Havia ainda reflexos dourados no cabelo ralo e
um vivo rubor na boca sensual. Os olhos mortios haviam
conservado um pouco da beleza do azul, e no se havia
desvanecido toda a nobreza das curvas perfeitas das narinas e
da flexibilidade do pescoo. Sim, era Dorian, sem dvida. Mas
quem fizera aquilo? Parecia reconhecer as suas pinceladas, e a
moldura era a que ele desenhara. Era uma ideia monstruosa, mas
no deixava de sentir medo. Pegou na vela acesa e aproximou-a
do retrato. No canto esquerdo via-se o seu nome, em grandes
letras traadas a vermelho vivo.
  Tratava-se de uma imitao torpe, de uma stira infame e
ignbil. Ele nunca fizera aquilo. No entanto, era de facto o
seu quadro! Sabia que era, e tinha a sensao de que o calor
do seu sangue passara rapidamente para um gelo de morte. O seu
prprio quadro! Que significava isto? Por que se alterara?
Voltou-se, e olhou para Dorian Gray com o olhar de um homem
perturbado. A boca contorcia-se, e a lngua ressequida parecia
incapaz de articular qualquer som. Passou a mo pela testa.
Estava hmida de um suor pegajoso.
  O jovem estava encostado ao rebordo da chamin, a observ-lo
com uma expresso singular,


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que se v nos rostos dos que se encontram absorvidos por uma
pea de teatro quando est em cena um grande actor. No
manifestava tristeza, nem alegria. To-somente a paixo do
espectador, divisando-se talvez um certo relampejo de triunfo
nos olhos. Tirara a flor da lapela do casaco, e cheirava-a, ou
fingia cheirar.
  - O que significa isto? - exclamou, por fim, Hallward, a
quem a prpria voz soava aguda e estranha.
  - H anos, era eu um rapaz - disse Dorian Gray, esmagando a
flor na mo -, voc conheceu-me, lisonjeou-me, e ensinou-me a
ter vaidade da minha beleza. Um dia, apresentou-me a um amigo
seu, que me esclareceu sobre a maravilha da juventude.
Entretanto, voc terminou o meu retrato que revelava a mim
prprio a magia da beleza. Num momento de loucura que, ainda
agora, no sei se lamente ou no, formulei um desejo, talvez
se Lhe pudesse chamar uma prece...
  - Eu lembro-me! Ah! Lembro-me to bem! No, isso 
impossvel! O quarto  hmido. Foi o bolor que se infiltrou na
tela. As tintas que utilizei teriam algum pssimo veneno
mineral. Digo-Lhe que isso  impossvel.
  - Mas o que ser impossvel? - murmurou o jovem,
aproximando-se da janela e encostando a fronte contra a
vidraa fria e embaciada.
  - Voc disse-me que o destrura.
  - Fiz mal. Ele  que me destruiu.
  - No acredito que seja este o meu quadro.
  - No vislumbra nele o seu ideal? - perguntou Dorian, com
amargura.
  - O meu ideal, como voc lhe chama...
  - Como voc lhe chamou.
  - No tinha nada de mal, nada de ignbil. Voc representava
para mim um ideal como jamais voltarei a encontrar. Este  o
rosto de um stiro.
  -  o rosto da minha alma.
  - Cus! Que coisa havia eu de adorar! Tem os olhos de um
demnio.


                              179


  - Cada um de ns tem dentro de si o Cu e o Inferno, Basil -
gritou Dorian, esboando um desvairado gesto de desespero.
  Hallward voltou-se de novo para o retrato, e fitou-o com
assombro.
  - Meu Deus! Se for verdade - exclamou -, e isto representar
o que fez da sua vida, ento voc deve ser ainda pior do que
imaginam aqueles que contra si falam!
  Levantou a vela para iluminar novamente o quadro, e
examinou-o. A superfcie parecia inalterada, tal como a
deixara. Era de dentro que, manifestamente, a fealdade e o
horror se haviam alastrado. Atravs de algum estranho
despertar de vida interior, a lepra do pecado ia lentamente
devorando o retrato. A putrefaco de um cadver numa cova
hmida no era to horrenda.
  A mo tremeu-lhe, e a vela tombou do bocal para o cho, onde
ficou a espirrar cera. Ps-lhe o p em cima e apagou-a.
Depois, sentou-se desamparado na frgil cadeira que estava
junto da mesa e ps a cara entre as mos.
  - Santo Deus, Dorian, que lio! Que terrvel lio!
  No obteve resposta, mas ouvia o jovem a soluar junto 
janela.
  - Reze, Dorian, reze - disse baixinho. - O que  que nos
ensinaram a rezar na nossa meninice? No nos deixeis cair em
tentao. Perdoai-nos os nossos pecados. Livrai-nos do mal.
Vamos diz-la juntos. A prece do seu orgulho foi atendida.
Tambm ser atendida a prece do seu arrependimento. Eu
adorei-o demasiado. Ambos fomos castigados.
  Dorian Gray voltou-se lentamente, e fitou-o, os olhos
marejados de lgrimas.
  - Agora  tarde demais, Basil - balbuciou.
  - Nunca  tarde demais, Dorian. Ajoelhemo-nos e vamos tentar
lembrar-nos de uma orao. No h um versculo que diz:
"Embora os teus pecados sejam negros, torn-los-ei brancos
como a neve"?
  - Essas palavras agora nada significam para mim.


                         180  181


  - Cale-se! No diga isso. J fez bastante mal na sua vida.
Meu Deus! No v aquela coisa maldita a deitar-nos um olhar
to maligno?
  Dorian Gray olhou o quadro de relance e, de sbito,
apoderou-se dele um desenfreado sentimento de dio por Basil
Hallward, como se lhe houvesse sido sugerido pela imagem da
tela, segredado ao ouvido por aqueles lbios arreganhados num
sorriso. Ferviam dentro de si as paixes violentas de um
animal acossado, e abominou o homem sentado  mesa, mais do
que abominara o que quer que fosse em toda a sua vida.
Alucinado, olhou rapidamente em redor. Viu qualquer coisa
reluzente sobre a arca pintada que estava mesmo em frente.
Sabia o que era. Uma faca que trouxera uns dias antes para
cortar um pedao de corda, e que se esquecera de levar.
Aproximou-se dela devagar, passando perto de Hallward. Assim
que se encontrou atrs dele, agarrou-a e voltou-se
rapidamente. Hallward mexeu-se na cadeira, como se fosse
levantar-se. Precipitou-se sobre ele, e enterrou-lhe a faca na
jugular por detrs da orelha. Comprimindo a cabea do homem
contra a mesa, espetou a faca repetidas vezes.
  Ouviu-se um gemido abafado, e o som horrvel de algum
sufocado pelo sangue. Por trs vezes os braos esticados
ergueram-se convulsivamente, agitando no ar as mos grotescas
de dedos hirtos. Esfaqueou-o mais duas vezes, mas o homem j
no se mexia. Comeou a escorrer qualquer coisa para o cho.
Esperou um pouco, continuando a empurrar a cabea para baixo.
Depois, atirou a faca para cima da mesa, e ficou  escuta.
  S ouvia o gotejar sobre o tapete pudo. Abriu a porta e
saiu para o patamar. A casa estava em absoluto silncio. No
andava por ali ningum. Durante uns segundos deteve-se
debruado na balaustrada, a perscrutar o negro abismo
fervilhante das trevas. Tirou ento a chave do bolso e voltou
para o quarto, trancando-se em seguida.
  Aquilo continuava sentado na cadeira, contorcido por cima da
mesa, a cabea pendida, as costas curvadas, os braos longos e
grotescos. No fora o rasgo vermelho golpeado no pescoo, e a
poa escura coagulada a alastrar-se lentamente pela mesa,
dir-se-ia que o homem estava apenas adormecido.
  Fora tudo to rpido! Sentia uma calma surpreendente, e,
aproximando-se da porta envidraada, abriu-a e saiu para a
varanda. O vento dissipara o nevoeiro, e o cu parecia a cauda
de um gigantesco pavo constelado de mirades de olhos
dourados. Olhou para baixo e viu o polcia no seu giro a
incidir o longo feixe de luz da lanterna nas portas das casas
adormecidas. A mancha carmesim de um fiacre errante rutilou 
esquina para, em seguida, desaparecer. Uma mulher de xale
esvoaante arrastava-se vagarosamente junto ao gradeamento,
cambaleando. De vez em quando parava e olhava para trs. Uma
vez, comeou a cantar numa voz rouca. O polcia abeirou-se
dela e disse-lhe qualquer coisa. Ela riu-se, e afastou-se, no
mesmo andar cambaleante. Uma forte rajada de vento varreu a
Praa. A chama dos candeeiros bruxuleou e ficou azul, e as
rvores nuas balouaram os seus ramos escuros e robustos. Ele
sentiu um arrepio e voltou para dentro, fechando de imediato a
porta da varanda.
  Chegou  porta do quarto, rodou a chave e abriu-a. Nem
sequer olhou para o homem assassinado. Tinha a sensao de que
o segredo de tudo o que sucedera estaria em no se aperceber
da situao. O amigo que pintara o retrato fatdico, ao qual
se devia toda a sua desgraa, sara da sua vida. E isso
bastava.
  Depois, lembrou-se do candeeiro. Era um trabalho mourisco
bastante original, de prata fosca com incrustaes de ao
polido, e cravejado de turquesas por lapidar. O criado poderia
notar a sua falta, o que daria azo a perguntas. Hesitou um
pouco, depois voltou atrs e levantou-o da mesa. No pde
deixar de ver o morto. Como estava imvel! Que horrivelmente
brancas estavam as suas mos esguias! Parecia uma assustadora
imagem de cera.


                         182  183


  Depois de ter trancado a porta ao sair, esgueirou-se pelas
escadas de mansinho. A madeira rangeu, como um grito de dor.
Parou vrias vezes, e ficou atento. No era nada, estava tudo
em silncio. Era apenas o som dos seus prprios passos.
  Quando chegou  biblioteca, viu ao canto a mala e o
sobretudo. Era foroso escond-los. Abriu a porta de um
armrio secreto disfarado nos lambris, onde costumava guardar
os seus estranhos disfarces, e colocou-os a. Teria
oportunidade de os queimar mais tarde. Depois puxou do
relgio. Faltavam vinte minutos para as duas da manh.
  Sentou-se, e ps-se a pensar. Todos os anos, mesmo quase
todos os meses, enforcavam-se homens em Inglaterra por aquilo
que acabara de fazer. Pairava no ar uma fria assassina.
Alguma estrela rubra que se aproximara demasiado da terra...
E, no entanto, que provas havia contra ele? Basil Hallward
sara desta casa s onze. Ningum o vira voltar a entrar. A
maior parte dos criados encontrava-se em Selby Royal. O seu
criado pessoal fora-se deitar... Paris! Era isso mesmo. Foi
para Paris que Basil viajara, e no comboio da meia-noite, como
era sua inteno. Devido aos seus singulares hbitos de
discrio, passar-se-iam meses antes que se levantasse
qualquer suspeita. Meses! Podia fazer desaparecer tudo muito
antes disso.
  Ocorreu-lhe de repente uma ideia. Vestiu o casaco de peles,
ps o chapu e dirigiu-se para o vestbulo. A parou, a ouvir
l fora os passos vagarosos e pesados do polcia no passeio, e
a ver o claro do foco reflectido na janela. Ficou  espera,
de respirao suspensa.
  Pouco tempo depois, puxou a lingueta da fechadura e saiu
rapidamente, fechando a porta sem fazer rudo. Em seguida,
comeou a tocar  campainha. Passados uns cinco minutos,
apareceu-lhe o criado, meio vestido e com ar estremunhado.
  - Desculpe t-lo obrigado a acordar, Francis - disse ele ao
entrar -, mas esqueci-me da chave da porta. Que horas so?
  - Duas e dez, senhor - respondeu o homem, olhando para o
relgio e a pestanejar.
  - Duas e dez? To tarde! Acorde-me s nove. Tenho que fazer.
  - Muito bem, senhor.
  - Apareceu alguma visita esta noite?
  - Mr. Hallward, senhor: Esteve aqui at s onze, e depois
foi-se embora para apanhar o comboio.
  - Oh! Que pena no o ter visto. Deixou algum recado?
  - No, senhor. S disse que escreveria de Paris, se no
encontrasse o senhor no clube.
  -  tudo, Francis. No se esquea de me acordar s nove.
  - No esqueo, senhor.
  O homem retirou-se, arrastando os chinelos pelo corredor.
  Dorian Gray atirou com o casaco e o chapu para cima da
mesa, e dirigiu-se para a biblioteca. Durante um quarto de
hora, passeou de um lado para o outro, pensativo.
  Depois, tirou de uma das prateleiras o Livro Azul e ps-se a
folhe-lo. Alan Campbell, 152, Hertford Street, Mayfair. C
estava. Era esse o homem de que iria precisar.



                         Captulo XIV


     s nove da manh, o criado entrou com uma chvena de
chocolate num tabuleiro, e abriu as portadas das janelas.
Dorian dormia tranquilamente, deitado sobre o lado direito,
com a mo sob a face. Parecia um rapazinho cansado de brincar,
ou de estudar.
  O criado teve de lhe tocar duas vezes no ombro para o
acordar. Quando abriu os olhos, perpassou-lhe pelos lbios um
leve sorriso, como se tivesse andado perdido num sonho
delicioso. Porm, no tivera sonho algum. O seu sono no fora
perturbado por imagens de prazer, nem de dor. Mas a mocidade
ri sem motivo.  um dos seus principais encantos.
  Voltou-se e, apoiado no cotovelo, comeou a tomar o seu
chocolate. O brando sol de Novembro entrava a jorros no
quarto. O cu estava luminoso, e o ar era clido e suave.
Quase como numa manh de Maio.
  A pouco e pouco, com ps silenciosos e tintos de sangue, os
acontecimentos da noite anterior insinuavam-se-Lhe no crebro,
e reconstituam-se a com uma nitidez tremenda. Estremeceu ao
recordar tudo o que sofrera, e, por um breve momento, tornou a
sentir a estranha averso que o levara a matar Basil Hallward,
quando este se encontrava sentado na cadeira, e gelou com a
emoo sentida. O morto ainda l estava sentado e, agora, ao
sol. Que horrvel! Essas coisas medonhas pertenciam s trevas,
e no  claridade.
  Sentiu que se cismasse naquilo por que passara ficaria
doente ou louco. Certos pecados possuem mais fascnio na
memria do que no prprio acto de os cometer, estranhos
triunfos que satisfaziam mais o orgulho do que as paixes, e
que proporcionavam ao intelecto uma intensa sensao  de
jbilo, maior do que qualquer jbilo que trouxessem, ou
pudessem trazer, aos sentidos. Mas este era de natureza
diferente. Essa coisa tinha de ser afastada da mente, ou
narcotizada com papoilas, ou estrangulada, no fosse ela a
estrangular.
  Quando soou a meia hora, passou a mo pela testa, e depois
levantou-se rapidamente. Vestiu-se com mais esmero do que
habitualmente, escolhendo meticulosamente a gravata e o
alfinete, e mudando vrias vezes de anis. Tomou o
pequeno-almoo demoradamente, saboreando os diversos pratos,
falando com o seu criado a propsito das novas librs que
pensava mandar fazer para os criados de Selby, e passando os
olhos pela correspondncia. Umas cartas fizeram-no sorrir.
Outras aborreceram-no. Houve uma que leu repetidas vezes, a
seguir rasgou-a, com um leve ar de enfado. Que coisa horrvel,
a memria de uma mulher! como uma vez dissera Lord Henry.
  Depois de ter bebido o caf, limpou vagarosamente os lbios
ao guardanapo, fez sinal ao criado que esperasse, e sentou-se
 mesa a escrever duas cartas. Meteu uma no bolso e entregou a
outra ao criado.
  - Francis, leve esta carta ao n.o 152 da Hertford Street, e
se Mr. Campbell no estiver em Londres, veja se consegue o seu
endereo.
  Assim que ficou s, acendeu um cigarro e comeou a desenhar,
num pedao de papel, primeiro flores e esboos de
arquitectura, e depois rostos. Subitamente, notou que cada
rosto que desenhava parecia ter uma parecena extraordinria
com Basil Hallward. De semblante carregado, levantou-se e
dirigiu-se  estante, de onde tirou um volume ao acaso. Estava
decidido a no pensar no que Lhe acontecera, salvo quando
fosse absolutamente necessrio.
  Depois de estendido no sof, olhou para o ttulo do livro:
Era Emaux et Cames, de Gautier, uma edio Charpentier em
papel japons, com uma gua-forte de Jacquemart. Estava
encadernado em pele verde-limo, com um desenho dourado de
entrelaados e semeado de roms.


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  Fora-Lhe oferecido por Adrian Singleton. Ao virar as
pginas, deparou com um poema sobre a mo de Laenaire, 
glida mo amarela du supplice encore mal lave, de penugentos
plos arruivados e doigts de faune. Olhou para os seus dedos
brancos e esguios com um arrepio involuntrio, e continuou a
folhear o livro, at chegar quelas preciosas estrofes sobre
Veneza:


     Sur une gamme chromatique,
     Le sein de perles ruisselant,
     La Vnus de l'Adriatique
     Sort de l'eau son corps rose et blanc.

     Les domes, sur l'zur des ondes
     Suivant la phrase au pure contour,
     S'enflent comme des gorges rondes
     Que soulve un soupir d'amour.

     L'esquife aborde et me dpose
     Jetant son amarre au pilier,
     Devant une faade rose,
     Sur le marbre d'un escalier.


  Que belas! Ao ler estas estrofes, tinha-se a sensao de
deslizar pelos verdes canais da cidade prola e rosa, sentados
em negra gndola de proa prateada e de cortinas a arrastar. Os
simples versos pareciam-lhe aquelas linhas rectas de cor
azul-turquesa que nos seguem quando se sai do Lido. Os sbitos
lampejos coloridos faziam-lhe lembrar o fulgor das aves de
irisado pescoo opalino que esvoaam em redor do alto
Campanile alveolado, ou se passeiam com majestosa graciosidade
pelas arcadas sombrias e poeirentas. Recostado, de olhos
semicerrados, repetia vezes sem conta:


     Devant une faade rose,
     Sur le marbre dun escalier.


                              187


  Toda a Veneza estava naqueles dois versos. Recordou-se do
Outono que l passara, e de um amor maravilhoso que o
arrastara para delirantes e maravilhosas loucuras. Havia
aventuras amorosas em toda a parte. Mas Veneza, tal como
Oxford, conservara o cenrio romanesco, e, para o verdadeiro
romntico, o cenrio era tudo, ou quase tudo. Basil estivera
com ele durante parte desse tempo, e ficara louco por
Tintoretto. Pobre Basil! Que maneira horrvel de um homem
morrer!
  Suspirou e, pegando de novo no livro, procurou esquecer. Leu
sobre as andorinhas que voam para dentro e fora de um pequeno
caf de Esmirna, onde os hadjis se sentam a desfiar as suas
contas de mbar, e os mercadores de turbante fumam os seus
longos cachimbos de borlas e conversam com certa gravidade uns
com os outros, leu sobre o Obelisco da Praa da Concrdia, que
chora lgrimas de granito em seu exlio solitrio e sem sol, e
anseia por regressar ao calor do Nilo coberto de ltus, onde
h esfinges, e bis de um rosa vivo, e abutres brancos de
garras douradas, e crocodilos de pequenos olhos de berilo que
se arrastam pelo lodo verde e fumegante, ps-se a meditar
naqueles versos que, extraindo msica do mrmore manchado de
beijos, falam daquela esttua singular que Gautier compara a
uma voz de contralto, o monstre charmant que jaz na sala de
prfiro do Louvre.
  Mas, passado algum tempo, o livro caiu-Lhe das mos. Tomado
de um pavoroso acesso de terror, comeou a sentir-se nervoso.
E se Alan Campbell se tivesse ausentado de Inglaterra? S
poderia regressar depois de terem passado alguns dias. Talvez
recusasse vir. Nesse caso, que poderia ele fazer? Cada momento
que passava era de vital importncia. Haviam sido amigos cinco
anos atrs, amigos inseparveis at. Depois a intimidade entre
eles terminara abruptamente. Quando agora se encontravam em
convvios sociais, Dorian Gray era o nico que sorria, Alan
Campbell nunca sorria.


                         188  189


  Era um jovem extremamente inteligente, embora no tivesse
verdadeiro apreo pelas artes visuais, e a reduzida
sensibilidade pela beleza da poesia devia-se inteiramente a
Dorian. A sua paixo intelectual predominante era votada 
cincia. Em Cambridge, passara grande parte do seu tempo a
trabalhar no laboratrio, e tivera uma boa classificao no
exame final de Cincias da Natureza. Na verdade, ainda se
dedicava ao estudo da qumica, e tinha um laboratrio s seu,
onde costumava encafuar-se o dia inteiro, para grande
desespero da me, que se empenhara na sua candidatura ao
Parlamento e tinha uma vaga ideia de que um qumico era uma
pessoa que fazia receitas. Ele era, todavia, tambm excelente
msico, e tocava violino e piano melhor do que numerosos
amadores. De facto, foi a msica que aproximou os dois, ele e
Dorian Gray, a msica, e aquela atraco indizvel que Dorian
parecia saber exercer sempre que desejava, mas que chegava
tambm a ser exercida inconscientemente. Tinham travado
conhecimento em casa de Lady Berkshire na noite em que
Rubenstein dera l um concerto, e depois disso costumavam ser
vistos juntos na pera e onde quer que se tocasse boa msica.
A intimidade entre eles durou dezoito meses. Campbell estava
sempre em Selby Royal ou na Grosvenor Square. Para ele, assim
como para muitos outros, Dorian Gray era o modelo de tudo o
que  maravilhoso e fascinante na vida. Se houvera, ou no,
uma desavena entre eles, ningum sabia. Mas, de repente, as
pessoas notaram que eles mal se falavam quando se encontravam,
e que Campbell parecia retirar-se sempre cedo de qualquer
reunio social em que Dorian estivesse presente. E tambm se
modificara: s vezes estava inexplicavelmente melanclico,
quase parecia detestar ouvir msica, e nunca mais tocara,
desculpando-se, quando a isso se via obrigado, com a falta de
tempo para praticar, pois a cincia absorvia-o muito. E isto
era mesmo verdade. Parecia interessar-se cada vez mais por
biologia, e o seu nome apareceu uma ou duas vezes em algumas
revistas cientficas, associado a determinadas experincias
curiosas.
  Era este o homem que Dorian Gray aguardava. A cada segundo
olhava para o relgio.  medida que os minutos avanavam, ia
ficando tremendamente agitado. Por fim, levantou-se e comeou
a passear na sala, de um lado para o outro, parecendo qualquer
coisa de muito belo dentro de uma jaula. Dava longas passadas
furtivamente. Tinha as mos geladas.
  A expectativa tornava-se insuportvel. O tempo parecia
arrastar-se com ps de chumbo, enquanto ele era arrastado por
ventos monstruosos para a berma escarpada da negra fenda de um
precipcio. Sabia o que o esperava l, chegava mesmo a v-lo,
e, a tremer, pressionava com as mos hmidas de suor as
plpebras escaldantes, como se quisesse roubar a viso ao
prprio crebro e empurrar os globos oculares para o fundo das
rbitas. Era intil. O crebro tinha alimento prprio que o
sustentava, e a imaginao, que o terror tornava grotesca,
enroscada e distorcida como ser vivo em sofrimento, danava
como uma marioneta imunda sobre um estrado, e arreganhava os
dentes atravs de mscaras mveis. Depois, subitamente, o
Tempo parou. Sim, aquela coisa cega, de lento arfar, j no se
arrastava, e os pensamentos medonhos, agora que o Tempo estava
morto, correram ligeiros e puxaram para fora da sepultura um
futuro hediondo, e mostraram-Lho. Ele fitou-o, petrificado de
horror.
  Por fim, abriu-se a porta e o criado entrou. Dorian
volveu-lhe um olhar vago.
  - Chegou Mr. Campbell, senhor - disse o criado.
  Um suspiro de alvio brotou-lhe dos lbios ressequidos, e as
faces retomaram cor.
  - Pea-lhe que entre imediatamente, Francis.
  Sentia-se de novo senhor de si. O acesso de cobardia
passara.
  O criado saiu, com uma vnia. Pouco depois, entrou Alan
Campbell, de semblante severo e um pouco plido, uma palidez
realada pelo cabelo negro e pelas sobranceLhas escuras.


                              190


  - Alan! Que gentileza da sua parte. Obrigado por ter vindo.
  - Era minha inteno nunca mais voltar a entrar em sua casa,
Gray. Mas disse que era um caso de vida e de morte. - A voz
era dura e fria. Falava com lenta deliberao. Havia desprezo
no olhar firme e perscrutador que lanou a Dorian. Tinha as
mos metidas nos bolsos do casaco de astrac, parecendo
ignorar o gesto de cumprimento com que fora recebido.
  - Sim,  um caso de vida e de morte, Alan, e que envolve
mais de uma pessoa. Sente-se.
  Campbell sentou-se numa cadeira perto da mesa, e Dorian
sentou-se do outro lado. Os olhos dos dois homens cruzaram-se.
Nos de Dorian havia uma piedade infinita. Sabia que o que ia
fazer era terrvel.
  Aps um momento de tenso e silncio, inclinou-se para a
frente e falou com grande serenidade, mas observando o efeito
de cada palavra no rosto daquele que mandara chamar.
  - Alan, num quarto trancado do ltimo andar desta casa, um
quarto a que ningum tem acesso seno eu, est um morto
sentado a uma mesa. Morreu h precisamente dez horas. No se
enerve, nem me olhe assim. Quem  este homem, por que motivo e
como morreu so assuntos que lhe no interessam. O que voc
tem de fazer ...
  - Basta, Gray. No quero saber mais nada. Seja verdade ou
mentira, o que me contou no me diz respeito. Recuso
absolutamente envolver-me na sua vida. Guarde para si os seus
segredos horrendos. No me interessam mais.
  - Alan, vo ter de Lhe interessar. Este ter de Lhe
interessar. Lamento muito, Alan.  que eu no posso resolver
nada sozinho. Voc  o nico homem que me pode salvar. Vejo-me
obrigado a met-lo no caso. No me resta outra soluo. Alan,
voc  um homem de cincia, sabe qumica, e coisas do gnero.
Fez experincias. O que voc tem de fazer  destruir aquilo
que est l em cima, destru-lo para que no fique vestgio
algum. Ningum viu essa pessoa entrar c em casa.


                              191


Na verdade, presentemente supem que est em Paris. S daqui a
alguns meses notaro a sua falta. Quando isso acontecer, no
quero que encontrem aqui nenhum sinal da sua passagem. Voc,
Alan, deve reduzi-lo, e tudo o que lhe pertence, a um punhado
de cinzas que eu possa dispersar.
  - Voc est louco, Dorian.
  - Ah! Eu estava  espera que me tratasse por Dorian.
  - Digo-Lhe que voc est louco, louco ao imaginar que eu
levantaria um dedo para o ajudar, louco por fazer essa
confisso monstruosa. No terei nada a ver com esse assunto,
seja qual for. Julga que vou arriscar a minha reputao por
voc? No me interessa a maquinao diablica que voc anda a
congeminar.
  - Foi suicdio, Alan.
  - Antes isso. Mas quem o induziu a faz-lo? Voc, calculo
eu.
  - Continua a recusar fazer-me isto?
  - Com certeza. No quero ter absolutamente nada a ver com o
caso. -me indiferente que se cubra de ignomnia. Voc
merece-a. No me afligiria v-lo cair em desgraa na praa
pblica. Como ousa pedir-me, e logo a mim, que me envolva
neste horror? Sempre pensei que voc conhecesse melhor o
carcter das pessoas. O seu amigo Lord Henry Wotton no lhe
deve ter ensinado muito de psicologia, por muito que Lhe
tivesse ensinado. No h nada que me convena a dar um passo
para o ajudar. Veio bater a m porta. Dirija-se aos seus
amigos. No a mim.
  - Foi assassnio, Alan. Matei-o. Voc no sabe o que ele me
fez sofrer. Seja como for, ele teve mais influncia na
formao ou na destruio da minha vida do que o pobre do
Harry. Ainda que no tenha sido essa a sua inteno, o
resultado foi o mesmo.
  - Assassnio! Meu Deus, Dorian, foi a isso que voc chegou?
No o denunciarei. No me diz respeito. Alis, mesmo que eu
no toque no assunto, tenho a certeza de que voc ir preso.


                         192  193


No h ningum que cometa um crime sem fazer qualquer
estupidez. Mas no terei nada a ver com isso.
  - Ter de ter. Espere, espere um pouco. Oua. Oua apenas,
Alan. Tudo o que lhe peo  que faa uma determinada
experincia cientfica. Voc costuma ir aos hospitais e s
morgues, e os horrores que a comete no o afectam, Se, em
alguma medonha sala de dissecao ou em ftido laboratrio,
encontrasse este homem sobre uma mesa de chumbo sulcada de
calhas vermelhas para escoarem o sangue, consider-lo-ia
apenas um excelente objecto de estudo. Voc continuaria
imperturbvel. Nem acreditava que estivesse a fazer algo de
reprovvel. Pelo contrrio, sentiria talvez que estava a
prestar um benefcio  humanidade, ou a incrementar a
totalidade de conhecimentos no mundo, ou a satisfazer a
curiosidade intelectual, ou outra coisa do gnero. O que eu
quero que faa no  mais do que j fez muitas vezes. Na
verdade, destruir um cadver deve ser muito menos
impressionante do que as prticas a que est habituado. E veja
bem que esta  a nica prova contra mim. Se for descoberta
estou perdido. E certamente que ser, se voc no me ajudar.
  - No estou disposto a ajud-lo. J se esqueceu? Tudo isso
me  indiferente. No tem nada a ver comigo.
  - Alan, suplico-lhe. Pense na minha situao. Precisamente
antes de voc chegar, quase desmaiava de pavor. At voc pode
um dia sentir pavor. No! No pense nisso. Encare o assunto
unicamente do ponto de vista cientfico. Voc nunca pergunta
de onde vm os cadveres em que pratica as suas experincias.
No pergunte tambm agora. J lhe contei demais. Mas
imploro-lhe que faa isto. Dantes ramos amigos, Alan.
  - No fale nesses dias, Dorian. Esto mortos.
  - Por vezes os mortos ficam. O homem que est l em cima no
se quer ir embora. Est sentado  mesa, de cabea pendida e
braos estendidos. Alan! Alan! Se no vier em meu auxlio
estou perdido. No v que me vo enforcar, Alan! No
compreende? Vo enforcar-me pelo que fiz.
  - Escusa de prolongar esta cena. Recuso em absoluto intervir
no assunto.  loucura da sua parte pedir-mo.
  - Recusa?
  - Recuso.
  - Suplico-lhe, Alan.
  -  intil.
  A mesma expresso de piedade surgiu nos olhos de Dorian
Gray. Depois, estendeu a mo para pegar num pedao de papel, e
escreveu nele qualquer coisa. Leu-o duas vezes, dobrou-o
meticulosamente e passou-o para o outro lado da mesa. Feito
isto, levantou-se e foi at  janela.
  Campbell olhou-o surpreendido, e ento pegou no papel e
abriu-o. Ao l-lo, cobriu-se-lhe o rosto de uma palidez
cadavrica, e tombou para trs na cadeira. Assaltou-o uma
atroz sensao de nusea. Era como se o corao batesse
desordenadamente num buraco oco at desfalecer Aps dois ou
trs minutos de um silncio terrvel. Dorian voltou-se,
aproximou-se e postou-se atrs dele, pousando-lhe a mo no
ombro.
  - Tenho tanta pena de si, Alan - disse, num sussurro -, mas
voc no me deixou alternativa alguma. J escrevi uma carta.
Ei-la. Veja o endereo. Se no me ajudar, sou obrigado a
envi-la. Se no me ajudar, vou envi-la. Voc conhece as
consequncias. Mas voc vai ajudar-me. Agora -lhe impossvel
recusar. Procurei poup-lo. Far-me- a justia de o admitir.
Voc foi severo, implacvel, ofensivo. Tratou-me como jamais
homem algum ousou tratar-me... pelo menos um que esteja vivo.
Suportei tudo. Agora chegou a minha vez de ditar as condies.
  Campbell mergulhou o rosto entre as mos, estremecendo.
  - Sim, chegou a minha vez de ditar as condies, Alan. Sabe
quais so. A coisa  muito simples. Vamos, no fique nessa
agitao febril. A coisa tem de ser feita. Enfrente-a, e
faa-a.
  Campbell soltou um gemido, e todo o seu corpo tremia. O
tiquetaque do relgio que estava no rebordo da chamin
parecia-lhe dividir o tempo em tomos de tormento,


                              194


cada um deles demasiado atroz para se poder suportar. Tinha a
sensao de que um anel de ferro lhe apertava lentamente a
fronte, como se a ignomnia com que fora ameaado se houvesse
abatido j sobre si. A mo pousada no seu ombro pesava como
mo de chumbo. Era insuportvel. Parecia esmag-lo.
  - Vamos, Alan, tem que tomar imediatamente uma deciso.
  - No consigo faz-lo - respondeu, maquinalmente, como se as
palavras pudessem alterar as coisas.
  - Mas tem de o fazer. No tem outro remdio. No perca
tempo.
  Ele hesitou um pouco.
  - H alguma lareira no quarto l em cima?
  - Sim, h uma lareira a gs, com amianto.
  - Tenho de ir a casa para trazer umas coisas do laboratrio.
  - No, Alan, no pode sair daqui. Escreva numa folha de
papel aquilo de que precisa, e o meu criado ir de fiacre
buscar essas coisas.
  Campbell escrevinhou umas linhas, secou-as com o mata-borro
e endereou um envelope ao seu assistente. Dorian pegou na
folha e leu-a atentamente. Em seguida, tocou a campainha e
entregou a mensagem ao criado, ordenando-lhe que estivesse de
volta o mais breve possvel e que trouxesse as coisas consigo.
  Quando se fechou a porta do vestbulo, Campbell teve um
sobressalto de nervosismo, e, levantando-se, aproximou-se da
lareira. Tremia como se tivesse sezes. Durante cerca de vinte
minutos, os dois homens permaneceram calados. Pela sala
esvoaava uma mosca que zumbia ruidosamente, e o tiquetaque do
relgio parecia a pancada de um martelo.
  Quando soou uma hora, Campbell voltou-se e, ao olhar para
Dorian Gray, viu que este tinha os olhos rasos de lgrimas.
Havia qualquer coisa na pureza e perfeio daquele rosto
triste que parecia enfurec-lo.



                              195


  - Voc  infame, absolutamente infame! - balbuciou.
  - No diga nada, Alan. Voc salvou-me a vida - disse Dorian.
  - A sua vida? Cus! Mas que vida! Voc andou de corrupo em
corrupo at culminar no crime. Ao fazer o que vou fazer,
aquilo que voc me obriga a fazer, no  na sua vida que estou
a pensar.
  - Ah, Alan, desejaria que sentisse por mim a milsima parte
da compaixo que sinto por voc.
  E dizendo isto, voltou-se e ps-se a olhar para o jardim l
fora. Campbell no lhe deu resposta.
  Uns dez minutos depois, bateram  porta, e entrou o criado
transportando uma grande caixa de mogno para produtos
qumicos, com um rolo comprido de fio de ao e platina, e dois
grampos de ferro que tinham uma forma bastante curiosa.
  - Quer que deixe as coisas aqui, senhor? - perguntou a
Campbell.
  - Sim, deixe - disse Dorian. - E, Francis, parece-me que
tenho outra incumbncia para si. Como se chama o homem de
Richmond que fornece as orqudeas para Selby?
  - Chama-se Harden, senhor.
  - Ah, sim. Harden. V imediatamente a Richmond procurar esse
Harden e diga-Lhe que mande o dobro das orqudeas que
encomendei, mas o mnimo possvel de orqudeas brancas. Para
ser mais exacto, no quero nenhumas brancas. Est um lindo
dia, Francis, e Richmond  muito bonito, se no fosse assim
no lhe daria essa maada.
  - No  maada nenhuma, senhor. A que horas devo estar c?
  Dorian olhou para Campbell.
  - Quanto tempo ir levar a sua experincia, Alan? -
perguntou, numa voz calma, indiferente. A presena de uma
terceira pessoa na sala pareca transmitir-lhe uma calma
extraordinria.
  Campbell, de semblante carregado, fez por se dominar.
  - Levar aproximadamente cinco horas - respondeu.


                              196


  - Ento basta que voc esteja de regresso s sete e meia,
Francis. No. No volte. Deixe apenas tudo em ordem para eu
mudar de roupa. Pode ficar com a noite livre. Como no janto
em casa, no vou precisar de si.
  - Obrigado, senhor - disse o criado, ao sair da sala.
  - Agora, Alan, no h um momento a perder. Como esta caixa
pesa! Eu levo-lha. Traga as outras coisas.
  Falava depressa e com modos autoritrios. Campbell sentia-se
dominado por ele. Saram os dois juntos da sala.
  Quando chegaram ao ltimo patamar, Dorian tirou a chave do
bolso e f-la girar na fechadura. Depois parou, e os seus
olhos reflectiam uma certa inquietao. E recuou.
  - Creio que no consigo entrar, Alan - disse, num murmrio.
  - -me indiferente. A sua presena no  necessria - disse
Campbell, com frieza.
  Dorian s abriu a porta at meio. Ao faz-lo, viu,  luz do
sol, o olhar maldoso no rosto do seu retrato.  frente deste,
cada no cho, estava a cortina rasgada. Lembrou-se ento de
que na noite anterior se esquecera, pela primeira vez na vida,
de ocultar a fatdica tela. E quando ia avanar
precipitadamente, recuou assustado.
  O que seriam aquelas repugnantes gotas vermelhas que luziam,
hmidas e cintilantes, numa das mos, como se a tela
ressumasse suor de sangue? Que horrendo era aquilo! Mais
horrendo - assim lhe parecia naquele instante do que aquela
coisa silenciosa que ele sabia que estava de bruos sobre a
mesa, e cuja sombra grotesca e disforme projectada no tapete
salpicado lhe permitia ver que no se movera, mas que ainda
ali estava onde a deixara.
  Respirou fundo, abriu a porta um pouco mais e, de olhos
quase fechados e virando a cabea, entrou rapidamente,
decidido a no olhar, nem uma vez sequer, para o morto.
Depois, debruando-se, levantou do cho a cortina de ouro e
prpura e lanou-a por sobre o retrato.
  Ficou ali parado, com medo de se voltar, de olhos fixos no
emaranhado do desenho que estava  sua frente.


                              197


Ouviu Campbell a trazer para dentro do quarto a pesada caixa,
e os ferros, e as outras coisas de que necessitava para a sua
pavorosa tarefa. Comeou a interrogar-se se ele e Basil
Hallward se teriam alguma vez encontrado, e, se assim fora,
que opinio teriam tido um do outro.
  - Agora deixe-me s - disse, atrs de si, uma voz dura.
  Voltou-se e saiu apressadamente, apercebendo-se apenas de
que o morto havia sido recostado na cadeira e que Campbell
contemplava um rosto amarelecido e luzidio. Quando descia as
escadas, ouviu a chave girar na fechadura.
  J passava muito das sete horas quando Campbell entrou na
biblioteca. Estava plido, mas absolutamente calmo.
  - Fiz o que me pediu - disse entre-dentes. - E agora, adeus.
Espero que jamais nos voltemos a ver!
  - Salvou-me da desgraa, Alan. No posso esquecer isso -
limitou-se a dizer Dorian.
  Assim que Campbell saiu, subiu ao ltimo andar. No quarto
havia um cheiro horrvel a cido ntrico. Mas aquilo que
estivera sentado  mesa desaparecera.


                         Captulo XV


     Essa noite, s oito e trinta, trajando com requinte e
ostentando na botoeira um grande ramalhete de violetas de
Parma, Dorian Gray era conduzido por criados e muitas mesuras
at  sala de visitas de Lady Narborough. Sentia a cabea a
latejar devido a um desenfreado nervosismo, e uma louca
excitao, mas inclinou-se sobre a mo da sua anfitri com a
desenvoltura e graciosidade de sempre. Talvez nunca
aparentemos tanta naturalidade como quando temos de
representar um papel. Por certo, era impossvel que todos os
que nessa noite olhavam para Dorian Gray acreditassem que ele
sofrera uma tragdia to horrvel como qualquer tragdia dos
nossos dias. Aqueles dedos to distintos nunca poderiam ter
agarrado uma faca pecaminosa, nem aqueles lbios risonhos
clamado sobre Deus e a bondade. Ele prprio no pde deixar de
se surpreender com a calma do seu comportamento, e, por um
instante, sentiu vivamente o terrvel prazer de uma vida
dupla.
  Era uma pequena reunio, preparada um pouco de improviso por
Lady Narborough, mulher muito inteligente, e com o que Lord
Henry costumava descrever como os restos de uma fealdade
realmente notvel. Revelara-se excelente esposa de um dos
nossos mais enfadonhos embaixadores, e, depois de ter
enterrado convenientemente o marido num mausolu de mrmore,
que ela se encarregara de desenhar, e de ter casado as filhas
com homens ricos e bastante idosos, dedicava-se agora aos
prazeres da fico francesa, da culinria francesa e do esprit
francs, quando o conseguia.
  Dorian era um dos seus preferidos especiais, e dizia-lhe
sempre que se dava por extremamente satisfeita por no o ter
conhecido durante a juventude.
  - Tenho a certeza, meu querido, de que me teria apaixonado
loucamente por si - costumava dizer -, e atirado a minha touca
aos moinhos por sua causa(1). Felizmente que ainda no se
pensava em si nessa altura. As nossas toucas eram to
deselegantes, e os moinhos to ocupados a tentar fazer vento,
que nunca tive um namorico. Porm, foi tudo por culpa do
Narborough. Ele era terrivelmente mope, e no se tem prazer
em enganar um marido que nunca v nada.
  Os convidados dessa noite eram um pouco enfadonhos.
Acontecia que, como ela, por detrs de um leque muito coado,
explicava a Dorian, uma das filhas casadas viera
inesperadamente visit-la e, para cmulo, at trouxera o
marido.
  - Parece-me muito indelicado da parte dela, meu querido -
dizia, segredando. -  certo que vou sempre visit-los no
Vero, quando regresso de Homburg, mas uma velha como eu
precisa de ar puro de vez em quando, e, alm disso, sou eu que
lhes trago alguma animao. No faz ideia da vida que eles
levam ali.  a pura e sadia vida campestre. Levantam-se cedo
por terem tanto que fazer, e deitam-se cedo por terem to
pouco em que pensar. Desde o tempo da rainha Isabel que no h
um escndalo por aqueles stios, e, por consequncia,
adormecem todos a seguir ao jantar. No se sente ao p de
nenhum deles. H-de sentar-se ao meu lado para me distrair.
  Dorian murmurou umas palavras de cortesia, e passeou os
olhos pela sala. Era, de facto, uma reunio fastidiosa.
Estavam duas pessoas que nunca vira, e o resto era constitudo
por Ernest Harrowden, uma daquelas mediocridades to banais
dos clubes de Londres que no tm inimigos mas que so
profundamente detestados pelos amigos; Lady Ruxton, uma mulher
de quarenta e sete anos, exageradamente ataviada,


  *1. Traduo literal, por motivo dos comentrios que a
personagem faz a seguir. A traduo livre corresponderia a
"atirado com a minha reputao s malvas". (N, da T.)


                              200


de nariz adunco, que se esforava por cair em descrdito, mas
que era particularmente to feia que, para grande decepo
sua, no havia ningum que acreditasse em algo que a
desfeiteasse, Mrs. Erlynne, uma nulidade com ambies, que
ceceava deliciosamente, e de cabelo ruivo, Lady Alice Chapman,
filha da anfitri, uma rapariga inspida e com ar desmazelado,
com uma daquelas caras tipicamente britnicas que, uma vez
vistas, so logo esquecidas; o marido dela, criatura
rubicunda, de suas brancas, e que, como muitos da sua
classe, estava convencido de que a jovialidade desmedida pode
compensar uma total ausncia de ideias.
  Dorian sentia-se um pouco arrependido de ter vindo, quando
Lady Narborough, olhando para o grande relgio de bronze
dourado, que se esparramava num espavento de curvas sobre o
pano cor de malva que decorava o rebordo da chamin, exclamou:
  - Que desagradvel este atraso de Henry Wotton! Mandei-lhe
recado esta manh, e ele prometeu-me solenemente que no
faltava.
  A presena de Harry sempre servia de consolo e, quando a
porta se abriu e ouviu a sua arrastada voz musical, que
tornava encantadoras as suas desculpas insinceras, deixou de
sentir tdio.
  Mas no conseguiu comer nada ao jantar. Todos os pratos
servidos eram retirados sem Lhes tocar. Lady Narborough
repreendia-o permanentemente por aquilo a que chamava um
"insulto ao pobre do Adolphe, que inventou o menu
especialmente para si", e, de vez em quando, Lord Henry olhava
para ele, surpreendido com o seu silncio e o seu ar ausente.
O mordomo no deixava de lhe encher a taa de champanhe. Bebia
com sofreguido, mas a sede parecia aumentar.
  - Dorian - acabou por dizer Lord Henry, enquanto o
chaudfroid era servido -, que se pssa consigo esta noite?
Parece deprimido.


                              201


  - Estou convencida de que est apaixonado - exclamou Lady
Narborough -, e que no se atreve a dizer-me por recear que eu
fique com cimes. E tem muita razo. Com certeza que ficaria.
  - Minha querida Lady Narborough - murmurou Dorian, a sorrir
-, passou toda uma semana sem que me tenha apaixonado, para
ser mais exacto, desde que Lady Ferrol se ausentou de Londres.
  - Como  que vocs os homens podem apaixonar-se por aquela
mulher! - exclamou. - Realmente, no consigo entender.
  - Muito simplesmente porque ela se lembra da infncia da
senhora, Lady Narborough - disse Lord Henry - Ela  o nico
elo entre ns e os bibes que a senhora usava.
  - Ela no se lembra nada dos meus bibes, Lord Henry. Mas eu
lembro-me muito bem dela em Viena h trinta anos, e de como
estava dcollete nessa altura.
  - Ainda est dcollete - respondeu ele, pegando numa
azeitona entre os seus longos dedos -, e quando traz um
vestido muito elegante parece uma dition de luxe de um
medocre romance francs.  realmente espantosa e
surpreende-nos constantemente. Tem uma extraordinria
capacidade de amor pela famlia. Quando morreu o terceiro
marido, o cabelo, com o desgosto, ficou louro.
  - Como pode falar assim, Harry! - exclamou Dorian.
  -  uma explicao muito romntica - riu a anfitri. - Mas
um terceiro marido, Lord Henry! No est a querer dizer que o
Ferrol  o quarto.
  - Claro que , Lady Narborough.
  - No acredito numa nica palavra.
  - Pode perguntar a Mr. Gray. Ele  um dos seus amigos muito
ntimos.
  -  verdade, Mr. Gray?
  - Ela assim mo afiana, Lady Narborough - respondeu Dorian.
- Perguntei-lhe se,  semelhana do que fizera Margarida de
Navarra, mandara embalsamar os coraes deles e os trazia
pendurados  cinta. Disse-me que no, visto nenhum deles ter
corao.


                              202


  - Quatro maridos! Palavra de honra, isso revela trop de
zle.
  - Trop de audace, tenho-lho dito - disse Dorian.
  - Oh, ela tem audcia suficiente para seja o que for, meu
querido. E como  o Ferrol? No o conheo.
  - Os maridos das mulheres muito belas pertencem  classe dos
criminosos - observou Lord Henry, tomando uns goles de vinho.
  Lady Narborough deu-lhe uma pancada com o leque.
  - Lord Henry, no me surpreende nada que o mundo diga que o
senhor  extremamente maldoso.
  - Mas qual mundo? - perguntou Lord Henry, erguendo as
sobrancelhas. - S se for o outro. As minhas relaes com este
mundo so excelentes.
  - Toda a gente que eu conheo diz que o senhor  muito mau -
exclamou a velha senhora, abanando a cabea.
  Lord Henry ficou srio por uns momentos.
  -  perfeitamente monstruosa - disse, por fim - a maneira
como as pessoas andam hoje por a a dizer nas nossas costas
coisas que so verdades absolutas.
  - Ele no tem emenda, pois no? - exclamou Dorian,
inclinando-se para a frente.
  - Espero bem que no - respondeu a sua anfitri, a rir. -
Mas se, na realidade, vocs todos adoram Madame de Ferrol
desta maneira ridcula, terei de casar-me de novo para estar
na moda.
  - A senhora nunca voltar a casar, Lady Narborough -
interrompeu Lord Henry. - Foi muito feliz. Quando uma mulher
se casa outra vez,  porque detestava o primeiro marido.
Quando um homem se casa outra vez,  porque adorava a primeira
esposa. As mulheres tentam a sorte, os homens arriscam a sua.
  - Narborough no era perfeito - exclamou a senhora.
  - Se o tivesse sido, no o teria amado, minha querida
senhora - foi a resposta. - As mulheres amam-nos pelos nossos
defeitos. Se os tivermos em nmero suficiente, perdoam-nos
tudo, at a nossa inteligncia.


                              203


Parece-me que nunca tornar a convidar-me para jantar, Lady
Narborough, depois do que acabo de dizer, mas  a pura
verdade.
  - Claro que  verdade, Lord Henry. Se ns as mulheres no os
amssemos pelos seus defeitos, onde estariam vocs todos?
Nenhum de vocs se teria casado. Seriam um bando de infelizes
solteires. Todavia, isso no os iria modificar muito. Nos
dias de hoje, todos os casados vivem como se fossem solteiros,
e os solteiros como se fossem casados.
  - Fin de sicle - murmurou Lord Henry.
  - Fin du globe - respondeu a sua anfitri.
  - Eu queria que fosse fin du globe - disse Dorian, soltando
um suspiro. - A vida  uma enorme desiluso.
  - Ah, meu querido - exclamou Lady Narborough, enquanto
calava as luvas -, no me diga que esgotou a vida. Quando um
homem diz isso, ficamos a saber que a vida o esgotou a ele.
Lord Henry  muito perverso, e s vezes desejo t-lo sido
tambm, mas o senhor est destinado a ser bom, parece ser to
bom. Tenho de lhe conseguir uma boa esposa. Lord Henry, no
acha que Mr. Gray devia casar?
  - Ando sempre a falar-lhe nisso, Lady Narborough - respondeu
Lord Henry, fazendo uma vnia.
  - Ento temos de procurar a parceira ideal para ele. Esta
noite vou passar os olhos com muita ateno pelo Debrett(1), e
elaboro uma lista de todas as raparigas aceitveis.
  - Inclui as idades, Lady Narborough? - perguntou Dorian.
  -  claro que incluo, com ligeiras alteraes. Mas no nos
devemos precipitar. Quero que seja do gnero que o The Morning
Post denomina por enlace equilibrado, e que ambos sejam
felizes.
  - Os dislates que se dizem sobre casamentos felizes! -
exclamou Lord Henry. - Um homem pode ser feliz com qualquer
mulher, desde que no a ame.


  *1. Compilao da lista dos membros da aristocracia
britnica, incluindo respectiva genealogia, aqui referenciada
pelo apelido do seu autor, John Debrett. (N. da I.)


                         204  205


  - Como o senhor  cnico! - acudiu a velha senhora,
arrastando para trs a cadeira e acenando para Lady Ruxton. -
Tem de vir em breve jantar comigo outra vez. O senhor , de
facto, um excelente tnico, muito melhor do que aquele que me
 receitado por Sir Andrew. Mas tem de me dizer que pessoas
gostaria de encontrar. Quero que seja uma reunio deliciosa.
  - Gosto de homens com futuro, e de mulheres com um passado -
respondeu. - Ou acha que, assim, seria uma reunio de saias?
  - Receio bem que sim - disse ela, a rir, levantando-se. -
Mil perdes, minha querida Lady Ruxton - acrescentou. - No
reparei que ainda no terminara o seu cigarro.
  - No tem importncia, Lady Narborough. Fumo em demasia.
Futuramente, vou ser mais comedida.
  - Peo-lhe que no o faa, Lady Ruxton - interveio Lord
Henry. - A moderao  fatal. O suficiente  to mau como uma
refeio. O mais do que suficiente  to bom como um banquete.
  Lady Ruxton olhou-o de um modo curioso.
  - Deve vir ver-me uma tarde destas para me explicar isso.
Parece-me uma teoria fascinante - murmurou, ao sair
rapidamente da sala.
  - Agora, vejam l se no ficam muito tempo a falar de
poltica e escndalos - gritou da porta Lady Narborough. - Se
o fizerem, ns vamos com certeza comear a discutir l em
cima.
  Os homens desataram a rir, e Mr. Chapman levantou-se
solenemente do seu lugar ao fundo da mesa e dirigiu-se para a
cabeceira. Dorian Gray mudou de lugar e foi sentar-se ao lado
de Lord Henry. Mr. Chapman comeou a falar em voz alta sobre a
situao na Cmara dos Comuns. Ria ostensivamente dos seus
adversrios. A palavra doctrinaire, vocbulo que aterroriza a
mentalidade britnica, ouvia-se com frequncia por entre os
seus frouxos de riso. Um prefixo aliterante servia de
ornamento de oratria. Hasteava a bandeira do Reino Unido at
aos pinculos do Pensamento. A estupidez hereditria da raa,
que ele jovialmente designava por slido bom senso ingls, era
apontada como verdadeiro baluarte da sociedade.
  Lord Henry fez um leve sorriso e voltou-se para olhar para
Dorian.
  - Sente-se melhor, meu caro amigo? - perguntou-lhe. -
Durante o jantar parecia um pouco abatido.
  - Estou ptimo, Harry. Apenas cansado. Mais nada.
  - Ontem  noite voc esteve sedutor. A jovem duquesa -lhe
muito dedicada. Disse-me que vai visit-lo a Selby.
  - Prometeu ir no dia vinte.
  - O Monmouth tambm l vai estar?
  - Sim, vai, Harry.
  - Ele maa-me tremendament, quase tanto como maa a mulher.
Ela  muito inteligente, inteligente demais para mulher.
Falta-lhe o encanto inexplicvel da fragilidade. So os ps de
barro que tornam precioso o ouro da imagem. Os ps dela so
muito bonitos, mas no so ps de barro. Ps de alva
porcelana, se voc concordar. Passaram pelo fogo, e o que no
 destrudo pelo fogo endurece. Ela teve as suas aventuras.
  - H quanto tempo est casada? - perguntou Dorian.
  - H uma eternidade, pelo que ela me diz. Segundo o
nobilirio, creio que h dez anos, mas dez anos ao lado do
Monmouth devem parecer uma eternidade, com mais algum tempo
somado. Vai mais algum?
  - Vo os Willoughbys, Lord Rugby e a esposa, a nossa
anfitri, Geoffrey Clouston, o grupo do costume. Convidei Lord
Grotrian.
  - Gosto dele - comentou Lord Henry - H muita gente que no
gosta, mas eu acho-o uma pessoa encantadora. Ele compensa a
sua maneira de vestir, por vezes extravagante, com uma
educao absolutamente requintada.  um indivduo muito
moderno.
  - No sei se ele poder vir, Harry. Possivelmente ter de ir
a Monte Carlo com o pai.
  - Ah! As pessoas de famlia so um impecilho! Faa os
possveis para que ele aparea.


                              206


A propsito, Dorian, ontem  noite voc retirou-se muito cedo.
Saiu antes das onze horas. O que fez a seguir? Foi
directamente para casa?
  Dorian lanou-lhe um olhar fugidio, e carregou o semblante.
  - No, Harry - disse, por fim. - S cheguei a casa por volta
das trs.
  - Esteve no clube?
  - Estive - respondeu. Depois arrependeu-se. - No, no foi
bem assim. No fui ao clube. Andei por a. No me lembro do
que fiz... Voc  to curioso, Harry! Quer sempre saber o que
os outros fazem. E eu quero sempre esquecer o que fiz. Entrei
em casa s duas e meia, se quiser saber a hora exacta.
Esquecera-me da chave em casa, e o meu criado teve de me abrir
a porta. Se quiser provas que confirmem o assunto, pode
perguntar-lhe.
  Lord Henry encolheu os ombros.
  - Meu caro amigo, isso no me interessa! Vamos at  sala de
visitas. No quero xerez, obrigado, Mr. Chapman. Aconteceu-Lhe
alguma coisa, Dorian. Conte-me o que se passa. Voc est
diferente esta noite.
  - No se preocupe comigo, Harry. Estou apenas irritvel e de
mau humor. Passo por sua casa amanh ou depois. Apresente as
minhas desculpas a Lady Narborough. No vou l acima. Vou para
casa. Preciso de ir para casa.
  - Est bem, Dorian. Espero v-lo amanh  hora do ch. A
duquesa tambm vai.
  - Farei os possveis por aparecer, Harry - disse ele,
abandonando a sala.
  Quando regressava a casa, tinha a percepo de que voltara
aquela sensao de terror que ele supunha ter estrangulado. As
perguntas banais de Lord Henry levaram-no a perder o
sangue-frio por uns instantes, e ele precisava ainda de o
manter. As coisas que representavam um perigo tinham de ser
destrudas. Estremeceu. Detestava a ideia de lhes tocar
sequer.


                              207



  Porm, tinha de ser feito. Ele bem o sabia, e, depois de ter
trancado a porta da biblioteca, abriu o armrio secreto para
onde atirara o sobretudo e a mala de Basil Hallward. Um lume
enorme ardia na lareira. Acrescentou-lhe outra acha. O cheiro
de roupa chamuscada e de cabedal queimado era insuportvel.
Foram precisos trs quartos de hora para que tudo fosse
consumido pelo fogo. Quando terminou, sentia-se fraco e
enjoado. Queimou umas pastilhas argelinas num defumador de
cobre perfurado, e refrescou as mos e a testa com um vinagre
perfumdo de almscar.
  De repente sobressaltou-se. Os olhos tomaram um brilho
estranho, e mordia nervosamente o lbio inferior. No espao
entre duas das janelas, encontrava-se um armrio florentino de
bano com embutidos de marfim e lpis-lazli. Fitava-o como
uma coisa que causa simultaneamente fascnio e medo, como se
guardasse algo que desejava e que, todavia, quase abominava.
Respirava ofegante. Assaltou-o uma nsia louca. Acendeu um
cigarro e depois atirou-o fora. As plpebras descaram, e as
longas pestanas quase lhe roavam as faces. Mas continuava a
fitar o armrio. Por fim, ergueu-se do sof em que se havia
deitado, aproximou-se dele e, depois de o abrir com a chave,
carregou numa mola secreta. Apareceu uma gaveta triangular
deslizando lentamente. Os dedos dirigiram-se instintivamente
para l, enfiaram-se nela e agarraram algo. Era uma pequena
caixa chinesa de laca negra e ouro velho, minuciosamente
trabalhada, os lados ostentando desenhos de curvas onduladas,
e os cordes de seda enfeitados com cristais redondos e borlas
de fios de metal entranados. Abriu-a. Continha uma massa
verde, lustrosa como a cera, com um singular odor forte e
persistente.
  Hesitou por momentos, com um sorriso estranhamente imvel.
Depois, tremendo de frio, apesar de o ambiente da sala estar
muito quente, endireitou-se e olhou para o relgio. Faltavam
vinte minutos para a meia-noite. Voltou a guardar a caixa,
fechando as portas do armrio a seguir, e entrou no quarto.


                              208


  Quando a meia-noite batia as suas pancadas de bronze na
escurido, Dorian Gray, vestindo com simplicidade, de cachecol
enrolado ao pescoo, saiu de casa furtivamente e de mansinho.
  Na Bond Street encontrou um fiacre puxado por um bom cavalo.
Chamou-o e, em voz baixa e grave, deu um endereo ao cocheiro.
  O homem abanou a cabea num gesto de recusa.
  - Isso fica muito longe para mim - murmurou.
  - Aqui tem um soberano(1) - disse-Lhe Dorian. - E ter outro
se conduzir depressa.
  - Est bem, senhor - respondeu o homem -, chegamos l dentro
de uma hora.
  E, depois de ter guardado a moeda, obrigou o cavalo a dar
meia volta e dirigiu-se velozmente para as bandas do rio.


  *1. Moeda de ouro no valor de uma libra (o mesmo que uma
libra esterlina). (N. da T.)



                         Captulo XVI


     Comeou a cair uma chuva gelada, e a plida luz dos
candeeiros tinha um ar sinistro na nvoa envolvente. Era a
hora de os botequins fecharem, e, s suas portas, vultos de
homens e mulheres juntavam-se em grupos separados. De alguns
bares chegava o som de horrveis gargalhadas. Noutros,
brigavam e gritavam os bbados.
  Recostado no fiacre, o chapu inclinado para a testa, Dorian
Gray observava com olhar distrado a vergonha srdida da
grande cidade, e, de vez em quando, repetia para si as
palavras que Lord Henry lhe dissera no primeiro dia em que se
conheceram: Curar a alma atravs dos sentidos, e os sentidos
atravs da alma. Sim, era esse o segredo. Experimentara-o com
frequncia, e voltaria a experiment-lo agora. Havia antros de
pio, onde se podia comprar o esquecimento, antros de horror
onde a memria de velhos pecados se podia apagar com o
desvario de novos pecados.
  A Lua, suspensa to baixo no cu, parecia uma caveira
amarela. De tempos a tempos, uma enorme nuvem disforme
estendia um brao comprido, e ocultava-a. Os lampies a gs
eram cada vez mais raros, e as ruas mais estreitas e escuras.
Houve uma vez em que o cocheiro se enganou no caminho e teve
de retroceder meia milha. O cavalo fumegava sempre que
chapinhava pelas poas de gua. As janelas laterais do fiacre
estavam cobertas por uma espessa nvoa.
  "Curar a alma atravs dos sentidos, e os sentidos atravs da
alma!" Como as palavras ainda lhe soavam nos ouvidos! Tinha a
certeza de que a alma estava mortalmente doente. Seria verdade
que os sentidos a podiam curar? Fora derramado sangue
inocente. Como se poderia resgatar? Ah! No havia resgate
possvel. Mas, muito embora o perdo fosse impossvel,


                              210


havia ainda a possibilidade do esquecimento, e ele estava
decidido a esquecer, a eliminar essa lembrana, a esmag-la
como se esmagava a vbora que nos mordeu. Pensando bem, que
direito tinha Basil de lhe ter falado daquele modo? Quem o
incumbira de julgar os outros? Ele havia dito coisas medonhas,
horrendas, intolerveis.
  O fiacre prosseguia com dificuldade, parecendo-lhe mais
vagaroso a cada passo. Abriu a portinhola e disse ao homem que
conduzisse mais depressa. O apetite hediondo pelo pio comeou
a acicat-lo. Sentia um ardor na garganta, e torcia
nervosamente as mos delicadas. Bateu furiosamente no cavalo
com a bengala. O condutor riu-se e fustigou com o chicote. Ele
respondeu com outra gargalhada, mas o homem calou-se.
  O caminho parecia interminvel, e as ruas eram a teia negra
de uma aranha gigantesca. A monotonia tornava-se-lhe
insuportvel, e, como o nevoeiro era mais cerrado, sentia
medo.
  Depois passaram pelas solitrias fbricas de tijolos. A o
nevoeiro era menos denso, e pde ver os estranhos fornos em
forma de garrafa com as alaranjadas lnguas de fogo espalhadas
em leque. Um co ladrou  sua passagem, e ao longe, em plena
escurido, ouviu-se o grito de alguma gaivota perdida. O
cavalo tropeou num sulco, depois desviou-se e desatou a
galopar.
  Pouco tempo depois, saram da estrada de argila e voltaram a
sacolejar pelas ruas de piso irregular. A maior parte das
janelas estava s escuras, mas ocasionalmente recortavam-se,
atravs de um estore iluminado, as silhuetas de sombras
grotescas. Ele observava-as com curiosidade. Moviam-se como
gigantescas marionetas e gesticulavam como coisas com vida.
Odiava-as. Invadia-lhe o corao uma raiva surda. Ao dobrarem
uma esquina, de uma porta aberta uma mulher gritou-lhes
qualquer coisa, e dois homens correram,atrs do fiacre cerca
de cem jardas. O condutor afugentou-os com o chicote.


                              211


  Diz-se que a paixo nos faz pensar em crculo. Era certo que
os lbios mordidos de Dorian Gray formulavam e tornavam a
formular, repetindo-as obsessivamente, aquelas palavras
insidiosas sobre a alma e os sentidos, at nelas encontrar a
plena expresso do seu estado de esprito e justificar, com a
aprovao do intelecto, as paixes que, mesmo sem essa
justificao, continuariam a domin-lo. Pelas clulas do
crebro insinuava-se um nico pensamento, e o louco desejo de
viver, o mais terrvel de todos os apetites do homem, vibrava
intensamente em cada nervo e em cada fibra. A fealdade, que
outrora abominara por dar realidade s coisas, agradava-lhe
agora pela mesma razo. A fealdade era a nica realidade. A
rixa grosseira, o antro srdido, a crua violncia da vida
desbragada, a prpria vilania do ladro e do marginal possuam
uma realidade mais vvida e intensa do que todas as graciosas
formas da Arte, ou os vagos sonhos da Poesia. Era disso que
precisava para poder esquecer. Dentro de trs dias estaria
liberto.
  De sbito, o condutor estacou com um movimento brusco ao
cimo de uma ruela sombria. Por cima dos telhados baixos e das
recortadas chamins das casas, assomavam os mastros negros dos
navios. Espirais de nvoa branca enroscavam-se nas vergas como
velas espectrais.
  -  algures por aqui, no , senhor? - perguntou, a voz um
pouco rouca, atravs da portinhola.
  Dorian sobressaltou-se, e examinou o local.
  - Pode deixar-me aqui - respondeu.
  Desceu  pressa e, depois de ter dado ao condutor a gorgeta
que lhe prometera, encaminhou-se rapidamente para o molhe.
Aqui e ali, bruxuleava um lampio  popa de um enorme navio
mercante. A luz tremeluzia e estilhaava-se nos charcos.
Via-se um claro vermelho, proveniente de um vapor que se
abastecia de carvo para se fazer ao largo. O pavimento
viscoso parecia um impermevel molhado.
  Ele virou  esquerda, continuando na sua passada rpida, e,



                              212


de vez em quando, olhava para trs para ver se estava a ser
seguido. Sete ou oito minutos depois, chegou a um pequeno
pardieiro, encravado entre duas fbricas de aspecto lgubre.
Numa das janelas do ltimo piso estava um candeeiro. Deteve-se
a e bateu  porta com umas pancadas peculiares.
  Ao cabo de algum tempo, ouviu passos no corredor e retirarem
a corrente. A porta abriu-se sem rudo, e entrou, sem nada
dizer  figura atarracada e grotesca que se espalmou na sombra
para ele passar. Ao fundo do corredor, havia uma esfarrapada
cortina verde, que flutuou com a rajada de vento que entrara
consigo. Afastou-a, e passou a uma sala baixa e comprida, que
parecia ter sido outrora um salo de baile de terceira ordem.
Bicos de gs de luz viva e intensa, que os espelhos sujos do
lado oposto tornavam mortia e distorcida, estavam dispostos
em fila  volta das paredes. Por detrs, tinham reflectores
gordurosos de lata canelada que projectavam discos de luz
bruxuleante. O cho estava coberto de serradura amarelo-ocre,
aqui e ali revolvida em lama, e com manchas escuras de bebidas
derramadas. Perto de um pequeno fogo a carvo de lenha,
acocoravam-se uns malaios a jogar com fichas de osso, e
via-se-Lhes o branco dos dentes quando tagarelavam. A um
canto, a cabea mergulhada nos braos, encontrava-se um
marinheiro debruado sobre a mesa, e, junto ao balco de cores
berrantes que ocupava por completo um dos lados, estavam duas
mulheres macilentas a zombar de um velho que, com uma
expresso de repugnncia, sacudia as mangas do casaco.
  - Julga que est coberto de formigas - riu uma delas, quando
Dorian ia a passar. O homem olhou para ela aterrorizado e
comeou a choramingar.
  Ao fundo da sala havia um pequeno lano de escadas que
conduzia a um compartimento obscurecido. Assim que subiu os
trs frgeis degraus, Dorian sentiu o odor intenso do pio.
Respirou fundo, as narinas frementes de prazer. Quando entrou,
um jovem de cabelo liso e louro, debruado sobre um candeeiro
a acender um longo cachimbo delgado, ergueu os olhos para ele
e acenou-lhe de um modo hesitante.


                              213


  - Voc aqui, Adrian? - balbuciou Dorian.
  - E onde havia de estar? - respondeu, com indiferena. -
Toda a rapaziada cortou relaes comigo.
  - Julgava que voc tinha sado de Inglaterra.
  - O Darlington no vai fazer nada. O meu irmo resolveu
pagar a letra. O George tambm deixou de me falar.. No me
importo - acrescentou, com um suspiro. - Desde que se tenha
este produto, no precisamos de amigos. Creio que tenho amigos
a mais.
  Dorian estremeceu, e passou os olhos pelas figuras grotescas
deitadas em posies to excntricas sobre os colches rotos.
Os membros contorcidos, as bocas escancaradas, os olhos fixos
e sem brilho fascinavam-no. Sabia bem em que estranhos cus
estavam a penar e que infernos sombrios lhes ensinavam o
segredo de algum prazer desconhecido. Eram mais afortunados do
que ele. Ele era prisioneiro do pensamento. A memria,
semelhante a horrvel maleita, destrua-lhe a alma. De vez em
quando, parecia-Lhe ver os olhos de Basil Hallward a
fitarem-no. Sentia, no entanto, que no podia ficar.
Perturbava-o a presena de Adrian Singleton. Queria estar num
lugar onde nenhum homem o identificasse. Queria fugir de si
mesmo.
  - Vou ao outro stio - disse, aps alguma hesitao.
  - No ancoradouro?
  - Sim. - Aquela gata assanhada de certeza que vai estar l.
Agora no a querem aqui.
  Dorian encolheu os ombros, num gesto de indiferena.
  - Estou farto das mulheres que amam. As mulheres que odeiam
tm muito mais interesse. Alm disso, o produto  melhor.
  -  quase a mesma coisa.
  - Prefiro-o. Venha tomar uma bebida. Preciso de beber
qualquer coisa.
  - No quero nada - murmurou o jovem.


                         214  215


  - No importa.
  Adrian Singleton levantou-se com um movimento de cansao, e
seguiu atrs de Dorian at ao bar.
  Um mestio, de turbante esfarrapado e sobretudo pudo,
recebeu-os com  um sorriso repelente, empurrando para eles uma
garrafa de conhaque e dois copos. Duas mulheres foram-se
aproximando e comearam a conversar. Dorian voltou-lhes as
costas, e disse qualquer coisa em voz baixa a Adrian
Singleton.
  Um sorriso perverso, como um ricto malaio, arrepanhou a cara
de uma das mulheres.
  - Que orgulhosos estamos esta noite - disse, com ar
escarninho.
  - Por amor de Deus, no fales comigo - gritou Dorian,
batendo com o p no cho. - O que  que queres? Dinheiro? Aqui
tens. E no voltes a dirigir-me a palavra.
  Duas chispas vermelhas iluminaram momentaneamente os olhos
toldados da mulher, depois apagaram-se, deixando-os baos e
vidrados. Atirou a cabea para trs, e arrebanhou as moedas do
balco com dedos vidos. A companheira olhava-a com inveja.
  - No vale a pena - disse, com um suspiro, Adrian Singleton.
- No me interessa voltar. Que importa? Sinto-me muito feliz
aqui.
  - Vai escrever-me se precisar de alguma coisa, no vai? -
disse Dorian, aps um breve silncio.
  - Talvez.
  - Ento boa noite.
  - Boa noite - respondeu o jovem, subindo os degraus, e
limpando a um leno a boca ressequida.
  Dorian encaminhou-se para a porta, com uma expresso de
mgoa no rosto. Quando afastava a cortina, uma gargalhada
horrenda irrompeu dos lbios pintados da mulher que ficara com
o dinheiro.
  - L vai o pacto do diabo! - gritou em voz rouca e
entrecortada de soluos.
  - Maldita! - respondeu ele. - No me chames isso.
  Ela deu estalos com os dedos.
  - Gostas  que te chamem Prncipe Encantado, no ? -
retorquiu-lhe aos berros.
  O marinheiro amodorrado levantou-se de um salto quando a
ouviu, e olhou furiosamente  sua volta. O rudo da porta de
entrada a fechar-se chegou-Lhe aos ouvidos. Saiu
precipitadamente, como se fosse em perseguio de algum.
  Dorian Gray seguia apressado ao longo do molhe, sob a chuva
miudinha. O encontro com Adrian Singleton causara-Lhe uma
estranha emoo, e interrogava-se se seria ele o responsvel
pela destruio daquela juventude, como Basil Hallward
dissera, insultando-o to infamemente. Mordeu o lbio,
apreensivo,, por momentos, o olhar entristeceu-se. Mas,
afinal, que lhe importava isso? A vida era demasiado curta
para sobrecarregar os ombros com os erros dos outros. Cada um
vivia a sua vida, e pagava o seu preo por viv-la. S era
pena que se tivesse de pagar tantas vezes por um nico erro.
Na verdade, pagava-se vezes sem conta. Nos seus negcios com o
homem, o Destino nunca dava as contas por encerradas.
  Existem momentos, segundo os psiclogos, em que a paixo
pelo pecado, ou por aquilo a que o mundo chama pecado, domina
de tal modo um temperamento que cada fibra do corpo, assim
como cada clula do crebro, parece estar possuda de impulsos
temveis. Em momentos desses, os homens e as mulheres perdem o
livre-arbtrio. Encaminham-se, como autmatos, para um fim
terrvel. -Lhes retirada a possibilidade de escolha, e a
conscincia  morta, ou, se conseguir sobreviver, vive
unicamente para dar seduo  rebeldia, e encanto 
desobedincia. Pois todos os pecados, como os telogos no se
cansam de nos lembrar, so pecados da desobedincia. Quando
esse esprito supremo, essa estrela da manh do mal, caiu do
cu, foi como rebelde que caiu.
  Indiferente, concentrado no mal, de semblante carregado e a
alma faminta de rebeldia, Dorian Gray caminhava apressado,


                              216


estugando o passo  medida que caminhava, mas quando se
desviou aceleradamente para uma arcada, que utilizava
frequentemente para encurtar caminho em direco ao local de
m fama para onde agora se encaminhava, sentiu-se bruscamente
agarrado por trs e, antes de ter tempo para se defender, foi
arremessado contra a parede, com mo brutal a apertar-lhe a
garganta. Debateu-se desesperadamente para se libertar e, com
enorme esforo, desprendeu os dedos que o estrangulavam. Em
menos de um segundo, ouviu o estalido de um revlver e viu
reluzir um cano apontado directamente  sua cabea, e o vulto
escuro de um homem baixo e atarracado  sua frente.
  - O que  que quer? - perguntou, arquejante.
  - Quieto - disse o homem. - Qualquer movimento, e eu
disparo.
  - Voc est louco. Que mal Lhe fiz?
  - Destruste a vida de Sibyl Vane - respondeu -, e Sibyl
Vane era minha irm. Ela matou-se. Eu sei. Mas tu s
responsvel pela sua morte. Jurei que me vingaria matando-te.
H anos que te procuro. No tinha indcios, nem pista alguma.
As duas pessoas que poderiam identificar-te morreram. De ti
nada sabia, a no ser o nome por que ela costumava chamar-te.
Ouvi-o casualmente esta noite. Encomenda a tua alma a Deus,
pois vais morrer esta noite.
  Dorian Gray sentiu a nusea do medo.
  - Eu nunca a conheci - gaguejou. - Nunca ouvi falar dela.
Voc est doido.
  - Seria melhor que confessasses o teu pecado, pois, to
certo como eu chamar-me James Vane, vais morrer.
  Era um momento horrvel. Dorian no sabia que dizer ou
fazer.
  - De joelhos! - resmungou o homem. - Dou-te um minuto para
encomendares a tua alma, e mais nada. Embarco esta noite para
a ndia, mas primeiro tenho que cumprir a minha tarefa. Um
minuto. E acabou-se.
  Dorian deixou cair os braos. Paralisado pelo terror, no
sabia que fazer. De sbito, assaltou-o uma esperana absurda.


                              217


  - Espere! - gritou. - H quanto tempo morreu a sua irm?
Diga-me, depressa!
  - H dezoito anos - respondeu o homem. - Por que mo
pergunta? Que interessa saber h quantos anos?
  - Dezoito anos - riu Dorian Gray, com uma ponta de triunfo
na voz. - Dezoito anos! Leve-me para debaixo do candeeiro e
olhe para a minhacara!
  James Vane teve uma leve hesitao, sem compreender o que
significava aquilo. Depois, agarrou Dorian Gray e puxou-o para
fora da arcada. .
  Apesar de difusa e vacilante, pelo vento que soprava, a luz
chegou para lhe mostrar o erro medonho que lhe parecera ter
cometido, pois a cara do homem que ele procurara para matar
tinha todo o vio da adolescncia, toda a pureza imaculada da
juventude. Parecia ser pouco mais velho do que um rapaz de
vinte primaveras, pouco mais velho, talvez nem tanto, do que a
sua irm, quando ambos se haviam despedido tantos anos antes.
Era evidente que este no era o homem que destrura a vida
dela.
  Largou-o e recuou, cambaleante.
  - Meu Deus! Meu Deus - exclamou -, estive prestes a mat-lo!
  Dorian Gray soltou um longo suspiro de alvio.
  - Esteve prestes a cometer um crime terrvel, homem - disse,
deitando-lhe um olhar severo. - Que isto Lhe sirva de aviso
para no se vingar por suas prprias mos.
  - Perdoe-me, senhor - balbuciou James Vane. - Foi um
equvoco. Foi uma palavra ouvida por acaso naquele antro
maldito que me induziu  pista errada.
  -  prefervel que v para casa e guarde essa pistola, seno
pode meter-se em sarilhos - disse Dorian, dando meia volta e
descendo a rua vagarosamente.
  James Vane continuou parado no passeio, horrorizado. Todo o
corpo lhe tremia. Pouco depois, uma sombra que se tinha vindo
aproximando, cosida com a parede hmida, apareceu  luz e
aproximou-se dele com passos furtivos. Ele sentiu a mo
pousar-lhe no brao e voltou-se, sobressaltado. Era uma das
mulheres que estivera a beber no bar.


                              218


  - Por que no o mataste? - perguntou-lhe, em voz sibilante e
aproximando a face macilenta da dele. - Eu sabia que vinhas no
seu encalo quando saste a correr do Daly. Seu palerma!
Devias ter acabado com ele. Tem muito dinheiro, e  to ruim
quanto se pode ser.
  - No  o homem que eu procuro - respondeu -, e no quero o
dinheiro de ningum. Quero a vida de um homem. O homem a quem
quero tirar a vida deve ter agora perto de quarenta anos. Este
 pouco mais do que um rapaz. Graas a Deus, no manchei as
minhas mos com o seu sangue.
  A mulher soltou um riso amargo.
  - Pouco mais do que um rapaz! - escarneceu ela. - Ora,
homem, h quase dezoito anos que o Prncipe Encantado fez de
mim o que sou agora.
  - Mentes! - gritou James Vane.
  Ela ergueu a mo ao cu.
  - Juro por Deus que falo verdade - exclamou.
  - Por Deus?
  - Que eu morra aqui se no  verdade. Ele  o pior de todos
os que vm aqui. Dizem que vendeu a alma ao diabo em troca de
uma bonita cara. Faz quase dezoito anos que o encontrei. No
mudou muito de ento para c. Mas eu mudei - acrescentou, com
um olhar malvolo.
  - Juras?
  - Juro - disse, como um eco enrouquecido, a sua boca
implacvel. - Mas no me denuncies - pediu, lamuriando-se.
-Tenho medo dele. D-me algum dinheiro para pagar o quarto
esta noite.
  Ele largou-a com uma praga, e correu para a esquina da rua,
mas Dorian Gray- desaparecera. Quando olhou para trs de si, a
mulher tambm havia desaparecido.



                         Captulo XVII


     Uma semana depois, Dorian Gray estava sentado na estufa
de Selby Royal a conversar com a formosa duquesa de Monmouth,
que, acompanhada pelo marido, um sexagenrio de ar fatigado,
se encontrava entre os seus convidados. Era a hora do ch, e a
luz suave do enorme candeeiro coberto de renda que se
encontrava sobre a mesa iluminava as delicadas porcelanas e a
prata cinzelada da baixela com que a duquesa servia. As mos
brancas moviam-se delicadamente por entre as chvenas, e os
lbios vermelhos e carnudos sorriam de qualquer coisa que
Dorian lhe segredara. Lord Henry, recostado numa cadeira de
vime coberta com pano de seda, observava-os. Sentada num div
cor de pssego, Lady Narborough fingia estar atenta 
descrio do duque sobre o ltimo escaravelho brasileiro que
acrescentara  sua coleco. Trs jovens de smoking a rigor
serviam bolos a algumas senhoras. O grupo era constitudo por
doze pessoas, e eram esperadas mais algumas que chegariam no
dia seguinte.
  - De que esto os dois a falar? - perguntou Lord Henry,
aproximando-se da mesa e pousando a chvena. - Espero que o
Dorian lhe tenha falado do meu plano de rebaptizar tudo,
Gladys.  uma ideia extraordinria.
  - Mas eu no quero ser rebaptizada, Harry - retorquiu a
duquesa, erguendo para ele os seus olhos maravilhosos. - Estou
plenamente satisfeita com o meu nome, e tenho a certeza de que
Mr. Gray deve estar satisfeito com o dele.
  - Minha querida Gladys, por nada deste mundo iria alterar
qualquer deles. Ambos so perfeitos. Eu estava a pensar
principalmente nas flores.


                              220


Ontem cortei uma orqudea para pr na botoeira. Era um
exemplar maravilhoso, s pintas, to eficaz como os sete
pecados mortais. Num momento de irreflexo, perguntei a um dos
jardineiros o nome dela. Disse-me que era um exemplar perfeito
da Robinsoniana, ou qualquer coisa horrvel do gnero.  uma
triste verdade, mas perdemos a capacidade de atribuir nomes
bonitos s coisas. Os nomes so tudo: Nunca tenho divergncias
com as aces. A minha nica divergncia  com as palavras.
Esse  o motivo por que detesto o realismo grosseiro na
literatura. O homem que chama p a uma p(1) devia ser
obrigado a usar uma.  a nica coisa para que ele serve.
  - Nesse caso, o que lhe havamos de chamar, Harry? -
perguntou ela.
  - O nome dele  Prncipe Paradoxo - disse Dorian.
  - Reconheo-o num relance - exclamou a duquesa.
  - Nem quero ouvir tal coisa - protestou Lord Henry a rir,
refastelando-se numa cadeira. - No se consegue escapar a um
rtulo! Recuso o ttulo.
  - A realeza no pode abdicar - pronunciaram, como um aviso,
os formosos lbios.
  - Quer ento que defenda o meu trono?
  - Quero.
  - Eu comunico as verdades de amanh.
  - Eu prefiro os erros de hoje - replicou ela.
  - Voc desarma-me, Gladys - exclamou ele, apercebendo-se da
sua obstinao caprichosa.
  - Do seu escudo, Harry, no da sua lana.
  - Nunca uso lana contra a beleza - retorquiu, fazendo um
gesto com a mo.
  - Esse  o seu erro, Harry, creia-me. D demasiado valor 
beleza.
  - Como pode dizer uma coisa dessas? Admito que considero
melhor ser-se belo do que ser-se bom.


  *1. Traduo literal. Em traduo livre, corresponderia a
chama as coisas pelo seu nome / "po, po, queijo, queijo".
(N. da T.)


                              221


Mas, por outro lado, ningum mais do que eu est disposto a
reconhecer que mais vale ser-se bom do que ser-se feio.
  - Sendo assim, a fealdade  um dos sete pecados mortais? -
exclamou a duquesa. - O que aconteceu  sua alegoria da
orqudea?
  - A fealdade  uma das sete virtudes mortais, Gladys. Como
boa conservadora que , no devia subestim-las. A cerveja, a
Bblia e as sete virtudes mortais fizeram da Inglaterra o que
ela .
  - No gosta ento do seu pas? - perguntou-lhe.
  -  nele que vivo.
  - Para melhor o censurar.
  - Quer que eu assuma o veredicto da Europa sobre ele? -
inquiriu.
  - Que dizem eles de ns?
  - Que Tartufo emigrou para Inglaterra e abriu uma loja.
  - A frase  de sua autoria, Harry?
  - Ofereo-lha.
  - No poderia us-la.  demasiado verdadeira.
  - No tenha receio. Os nossos compatriotas nunca reconhecem
uma descrio.
  - So prticos.
  - So mais astutos do que prticos. Quando fazem o balano
no livro razo, saldam a estupidez com a fortuna e o vcio com
a hipocrisia.
  - Mesmo assim, temos feito grandes coisas.
  - As grandes coisas  que foram lanadas sobre ns, Gladys.
  - Temos carregado com esse fardo.
  - Somente at  Bolsa de Valores.
  Ela fez um aceno negativo com a cabea.
  - Acredito na raa - exclamou.
  - Representa a sobrevivncia do esforo.
  - Tem evoludo.
  - A decadncia seduz-me mais.
  - E a Arte? - perguntou ela.
  -  uma doena.


                              222


  - O Amor?
  - Uma iluso.
  - A Religio?
  - O moderno substituto da Crena.
  - Voc  um cptico.
  - Nunca! O cepticismo  o comeo da F.
  - Voc o que ?
  - Definir  limitar.
  - D-me uma pista.
  - Os fios partem-se. Ficaria perdida no labirinto.
  - Voc deixa-me confusa. Falemos de algum.
  - O nosso anfitrio  um tema fascinante. H uns anos
baptizaram-no Prncipe Encantado.
  - Ah! No me traga isso  lembrana - protestou Dorian Gray.
  - O nosso anfitrio est bastante desagradvel esta tarde -
respondeu a duquesa, ruborizada. - Creio que ele supe que
Monmouth casou comigo por razes puramente cientficas, como
se eu fosse o melhor exemplar de moderna borboleta que
conseguiu para si.
  - Bem, espero que ele no Lhe espete alfinetes, duquesa -
disse Dorian, rindo.
  - Ora, a minha criada j se encarrega de o fazer, Mr. Gray,
quando est ofendida comigo.
  - E o que a faz ficar ofendida com a senhora duquesa?
  - As coisas mais triviais, Mr. Gray, afiano-lhe.
Habitualmente,  porque chego s nove menos dez e digo-lhe que
tenho de estar pronta s oito e meia.
  - Que criada to insensata! Devia despedi-la.
  - No me atrevo, Mr. Gray.  que ela inventa chapus para
mim. Lembra-se daquele que levei  festa no jardim de Lady
Hilstone? No se lembra, mas  gentil da sua parte fingir que
se lembra. Pois ela f-lo do nada. Todos os bons chapus so
feitos do nada.
  - Como todas as boas reputaes, Gladys - interrompeu Lord
Henry. - Todo o efeito que produzimos d-nos um inimigo.


                              223


Para termos popularidade temos de ser medocres.
  - Isso no acontece com as mulheres - disse a duquesa,
abanando a cabea, - e as mulheres governam o mundo.
Garanto-Lhe que no suportamos mediocridades. Ns as mulheres,
como diz algum, amamos com os ouvidos, do mesmo modo que
vocs os homens amam com os olhos, se  que vocs amam mesmo.
  - Parece-me que nunca fazemos outra coisa - murmurou Dorian.
  - Ah, nesse caso, realmente nunca amam, Mr. Gray - respondeu
a duquesa, num arremedo de mgoa.
  - Minha querida Gladys! - exclamou Lord Henry. - Como pode
dizer isso? Um romance de amor vive da repetio, e a
repetio converte um apetite em arte. Alm disso, cada vez
que se ama  a nica vez que j se amou. A diferena no
objecto do amor no altera a integridade da paixo. S lhe d
mais intensidade. Na melhor das hipteses, podemos ter na vida
apenas uma experincia magnfica, e o segredo da vida est em
reproduzir essa experincia tantas vezes quanto possvel.
  - Mesmo quando ela nus magoou, Harry? - perguntou a duquesa,
aps algum silncio.
  - Especialmente quando nos magoou - respondeu Lord Henry.
  A duquesa voltou-se para Dorian Gray, olhando-o com uma
expresso singular.
  - Que diz a isto, Mr. Gray? - perguntou-lhe.
  Dorian hesitou um pouco. Depois atirou a cabea para trs e
riu-se. .
  - Eu concordo sempre com o Harry, duquesa.
  - Mesmo quando ele no tem razo?
  - O Harry tem sempre razo, duquesa.
  - E a sua filosofia f-lo feliz?
  - Nunca busquei a felicidade. Quem quer a felicidade? Tenho
buscado o prazer.
  - E encontrou-o, Mr. Gray?
  - Muitas vezes. Vezes demais.


                              224


  A duquesa suspirou.
  - Eu ando  procura de paz - disse ela -, e se no vou j
vestir-me, no vou ter nenhuma esta noite.
  - Permita-me que lhe v buscar umas orqudeas - exclamou
Dorian, que se ergueu rapidamente e se dirigiu para o fundo da
estufa.
  - Voc est a namor-lo escandalosamente - comentou Lord
Henry para a prima. - Seria melhor que tivesse cuidado. Ele 
muito sedutor.
  - Se o no fosse, no haveria combate.
  - Nesse caso, so gregos contra gregos?
  - Estou do lado dos troianos. Eles lutaram por uma mulher.
  - E foram vencidos.
  - H coisas piores que o cativeiro - retorquiu ela.
  - Voc galopa  rdea solta.
  -  o ritmo da passada que conserva a vida - replicou.
  - Hei-de anotar esta noite no meu dirio.
  - O qu?
  - Que criana queimada ama o fogo.
  - Nem sequer estou chamuscada. As minhas asas esto
intactas.
  - Voc poder servir-se delas para tudo, excepto para voar.
  - A coragem passou dos homens para as mulheres. Para ns 
uma experincia nova.
  - Tem uma rival.
  - Quem?
  Ele riu-se.
  - Lady Narborough - segredou ele. - Ela adora-o.
  - Deixa-me apreensiva. A atraco pela Antiguidade  fatal
em ns, as romnticas.
  - Romnticas! Vocs tm todos os mtodos da cincia.
  - Os homens educaram-nos.
  - Mas no vos explicaram.
  - Descrevem-nos como um sexo - disse, em tom de desafio.


                              225


  - Esfinges sem segredos.
  Ela fitou-o com um sorriso.
  - Que demorado est Mr. Gray! Vamos ajud-lo. Ainda lhe no
disse a cor do meu vestido.
  - Bem, Gladys, ter que fazer condizer o vestido com as
flores dele.
  - Isso seria uma capitulao prematura.
  - A arte romntica comea pelo clmax.
  - Preciso de reservar uma oportunidade de retirada.
  -  maneira dos Partos(1)?
  - Eles procuravam refgio no deserto. Eu no conseguiria
faz-lo.
  - As mulheres nem sempre tm oportunidade de escolha - foi a
resposta dele.
  Mas, mal terminara a frase, ouviu-se, vindo do fundo da
estufa, um gemido abafado, seguido do baque da queda de um
corpo. Levantaram-se todos em sobressalto. A duquesa ficou
paralisada de terror. Lord Henry, o receio estampado no olhar,
precipitou-se por entre as folhas balouantes das palmeiras e
foi encontrar Dorian Gray cado de bruos sobre os ladrilhos,
e desmaiado como se estivesse morto.
  Transportaram-no de imediato para a sala azul e deitaram-no
sobre um dos sofs. Pouco tempo depois, ele voltou a si, e
olhou  sua volta com ar aturdido.
  - Que aconteceu? - perguntou. - Ah! J me lembro. Aqui estou
em segurana, Harry?
  Comeou a tremer.
  - Meu caro Dorian - respondeu-lhe Lord Henry -, foi apenas
um desmaio. Mais nada. Voc deve estar extremamente fatigado.
Ser melhor no descer para jantar. Eu posso substitu-lo.



  *1. Excelentes cavaleiros e guerreiros oriundos das estepes,
cujo imprio se situava entre os rios Eufrates e Indo (cerca
de 240 a. C. - cerca de 230 d. C.), utilizavam a estratgia de
disparar setas durante uma retirada, quer esta fosse real quer
simulada. (N. da T.)


                              226


  - No, eu deso - disse ele, levantando-se com dificuldade.
- Prefiro vir c abaixo. No posso ficar sozinho.
  Foi para o quarto vestir-se. Quando se sentou  mesa para
jantar, havia nos seus modos uma alegria exagerada e
inconsequente, mas de vez em quando percorria-o um frmito de
terror ao lembrar-se que, colada  janela da estufa, como um
leno branco, vira a cara de James Vane a fit-lo.


                         Captulo XVIII


     No dia seguinte no saiu de casa. A verdade  que passou
a maior parte do tempo no quarto, angustiado por um desmedido
pavor da morte, e, no entanto, indiferente  vida. Comeara a
obcec-lo a ideia de ser perseguido, atrado a uma armadilha e
caado. Estremecia se a tapearia abanava ao de leve com o
vento. As folhas mortas que o vento atirava contra as vidraas
pareciam-lhe os seus propsitos perdidos e desvairados
remorsos. Quando fechava os olhos, tornava a ver a cara do
marinheiro a espreit-lo atravs do vidro embaciado pela
nvoa, e, mais uma vez, sentia o pavor a apertar-lhe o
corao.
  Mas, provavelmente, fora a sua imaginao que fizera sair
das trevas da noite a vingana, e lhe pusera diante dos olhos
as formas hediondas do castigo. A vida real era o caos, mas a
imaginao tinha algo de terrivelmente lgico.
  Era a imaginao que lanava o remorso no rasto do pecado.
Era a imaginao que obrigava cada crime a gerar os seus
monstros. No mundo da banal realidade, os maus no eram
punidos, nem os bons recompensados. O triunfo era concedido
aos fortes, o fracasso imposto aos fracos. E era assim mesmo.
Alm disso, qualquer intruso que andasse a rondar a casa teria
sido visto pelos criados ou pelos couteiros. Se tivessem sido
encontradas pegadas nos canteiros de flores, os jardineiros
t-lo-iam informado. Estava convicto de que fora pura
imaginao. O irmo de Sibyl Vane no regressara para o matar.
Ele partira no seu navio e afundara-se em mar de invernia.
Dele, ao menos, estava livre. Ora, o homem no sabia quem ele
era, nem poderia saber. A mscara da juventude salvara-o.
  E, contudo, mesmo se aquilo fora apenas uma alucinao,


                         228  229


no deixava de ser terrvel pensar que a conscincia podia
criar fantasmas to medonhos, e dar-Lhes forma fsica e
movimento! Que vida seria a sua se, dia e noite, as sombras do
seu crime o espiassem de recantos silenciosos, dele
escarnecessem de lugares secretos, lhe segredassem ao ouvido a
meio de uma festa, o despertassem com dedos lgidos quando
dormia!  medida que a ideia se lhe insinuava na mente,
empalidecia de terror, e parecia-Lhe que o ar subitamente
arrefecera. Ah! O violento desvario daquela hora em que matara
o amigo! A simples lembrana da cena era aterradora! Tornava a
ver tudo. Voltava-lhe  memria cada pormenor horrendo
acrescentado de um novo horror. Da negra caverna do Tempo,
terrvel e envolta em faixas escarlates, surgia a imagem do
seu pecado. s seis horas, Lord Henry entrou no quarto e
encontrou-o num choro convulsivo, como se o corao se fosse
partir.
  S no terceiro dia se atreveu a sair. Havia qualquer coisa
no ar lmpido e perfumado de pinho daquela manh de Inverno
que parecia devolver-Lhe a jovialidade e o entusiasmo pela
vida. Mas no foram apenas as condies fsicas da atmosfera a
provocar a mudana. A prpria ndole rebelara-se contra a
excessiva angstia que tentara mutilar e destruir a perfeio
da sua serenidade.  uma caracterstica dos temperamentos
subtis e requintados. As suas paixes intensas devem magoar ou
vergar-se. Matam o homem, ou morrem.. Os pesares e amores
fteis sobrevivem. Os amores e pesares sublimes so destrudos
pela sua prpria plenitude. Alm do mais, ele convencera-se de
que fora vtima de uma imaginao dominada pelo terror, e, ao
rev-los agora, compadecia-se, e desdenhava mesmo, dos seus
medos.
  Aps o pequeno-almoo, passeou durante uma hora no jardim
com a duquesa; depois conduziu uma charrete at ao outro
extremo do parque para se juntar ao grupo dos caadores. A
geada parecia sal a cobrir a relva. O cu era o fundo azul de
uma taa de metal. Uma fina camada de gelo orlava a superfcie
lisa do lago onde cresciam juncos.
  Numa volta do pinhal, avistou Sir Geoffrey Clouston, o irmo
da duquesa, que sacudia da espingarda dois cartuchos vazios.
Saltou da charrete e; depois de ter ordenado ao moo de
estrebaria que regressasse com a gua, abriu caminho por entre
fetos secos e eriadas moitas em direco ao seu convidado.
  - A caada foi boa, Geoffrey? - perguntou-lhe.
  - No foi l muito boa, Dorian. Creio que a maioria dos
pssaros fugiu para os campos. Acho que ser melhor depois de
almoo, quando formos para outro stio.
  Dorian ia caminhando a seu lado. O ar estimulante e
perfumado, as cintilaes castanhas e vermelhas do bosque, os
gritos enrouquecidos dos batedores ressoando de tempos a
tempos, seguidos dos disparos secos das espingardas,
fascinavam-no e invadiam-no de uma sensao de deliciosa
liberdade. Era dominado por uma felicidade sem cuidados e uma
intensa e despreocupada alegria.
  De repente, de um encrespado tufo de penas secas, a umas
vinte jardas mais adiante, as orelhas de ponta preta
espetadas, e com as longas patas traseiras a impelirem-na para
a frente, saltou uma lebre. Escapava-se para uma mata de
amieiros. Sir Geoffrey encostou a espingarda ao ombro, mas
algo no movimento grcil do animal fascinou inesperadamente
Dorian Gray, que gritou de imediato.
  - No a mate, Geoffrey! Deixe-a viver.
  - Que dsparate, Dorian! - disse, rindo, o companheiro.
  E, quando a lebre saltou para o matagal, disparou.
Ouviram-se dois gritos: o grito de uma lebre ferida, o que 
horrvel, e o grito de um homem agonizante; o que  pior.
  - Valha-me Deus! Atingi um batedor! - foi a exclamao de
Sir Geoffrey. - Que estupidez! Ir colocar-se mesmo em frente
das espingardas! Vocs a, no disparem! - bradou ele aos
outros. - H um homem ferido.
  O chefe dos couteiros acorreu de varapau na mo.
  - Onde, senhor? Onde est ele? - gritou o homem. Ao mesmo
tempo cessaram os disparos em toda a fileira.
  - Est aqui - respondeu, irritado, Sir Geoffrey,
precipitando-se para a mata.


                         230  231


  - Por que cargas de gua no mantm os seus homens l atrs?
A caada do dia j est estragada.
  Dorian observava-os a embrenharem-se na mata de amieiros
afastando os ramos flexveis e balouantes. Reapareceram pouco
depois, arrastando um corpo para a luz do sol. Ele voltou as
costas horrorizado. A desgraa parecia segui-lo para onde quer
que fosse. Ouviu Sir Geoffrey perguntar se o homem estava
realmente morto, e a resposta afirmativa do couteiro. Tinha a
sensao de que, subitamente, o bosque se povoara de rostos.
Ouvia o tropel de mirades de ps e o grave sussurro de vozes.
Um grande faiso de peito acobreado surgiu esvoaando por
entre os ramos das rvores.
  Aps alguns momentos, que, no estado de perturbao em que
se encontrava, lhe pareceram interminveis horas de
sofrimento, sentiu a mo que pousara no seu ombro. Voltou-se,
sobressaltado.
  - Dorian - disse Lord Henry -, ser melhor que eu lhes diga
que a caada terminou por hoje. No pareceria bem continuar.
  - Quem me dera que terminasse para sempre, Harry -
respondeu, com amargura. -  uma coisa repugnante e cruel. O
homem est...?
  No conseguiu concluir a frase.
  - Creio que sim - retorquiu Lord Henry. - Apanhou a carga
toda no peito. Deve ter tido morte instantnea. Venha, vamos
para casa.
  Caminharam juntos na direco da alameda, percorrendo umas
cinquenta jardas em silncio. Ento Dorian olhou para Lord
Henry, soltando um longo suspiro.
  - Isto  um mau pressgio, Harry - disse ele -, um pressgio
muito mau.
  - O qu? - perguntou Lord Henry -, Ah, este acidente,
suponho. Meu caro amigo, no se pode fazer nada. Foi por culpa
do homem. Por que se colocou ele em frente das espingardas?
Alis, nada temos a ver com isso. O Geoffrey encontra-se numa
situao bastante delicada,  claro. No  conveniente atingir
os batedores. Leva as pessoas a pensar que somos atiradores
desastrados. E o Geoffrey no o ; ele  um ptimo atirador.
Mas no vale a pena falar sobre o assunto.
  Dorian abanou a cabea.
  -  um mau pressgio, Harry. Tenho a sensao de que uma
coisa terrvel vai acontecer a alguns de ns. Talvez a mim -
acrescentou, passando a mo pelos olhos, com um gesto de dor.
  O mais velho riu-se.
  - A nica coisa horrvel deste mundo  o Ennui, Dorian. Esse
 o nico pecado para o qual no existe perdo. Mas no 
provvel que ele nos afecte, a no ser que, durante o jantar,
estes amigos continuem a falar sobre o caso. Tenho de lhes
dizer que ser um assunto interdito. Quanto aos pressgios, 
coisa que no existe. O Destino no se faz anunciar. Tem
demasiado bom senso ou demasiada crueldade para o fazer. De
mais a mais, o que  que lhe poderia acontecer, Dorian? Voc
tem tudo o que um homem pode desejar neste mundo. No h
ningum que no ficasse encantado por trocar de lugar consigo.
  - No h ningum com quem eu no desejasse trocar de lugar,
Harry. No se ria assim.  verdade. O infeliz campons que
acaba de morrer est em melhor situao do que eu. No tenho
pavor da Morte. O que me aterroriza  a aproximao da Morte.
As suas asas monstruosas parecem adejar no ar plmbeo  minha
volta. Cus! No v um homem atrs daquelas rvores, a
espreitar-me, a esperar por mim?
  Lord Henry olhou na direco apontada pela mo enluvada que
tremia.
  - Vejo - respondeu a sorrir -, vejo o jardineiro  sua
espera. H-de querer saber que flores voc quer esta noite na
mesa. Mas que absurdo nervosismo o seu, meu caro amigo! Tem de
ir consultar o meu mdico quando regressarmos a Londres.
  Dorian suspirou de alvio ao ver o jardineiro a
aproximar-se.


                              232


  O homem levou a mo ao chapu, olhou hesitante para Lord
Henry, e depois mostrou uma carta, que entregou ao amo.
  - Sua Senhoria pediu-me que esperasse pela resposta -
balbuciou.
  Dorian meteu a carta no bolso.
  - Diga a Sua Senhoria que volto j - respondeu, com frieza.
  O homem deu meia volta e foi rapidamente na direco da
casa.
  - Muito gostam as mulheres de correr riscos! - riu Lord
Henry. - De todas as suas qualidades  a que mais admiro. Uma
mulher namora com qualquer pessoa deste mundo desde que tenha
espectadores.
  - Como voc gosta de dizer coisas perigosas, Harry! No caso
presente est muito enganado. Gosto muito da duquesa, mas no
a amo.
  - E a duquesa ama-o muito, mas gosta menos, por isso, esto
feitos um para o outro.
  - Est a difamar sem haver motivo algum, Harry.
  - O motivo de toda a difamao  uma certeza imoral -
observou Lord Henry, enquanto acendia um cigarro.
  - Voc sacrificaria quem quer que fosse por um epigrama.
  - Cada um vai ao altar de livre vontade - foi a resposta.
  - Eu bem desejaria poder amar - exclamou Dorian Gray, com
uma grave entoao pattica. - Mas tenho a impresso de que
perdi a paixo e esqueci o desejo. Concentro-me demasiado em
mim mesmo. A minha personalidade  para mim um fardo. Quero
fugir, partir, esquecer. Foi uma tolice eu ter vindo para
aqui. Creio que vou enviar um telegrama ao Harvey a dizer que
mande preparar o iate. Num iate sente-se segurana.
  - Segurana relativamente a qu, Dorian? Voc est com algum
problema. Por que no me diz o que se passa? Sabe bem que eu
estaria pronto a ajud-lo.
  - No Lhe posso dizer, Harry - respondeu, contristado.


                              233


- Deve ser coisa da minha imaginao. Este infeliz acidente
transtornou-me. Tenho um pressentimento horrvel de que me
pode acontecer algo semelhante.
  - Que disparate!
  - Oxal seja, mas no consigo evit-lo. Ah, aqui temos a
duquesa, que parece Artemisa(1) com um fato feito por medida.
Como v, regressmos, duquesa.
  - J sei tudo sobre o caso, Mr. Gray - respondeu ela. - O
pobre do Geoffrey est terrivelmente incomodado. E parece que
o senhor lhe pediu que no matasse a lebre.  curioso!
  - Foi, de facto, muito curioso. No sei o que me levou a
faz-lo. Algum capricho, talvez. Parecia a mais linda de todas
as criaturas. Mas lamento que lhe tenham falado do homem.  um
assunto horrendo.
  -  um assunto maador - interveio Lord Henry. - No tem
absolutamente nenhum valor psicolgico. Ora se o Geoffrey o
tivesse feito propositadamente, que interessante no seria!
Gostaria de conhecer algum que tivesse cometido um crime de
verdade.
  - Como voc  horrvel, Harry! - exclamou a duquesa. - No
concorda, Mr. Gray? Harry! Mr. Gray est outra vez
indisposto.Vai desmaiar.
  Dorian recomps-se com esforo, e sorriu.
  - No  nada, duquesa - balbuciou, - os meus nervos esto
pavorosamente abalados.  s isso. Acho que caminhei muito
esta manh. No ouvi o que disse o Harry. Foi muito
desagradvel? H-de contar-me noutra ocasio. Creio que vou
repousar. Peo que me desculpem.
  Haviam chegado ao grande lano de escadas que ia da estufa
ao terrao. Quando a porta de vidro se fechou nas costas de
Dorian, Lord Henry voltou-se e, com o seu olhar sonolento,
fitou a duquesa.
  - Est muito apaixonada por ele? - perguntou-lhe.
  Ela demorou algum tempo a responder, quedando-se a
contemplar a paisagem.


  *1. (Mitologia grega) Deusa da Lua e da caa. (N. da T.)


                              234


  - Quem me dera saber - disse, por fim.
  Ele meneou a cabea.
  - O saber seria fatal. A incerteza  que d encanto. A bruma
torna as coisas maravilhosas.
  - Podemos perder-nos no caminho.
  - Todos os caminhos vo dar ao mesmo stio, minha querida
Gladys.
  - E qual ?
  - O da desiluso.
  - Esse foi o meu dbut na vida - disse ela, com um suspiro.
  - Apareceu-lhe de coroa.
  - Estou cansada de folhas de morangueiro(1).
  - Ficam-lhe bem.
  - S em pblico.
  - Sentiria a sua falta - disse Lord Henry.
  - No me aparto de uma ptala sequer.
  - Monmouth pode ouvir.
  - A velhice  dura de ouvido.
  - Ele nunca teve cimes?
  - Quem me dera que tivesse.
  Ele olhou em volta como que  procura de alguma coisa.
  - O que procura? - perguntou ela.
  - O boto que lhe caiu da ponta do florete.
  - Ainda tenho a mscara posta - disse ela, rindo.
  - Faz-lhe os olhos mais bonitos - retorquiu ele.
  Ela riu-se de novo. Os dentes pareciam sementes brancas num
fruto escarlate.
  Em cima, no seu quarto, Dorian Gray encontrava-se estendido
num sof, com todas as fibras do corpo a vibrarem de terror.
De repente, a vida tornara-se um fardo hediondo que tinha de
carregar. A morte horrenda do infeliz batedor, abatido na mata
como um animal selvagem, parecera-lhe prefigurar tambm a sua
prpria morte.


  *1. Ornamento herldico das coroas ducais inglesas. (N. da
T.)


                              235


Quase desfalecera ao ouvir o que Lord Henry havia dito
casualmente num dos seus momentos de gracejos cnicos.
  s cinco horas tocou a campainha para chamar o criado e
ordenou-lhe que lhe fizesse as malas para apanhar o expresso
da noite para Londres, e que a berlinda estivesse  porta s
oito e meia. Estava decidido a no passar outra noite em Selby
Royal. Era um lugar agourento, por onde a Morte se passeava ao
sol. A relva da floresta ficara manchada de sangue.
  Depois escreveu um bilhete dirigido a Lord Henry, a
comunicar-lhe que ia a Londres consultar o mdico e a
pedir-lhe que se ocupasse dos convidados durante a sua
ausncia. Quando estava a met-lo no envelope, bateram 
porta. Era o seu criado pessoal a inform-lo de que o chefe
dos couteiros desejava falar-lhe. Ele fez um trejeito de
desagrado.
  - Diga-lhe que entre - resmungou, aps alguma hesitao.
  Assim que o homem entrou, Dorian sacou de uma gaveta o livro
de cheques e colocou-o aberto diante de si.
  - Calculo que veio aqui por causa do infeliz acidente desta
manh, Thornton - disse, pegando numa caneta.
  - Sim, senhor - respondeu o couteiro.
  - O pobre do homem era casado? Tinha pessoas a seu cargo? -
perguntou Dorian, com ar enfastiado. - Se for esse o caso, no
quero que passem necessidades. Mandarei uma quantia em
dinheiro que voc achar suficiente.
  - Ns no sabemos quem ele , senhor.  por causa disso que
tomei a liberdade de vir ter com Vossa Senhoria.
  - No sabem quem ? - perguntou Dorian, com indiferena. -
Que quer dizer com isso? No era um dos seus homens?
  - No, senhor. Nunca o tinha visto. Parece um marinheiro,
senhor.
  A caneta caiu da mo de Dorian Gray, e ele sentiu que, de
repente, o corao quase deixara de bater.
  - Um marinheiro? - exclamou. - Disse marinheiro?


                              236



  - Sim, senhor. Pelo aspecto, parece que era, tatuagens nos
dois braos, e tudo o mais.
  - Ele trazia alguma coisa consigo? - perguntou Dorian,
inclinando-se para a frente e fixando-o com ansiedade.Qualquer
coisa com o nome dele?
  - Algum dinheiro, senhor, no muito, e um revlver de seis
balas. No trazia nome neniium. Um homem com ar honesto,
senhor, mas um pouco rude. Do tipo marinheiro, achamos ns.
  Dorian ergueu-se de pronto. Alvoroado por uma tremenda
esperana, agarrava-se a ela desesperadamente.
  - Onde est o corpo? - exclamou. - Depressa! Preciso de o
ver imediatamente.
  - Est num estbulo vazio do Casal, senhor. O povo no gosta
de ter um morto em casa. Dizem que d azar.
  - O Casal! V logo ter comigo. Diga a um dos moos que me
traga o meu cavalo. Deixe, no  preciso. Eu mesmo vou 
estrebaria. Poupa-se tempo.
  Em menos de um quarto de hora, Dorian Gray galopava a toda a
brida pela alameda. As rvores passavam por ele a fugir em
espectral desfile e sombras desordenadas atravessavam-se no
caminho. Houve um momento em que a gua se desviou bruscamente
do pilar branco de um porto e quase o arremessou ao solo.
Fustigou-Lhe o pescoo com o pingalim. Ela fendeu o ar
poeirento como uma seta. Os cascos faziam voar as pedras.
  Finalmente chegou ao Casal. Dois homens passeavam pelo
ptio. Ele saltou da sela e atirou as rdeas a um deles. No
estbulo mais afastado viu uma luz. Teve o pressentimento de
que o corpo estava ali. Dirigiu-se apressado para a porta e
pousou a mo no ferrolho.
  Deteve-se a por instantes, sentindo que estava  beira de
uma descoberta que o poderia salvar ou destruir-lhe a vida.
Ento empurrou a porta e entrou.
  Ao fundo, sobre uma pilha de serapilheiras, jazia o cadver
de um homem que vestia uma camisa grosseira e umas calas
azuis, Um leno manchado tapava-lhe o rosto.


                              237


Ao lado, no gargalo de uma garrafa, crepitava uma vela tosca.
  Dorian Gray estremeceu. Sentiu que no podia ser a sua mo a
que havia de tirar o leno, e chamou por um dos criados,
dizendo-Lhe que se aproximasse.
  - Tira aquilo da cara. Quero v-la - disse ele, agarrado 
ombreira da porta para se apoiar.
  Quando o criado fez o que lhe ordenara, ele avanou. Soltou
um grito de alegria. O homem que fora alvejado na mata era
James Vane.
  Permaneceu ali alguns minutos a olhar para o cadver. Ao
voltar para casa, os olhos iam rasos de lgrimas, pois sabia
que estava salvo.



                         Captulo XIX



     -  escusado dizer-me que passar a ser um homem bom -
exclamou Lord Henry, mergulhando os dedos alvos numa taa de
cobre vermelho cheia de gua de rosas. - Voc  absolutamente
perfeito. No mude, peo-lhe.
  Dorian Gray abanou a cabea em jeito de recusa.
  - No, Harry, fiz por demais coisas horrveis na minha vida.
No vou tornar a faz-las. Comecei ontem com as minhas boas
aces.
  - Onde esteve ontem?
  - No campo, Harry. Estive sozinho numa pequena estalagem.
  - Meu rapaz - disse Lord Henry sorrindo -, no campo, quem
quer que seja pode ser boa pessoa. L no existem tentaes.
Por esse motivo  que as pessoas que vivem fora da cidade so
totalmente incivilizadas. A civilizao no  de modo algum
fcil de se conseguir. H apenas duas maneiras possveis de a
alcanar. Uma  atravs da cultura, a outra atravs da
corrupo. As pessoas que vivem no campo no tm oportunidade
para nenhuma delas e, por isso, estagnam.
  - Cultura e corrupo - repetiu, como um eco, Dorian. -
Conheci um pouco de ambas. Agora parece-me terrvel que se
encontrem sempre juntas. Pois eu tenho um novo ideal, Harry.
Vou mudar. Creio que j mudei.
  - Ainda me no disse qual foi a sua boa aco. Ou disse-me
que fizera mais do que uma? - perguntou-Lhe o companheiro,
enquanto deitava no prato uma pequena pirmide carmesim de
morangos, e, por uma colher perfurada e em forma de concha,
fazia cair uma neve de acar branco sobre eles.
  - Posso dizer-lhe, Harry. No  uma histria que pudesse
contar a mais algum. Poupei uma pessoa. Parece vaidade minha,
mas compreende o que quro dizer. Ela era muito bela, e de uma
parecena maravilhosa com Sibyl Vane. Acho que foi a primeira
coisa que me atraiu. Lembra-se da Sibyl, no lembra? Parece
que foi h tanto tempo! Bem, a Hetty no era da nossa classe
social,  claro. Era simplesmente uma rapariga de aldeia. Mas
eu amava-a deveras. Tenho absoluta certeza de que a amava.
Durante todo este maravilhoso ms de Maio em que estamos,
costumava correr a visit-la duas ou trs vezes por semana.
Ontem foi ter comigo a um pequeno pomar. As flores de macieira
no paravam de cair-lhe sobre o cabelo, e ela ria-se.
Deveramos ter partido juntos hoje de madrugada. De rePente
resolvi deix-la to em flor como a encontrara.
  - Eu diria que a novidade da emoo deve ter-lhe provocado
um frmito de verdadeiro prazer, Dorian - interrompeu Lord
Henry. - Mas posso completar o seu idlio. Voc deu-lhe bons
conselhos e deixou-a de corao desfeito. Foi assim que
comeou a sua regenerao.
  - Harry, voc  horrvel! No quero que diga essas coisas
tremendas. O corao da Hetty(1) no est desfeito.  claro
que chorou, e no s. Mas no se abateu sobre ela a ignomnia.
Como Perdital, pode viver no seu jardim de hortel e
margaridas.
  - E chorar pelo desleal Florizel(2) - disse Lord Henry, a
rir, reclinando-se na cadeira. - Meu caro Dorian, voc tem
atitudes curiosamente infantis. Acredita que esta rapariga
ficar alguma vez realmente satisfeita com algum da mesma
classe social? Suponho que h-de casar um dia com um rude
carroceiro ou com um lavrador bonacheiro. Ora o tacto de o
ter conhecido a si, e de o ter amado, vai ensin-la a
desprezar o marido, e ento viver infeliz. Sob um ponto de
vista moral, no posso dizer que tenho grande opinio sobre a
sua sublime renncia.


  *1 e 2. Personagens da pea de Shakespeare: The WInter's
Tale (Conto de Inverno). (N. da T.)


                              240


Mesmo como comeo, no vale muito. Alm disso, quem sabe se a
Hetty, neste preciso momento, no flutua em qualquer aude 
luz das estrelas, rodeada de belos nenfares, como Oflia(1)?
  - No posso suportar mais! Voc zomba de tudo, e a seguir
sugere possibilidades de gravssimas tragdias. Arrependo-me
agora de lhe ter contado. No me interessa o que voc me diz.
Sei que fiz bem ao agir como agi. Coitada da Hetty! Quando
hoje de manh passei a cavalo pela quinta, vi o seu rosto
plido  janela, como uma haste de jasmim. No falemos mais
disso, e no tente persuadir-me de que a primeira boa aco
que fiz ao fim de tantos anos, o pouquinho de sacrifcio
pessoal que fiz pela primeira vez na minha vida, no passa de
uma espcie de pecado. Quero ser melhor. Vou ser melhor. Agora
fale-me de si. Que novidades h em Londres? Faz tempo que no
vou ao clube.
  - As pessoas ainda comentam o desaparecimento do pobre do
Basil.
  - Sempre supus que j seria a altura de se terem cansado do
assunto - disse Dorian, servindo-se de vinho, e franzindo um
pouco as sobrancelhas.
  - Meu caro, a conversa vai s em seis semanas, e o pblico
britnico no tem capacidade para o esforo mental de ter mais
do que um tema de conversa de trs em trs meses. Contudo,
ultimamente, tm tido muita sorte. Tiveram o meu divrcio e o
suicdio de Alan Campbell. Agora tm o misterioso
desaparecimento de um artista. A Scotland Yard continua a
insistir que o homem do sobretudo cinzento que partiu para
Paris no comboio da meia-noite do dia nove de Novembro era o
coitado do Basil, e a Polcia francesa declara que o Basil
nunca chegou a Paris. Acho que dentro de quinze dias nos vo
dizer que foi visto em So Francisco.  curioso, mas sempre
que algum desaparece dizem que foi visto em So Francisco.


  *1. Personagem da pea de Shakespeare: Hamlet. (N. da T.)


                              241


Deve ser uma cidade encantadora e possuir todos os atractivos
do outro mundo.
  - O que pensa que ter acontecido ao Basil? - perguntou
Dorian, segurando o copo de Borgonha contra a luz, e
surpreendido por conseguir falar do assunto com tanta
serenidade.
  - No fao a mnima ideia. Se o Basil decide esconder-se,
nada tenho a ver com isso. Se morreu, nem quero pensar nele. A
morte  a nica coisa que sempre me apavora. Detesto-a.
  - Por qu? - perguntou, um tanto enfastiado, o mais jovem
dos dois homens.
  - Porque - respondeu Lord Henry, passando por baixo das
narinas a rede dourada de uma caixa de sais aromticos -,
podemos sobreviver a tudo, menos a ela. A morte e a
vulgaridade so os dois nicos factos do sculo XIX que no
conseguimos explicar. Bem, vamos tomar o caf na sala de
msica, Dorian. Vai ter de tocar Chopin para mim. O homem com
quem a minha mulher fugiu tocava Chopin primorosamente. Pobre
Victoria! Eu era muito amigo dela. A casa est bastante
solitria sem a sua presena.  certo que a vida de casado 
simplesmente um hbito, um mau hbito. Mas depois lamentamos a
perda at dos nossos piores hbitos. So talvez os que mais
lamentamos. So uma parte essencial da nossa personalidade.
  Dorian no disse nada, mas levantou-se da mesa e, passando 
outra sala, sentou-se ao piano e deixou que os dedos
percorressem as teclas brancas e pretas de marfim. Depois de
terem trazido o caf, no continuou e olhou para Lord Henry.
  - Harry - perguntou -, alguma vez lhe ocorreu que o Basil
tenha sido assassinado?
  Lord Henry bocejou.
  - O Basil gozava de muita popularidade e usava sempre um
relgio Waterbury. Por que havia de ser assassinado? No era
suficientemente inteligente para ter inimigos.  um facto que
era um pintor de gnio. Mas um homem pode ser um Velzquez e,
no entanto, ser o mais obtuso possvel.


                              242


O Basil era na verdade bastante obtuso. Despertou-me interesse
apenas uma vez, que foi quando ele me disse, h anos, que
tinha uma adorao louca por si, e que voc era o motivo
dominante da sua arte.
  - Eu era muito amigo do Basil - disse Dorian, com uma
entoao de tristeza na voz. - Mas no dizem que ele foi
assassinado?
  - Ah, sim, alguns jornais dizem. No me parece nada
provvel. Sei que h lugares medonhos em Paris, mas o Basil
no era o gnero de pessoa que os frequentasse. Ele tinha
falta de curiusidade. Era o seu principal defeito.
  - Harry, o que diria voc se eu Lhe contasse que assassinara
o Basil? - perguntou o mais novo, fixando atentamente o outro.
  - Diria, meu caro amigo, que estava a fazer pose para uma
personagem que no condiz consigo. Todo o crime  grosseiro,
assim como toda a grosseria  crime. No est no seu feitio
cometer um crime, Dorian. Desculpe se feri a sua vaidade ao
dizer isto, mas garanto-Lhe que  verdade. O crime pertence
exclusivamente s classes mais baixas. No as censuro
minimamente. Diria que o crime seria para eles o que a arte 
para ns, simplesmente um mtodo de obter sensaes
extraordinrias.
  - Um mtodo de obter sensaes? Acha ento que um homem que
cometeu um crime uma vez poderia voltar a cometer o mesmo
crime? No me diga.
  - Ora, qualquer coisa pode vir a ser um prazer, se a
fizermos repetidamente - exclamou, rindo, Lord Henry. - Esse 
um dos mais importantes segredos da vida. Creio, todavia, que
o assassnio  sempre um erro. Nunca se deve fazer aquilo de
que se no possa falar  hora do jantar! Mas no falemos mais
do pobre Basil. Desejava poder acreditar que ele havia tido um
fim realmente to romntico como o que voc acaba de sugerir,
mas no consigo. Atrevo-me a afirmar que ele caiu de um nibus
ao Sena, e que o revisor abafou o escndalo. Sim, imagino que
foi esse o fim que levou. Vejo-o agora jazendo de costas,


                              243


no fundo daquelas guas de um verde sombrio, com as pesadas
barcaas a flutuarem por cima dele, e longas algas presas ao
seu cabelo. Sabe, no creio que ele viesse a executar muitos
mais trabalhos de qualidade. Nos ltimos dez anos a sua
pintura decara muito.
  Dorian soltou um longo suspiro, e Lord Henry atravessou a
sala e comeou a afagar a cabea de um extico
papagaio-de-java, uma ave grande de plumagem cinzenta, a
crista e a cauda cor-de-rosa, que se equilibrava num poleiro
de bambu. Quando os dedos afilados lhe tocaram, a ave baixou
as grossas plpebras enrugadas sobre os olhos pretos e
brilhantes e comeou a balanar.
  - Sim - continuou ele, voltando-se e tirando o leno do
bolso -, a sua pintura decara completamente. Parecia haver
perdido qualquer coisa. Perdera um ideal. Quando vocs os dois
deixaram de ser grandes amigos, ele deixou de ser um grande
artista. O que vos levou a separarem-se? Imagino que voc o
achava enfadonho. Se foi por isso, ele nunca lhe perdoou. 
caracterstico nessas pessoas. A propsito, o que  feito
daquele retrato maravilhoso que ele Lhe fez? Suponho que nunca
o vi desde que ele o acabou. Ah! Agora me recordo de voc me
ter dito h uns anos que o enviara para Selby, e que se
extraviara ou o roubaram no trajecto. Nunca o recuperou? Que
pena! Era uma verdadeira obra-prima. Lembro-me de o querer
comprar. Quem me dera agora t-lo comprado. Pertencia ao
melhor perodo do Basil. A partir de ento, a obra dele era
essa estranha mescla de pintura medocre e de boas intenes
que habilita um indivduo a ser considerado representante da
arte britnica. Voc no mandou um anncio para o jornal?
Devia ter feito isso.
  - No me recordo - respondeu Dorian. - Acho que mandei.
Sinceramente, nunca gostei do retrato. Estou arrependido de
ter posado. A sua lembrana -me odiosa. Mas por que fala
agora nele? Faz-me lembrar aqueles curiosos versos de uma
pea, suponho que do Hamlet... como so?..


                              244



     Like the painting of a sorrow,
     A face without a heart(1).


  Sim, o retrato era assim mesmo.
  Lord Henry riu-se.
  - Se um homem considera a vida como arte, passa a ter o
crebro no corao - observou ele, afundando-se numa poltrona.
  Dorian Gray abanou a cabea discordando, e tocou alguns
suaves acordes no piano.
  - Like the painting of a sorrow - repetiu ele -, a face
Without a heart.
  O homem mais velho recostou-se e olhou para ele,
semicerrando os olhos.
  - A propsito, Dorian - disse ele, aps uns minutos de
silncio -, de que serve a um homem conquistar o mundo todo e
perder... como  a citao? a prpria alma?
  A msica soou dissonante, e Dorian Gray, os olhos
esgazeados, fitou o amigo.
  - Por que me faz essa pergunta, Harry?
  - Meu caro - respondeu-lhe Lord Henry, erguendo as
sobrancelhas em jeito de surpresa -, porque pensei que me
pudesse dar uma resposta. Mais nada. No passado domingo,
atravessava eu o Parque, estava um pequeno ajuntamento de
maltrapilhos especado a ouvir um vulgar pregador de rua, perto
do Marble Arch. Ao passar por ali, ouvi o homem em altos
berros a fazer esta pergunta  assistncia. Impressionou-me o
dramatismo da cena. Londres  muito frtil em efeitos curiosos
deste gnero. Um domingo de chuva, um cristo inculto de capa
de borracha, um crculo de rostos plidos e doentios sob um
telhado irregular de guarda-chuvas gotejantes, e uma frase
espantosa lanada por uma boca estridente e histrica... foi
de facto surpreendente, muito sugestivo. Pensei em dizer ao
profeta que a Arte tinha alma, mas o homem no. Pareceu-me,
todavia, que no me teria compreendido.


  *1. Como a pintura de um desgosto, / Um rosto sem corao.
(N. da T.)


                              245


  - No diga isso, Harry. A alma  uma realidade terrvel.
Pode ser comprada, e vendida, e negociada. Envenenada ou
aperfeioada. Existe uma alma em cada um de ns. Eu sei.
  - Tem a certeza absoluta, Dorian?
  - Tenho.
  - Ah, nesse caso, deve ser uma iluso. As coisas acerca das
quais temos certezas absolutas nunca so verdadeiras. Essa  a
fatalidade da F e a lio da aventura amorosa. Que ar to
grave! No ponha esse ar to srio. O que temos ns dois a ver
com as supersties da nossa poca? No, ns deixmos de
acreditar na alma. Toque qualquer coisa para mim. Um nocturno,
Dorian, e, enquanto toca, conte-me, em voz baixa, como manteve
a sua juventude. Voc deve ter algum segredo. Sou apenas dez
anos mais velho, e estou cheio de rugas, gasto e macilento.
Voc est deveras maravilhoso, Dorian. Nunca esteve to
encantador como esta noite. Faz-me lembrar o dia em que o vi
pela primeira vez. Voc era impertinente e tmido, e
absoltamente extraordinrio.  certo que mudou, mas no de
aspecto. Gostaria que me dissesse o seu segredo. Para reaver a
minha juventude, eu faria tudo no mundo, excepto ginstica,
levantar-me cedo, ou ser uma pessoa respeitvel. A juventude!
No h nada que se lhe compare.  absurdo falar da ignorncia
da juventude. As pessoas cujas opinies ouo hoje com algum
respeito so as pessoas muito mais novas do que eu. Parecem-me
avanadas em relao a mim. A vida revelou-Lhes a sua ltima
maravilha. Quanto aos velhos, estou sempre em contradio com
eles. Fao-o por uma questo de princpio. Se lhes pedimos a
opinio sobre uma coisa que aconteceu ontem, do-nos, com toda
a solenidade, as opinies correntes em 1820, quando se usavam
colarinhos altos, se acreditava em tudo e no se sabia
absolutamente nada. Que bonita essa coisa que est a tocar!
Ser que Chopin a comps em Maiorca, com o pranto do mar em
redor da villa e a espuma salgada a bater nos vidros das
janelas?  extraordinariamente romntica.


                              246


Foi uma bno ter-nos ficado uma arte que no  imitativa.
No pare. Preciso de msica esta noite. Voc  o jovem
Apolo(1) e eu sou Mrcias(2) a escut-lo. Eu tenho as minhas
mgoas , Dorian, que nem mesmo voc conhece. A tragdia da
veLhice no  ser-se velho, mas ser-se novo. Fico s vezes
surpreendido com a minha sinceridade. Ah, que feliz  voc,
Dorian! Tem tido uma vida magnfica! Bebeu de tudo at 
ltima gota. Esmagou as uvas contra o palato. Nada lhe foi
oculto. Para si tudo foi apenas como o som de msica, no o
afectou. Voc continua a ser o mesmo.
  - No sou o mesmo, Harry.
  - Sim,  o mesmo. Gostaria de saber o que ser o resto da
sua vida. No a estrague com renncias. Presentemente voc 
um tipo perfeito. No se torne imperfeito. Neste momento 
impecvel. Escusa de abanar a cabea. Sabe bem que o . Alm
disso, Dorian, no se iluda. A vida no  regida pela vontade
ou pela inteno. A vida  uma questo de nervos, e fibras, e
clulas que se formam lentamente, e onde o pensamento se
oculta e a paixo constri os seus sonhos. Voc pode
imaginar-se seguro, e considerar-se forte. Mas a tonalidade
ocasional de um quarto ou de um cu matutino, um certo perfume
de que um dia gostou e que traz consigo subtis recordaes, um
verso de um poema esquecido que reencontrou, a cadncia de uma
msica que deixou de tocar... so essas as coisas, Dorian, de
que dependem as nossas vidas. Browning(3) escreve acerca disso
algures, mas os nossos sentidos so capazes de as imaginar por
ns. H momentos em que, de repente, sinto o aroma do lilas
blanc, e tenho de reviver o ms mais estranho da minha vida.


  *1 e 2. Referncia ao talento musical do deus Apolo, este
foi desafiado pelo stiro Mrcias, flautista exmio, para uma
competio musical. (N. da T.)

  3. Robert Browning (1812-89): poeta ingls, cuja obra
exemplifica uma das tendncias dominantes da poesia vitoriana
(...): um fervoroso empenho na anlise e crtica moral.
(Legouis, mile & Cazamian, Louis, A History of English
Literature, Londres, J. M. Dent and Sons, 1957, p.1192.). (N.
da T.)


                              247


Gostaria de trocar o meu lugar pelo seu, Dorian. U mundo tem
clamado contra ns dois, mas a si tem-no adorado sempre. E
h-de ador-lo sempre. Voc  o tipo de que a nossa poca tem
andado  procura e que receia ter encontrado. Agrada-me tanto
que voc nunca haja feito nada, que nunca tenha esculpido uma
esttua, ou pintado um quadro, ou produzido algo exterior a
si! A vida tem sido a sua arte. Voc transcreve-se em msica.
Os seus dias so os seus sonetos.
  Dorian deixou o piano e passou a mo pelo cabelo.
  - Sim, a vida tem sido magnfica - murmurou -, mas no vou
ter a mesma vida, Harry. E no deve dizer-me essas coisas
extravagantes. Voc no sabe tudo a meu respeito. Se soubesse,
creio que at se afastaria de mim. Voc ri-se. No ria.
  - Por que deixou de tocar, Dorian? Volte para o piano e
toque outra vez esse nocturno. Veja aquela Lua cor de mel
suspensa no ar sombrio. Est  espera que voc a enfeitice, e
se voc tocar ela vir aproximar-se da terra. No quer? Ento
vamos ao clube. Est uma noite encantadora, e devemos
termin-la de uma forma encantadora. Est uma pessoa em casa
do White que est morto por conhec-lo.  o jovem Lord Pole, o
filho mais velho do Bournemouth. J copiou as suas gravatas, e
pediu-me que lhe fosse apresentado. Ele  um encanto e faz-me
lembrar voc.
  - Espero bem que no - disse Dorian, com uma expresso
triste no olhar. - Mas hoje estou cansado, Harry. No vou ao
clube. So quase onze horas, e quero deitar-me cedo.
  - Peo-Lhe que fique. Voc nunca tocou to bem como hoje.
Havia algo de mgico nos seus dedos. Foram mais expressivos do
que nunca.
  -  porque vou tornar-me bom - respondeu, sorrindo. - J
mudei um pouco.
  - Para mim no pode mudar, Dorian - disse Lord Henry. - Voc
e eu seremos sempre amigos.
  - No entanto, voc envenenou-me uma vez com um livro.


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No lhe devia perdoar. Harry, prometa-me que nunca ir
emprestar esse livro a algum. Ele  nocivo.
  - Meu rapaz, voc est mesmo a comear a ser moralista. No
tardar que ande com os convertidos, e os revivalistas, a
alertar as pessoas contra todos os pecados de que se cansou.
Voc  demasiado encantador para fazer uma coisa dessas. Alm
disso, no vale a pena. Voc e eu somos o que somos e seremos
o que formos. Quanto a ser envenenado por um livro,  coisa
que no existe. A arte no influencia a aco. Ela anula o
desejo de agir.  soberbamente estril. O mundo chama imorais
aos livros que lhe revelam a sua prpria infmia. Mais nada.
Mas deixemos a literatura. Aparea amanh. Vou dar um passeio
a cavalo s onze horas. Podamos ir juntos, e depois levo-o a
almoar com Lady Branksome.  uma mulher encantadora e quer
consult-lo sobre umas tapearias que pensa comprar. Veja se
no falta. Ou almoamos com a nossa querida duquesa? Ela diz
que nunca mais o viu. Ser que voc se cansou da Gladys? Eu
logo calculei. A sua lngua arguta  enervante. Bem, em
qualquer caso, esteja aqui s onze.
  - Preciso mesmo de vir, Harry?
  - Com certeza. O Parque est agora uma beleza. Acho que no
tem havido lilases como agora desde o ano em que o conheci.
  - Est bem. Estarei aqui s onze - disse Dorian. - Boa
noite, Harry.
  Ao chegar  porta, hesitou um pouco, como se tivesse mais
alguma coisa para dizer. Depois soltou um suspiro e saiu.



                         Captulo XX


     Estava uma noite linda, e to amena que levava o casaco
no brao e nem sequer ps o leno de seda em volta do pescoo.
Quando se dirigia para casa, a fumar o seu cigarro, passaram
por ele dois jovens em trajo de cerimnia. Ouviu um deles
cochichar para o outro: "Aquele  Dorian Gray". Lembrou-se da
satisfao que costumava sentir quando as pessoas o apontavam,
ou se quedavam a olh-lo, ou falavam dele. Agora ficava farto
s de ouvir o prprio nome. Parte do encanto da pequena aldeia
em que tantas vezes ficara ultimamente era o facto de ningum
o conhecer:  rapariga que seduzira at  paixo dissera
frequentemente que era pobre, e ela acreditara nele.
Dissera-Lhe uma vez que era um homem mau, mas ela rira-se dele
e respondera que as pessoas ms eram sempre muito velhas e
feias. O que ela rira! Parecia um tordo a cantar. E que bonita
era com seu vestido de algodo e os enormes chapus! Ela tudo
ignorava, mas possua tudo o que ele perdera.
  Quando chegou a casa encontrou o criado  sua espera.
Disse-lhe que se fosse deitar, e atirou-se para cima do sof
da biblioteca, quedando-se a reflectir sobre algumas das
coisas que Lord Henry lhe dissera.
  Era mesmo verdade que nunca conseguamos mudar? Sentiu uma
nsia louca pela sua mocidade imaculada, a flor da sua
juventude, como Lord Henry uma vez Lhe chamara. Sabia que se
maculara, que corrompera o esprito e alimentara de horrores a
imaginao, que havia sido uma influncia malfica para
outros, e que sentira um jbilo terrvel ao t-lo sido, e que,
das vidas que se haviam cruzado com a sua, fora  mais pura e
prometedora que trouxera o oprbrio. Mas tudo isso era
irreparvel? Para ele no havia esperana?


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  Ah! Que monstruoso momento de soberba e paixo aquele em que
suplicara que fosse o retrato a carregar o fardo dos seus
dias, e ele mantivesse o esplendor impoluto da eterna
juventude! Todo o seu fracasso se devera a isso. Tinha sido
melhor para ele que cada pecado da sua vida trouxesse consigo
o castigo firme e imediato. O castigo purificava. No o
"Perdoai os nossos pecados, Castigai-nos pelas nossas
iniquidades"  que deveria ser a prece de um homem dirigida a
um Deus de justia.
  O espelho minuciosamente trabalhado, que Lord Henry Lhe
oferecera havia j tantos anos, encontrava-se em cima da mesa,
e os alvos Cupidos da moldura riam-se como dantes. Pegou nele,
como fizera naquela noite de horror em que notara pela
primeira vez a transformao no retrato fatdico, e, com olhos
desvairados e enevoados pelas lgrimas, mirou a superfcie
polida. Um dia, algum que o amara loucamente escrevera-lhe
uma carta apaixonada que terminava com estas palavras de
idolatria: "O mundo mudou porque s feito de ouro e marfim. As
curvas dos teus lbios rescrevem a histria." Relembrou as
frases e repetiu-as para si uma vez e outra. Ento abominou a
sua prpria beleza e, arremessando ao cho o espelho,
esmagou-o sob o taco em estilhaos de prata. Foi a sua beleza
que o arruinara, a sua beleza e a juventude pela qual
suplicara. Sem essas duas coisas, a sua vida teria sido
imaculada. A sua beleza no fora seno um disfarce, a sua
juventude um simulacro. O que era a juventude, na melhor das
hipteses? Um tempo de inexperincia e imaturidade, de fteis
caprichos e pensamentos mrbidos. Por que vestira ele as suas
roupagens? A juventude causara a sua corrupo.
  Era melhor no pensar no passado. Nada o poderia alterar.
Era em si prprio e no seu futuro que havia que pensar. James
Vane ficara oculto numa campa annima da igreja de Selby. Alan
Campbell suicidara-se de noite no seu laboratrio, mas no
revelara o segredo que havia sido obrigado a saber. O alvoroo
suscitado pelo desaparecimento de Basil Hallward no tardaria
a passar. J comeava a diminuir. Ele estava em total
segurana. Na verdade, nem era a morte de Basil Hallward o que
mais lhe pesava na conscincia. O que o atormentava era a
morte viva da prpria alma. Basil pintara o retrato que lhe
destrura a vida. E isso no Lhe podia perdoar. O retrato fora
o causador de tudo. Basil dissera-Lhe coisas insuportveis que
ele, contudo, levara com pacincia. O assassnio fora simples
loucura de um momento. Quanto a Alan Campbell, suicidara-se
por sua livre vontade. Fora deciso sua. Ele nada tinha a ver
com o caso.
  Uma vida nova! Era disso que precisava. Era aquilo de que
estava  espera. Certamente j a havia comeado. Ao menos,
poupara a inocncia de algum. Jamais atentaria contra a
inocncia. Seria um homem bom.
  Ao pensar em Hetty Merton, comeou a interrogar-se se o
retrato do quarto trancado teria mudado. Com certeza que no
continuava to horrvel como fora. Se a sua vida se tornasse
pura, talvez conseguisse expulsar do retrato todo o vestgio
de paixo ruim. Talvez que os estigmas da maldade se tivessem
j desvanecido. Iria ver.
  Pegou no candeeiro que estava sobre a mesa e subiu as
escadas de mansinho. Ao destrancar a porta, passou-lhe pelo
rosto espantosamente jovem um sorriso de jbilo, que
permaneceu nos lbios por um instante. Sim, havia de ser bom,
e a coisa hedionda que ele escondera deixaria de ser o terror
da sua vida. Tinha a sensao de que esse peso j lhe sara de
cima do peito.
  Entrou silenciosamente, fechou a porta, como habitualmente
fazia, e puxou a cortina prpura. Soltou um grito de dor e
indignao. No viu transformao alguma, salvo uma expresso
de astcia nos olhos e, na boca, o ricto da hipocrisia. Aquilo
continuava abominvel - mais abominvel, se possvel, do que
antes - e a cor escarlate das gotas que orvalhavam a mo era
ainda mais viva, mais parecendo sangue recm-derramado. Ento
ele comeou a tremer. Teria sido apenas vaidade o que o levara
a cometer a sua nica boa aco? Ou o desejo de uma nova
sensao, como sugerira Lord Henry, com seu riso de troa?


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Ou aquela paixo por desempenhar um papel que, por vezes, nos
conduz a actos mais perfeitos do que ns mesmos? Ou, talvez,
todas estas coisas juntas? E por que seria que a mancha
vermelha era maior agora? Parecia ter alastrado, como horrvel
doena, pelos dedos engelhados. Havia sangue sobre os ps
pintados, como se tivesse pingado, havia sangue at na mo que
no empunhara a faca. Confessar? Quereria dizer que ele tinha
que confessar? Entregar-se, e ser condenado  morte? Riu-se.
Considerava a ideia monstruosa. Alm disso, mesmo se
confessasse, quem iria acreditar nele? No havia vestgios do
homem assassinado em parte alguma. Tudo o que lhe pertencia
fora destrudo. Ele mesmo queimara o que estivera guardado no
vo das escadas. Todos diriam muito simplesmente que ele
estava louco. Intern-lo-iam se persistisse na sua histria...
No entanto, era seu dever confessar, sofrer o vexame pblico e
expiar publicamente os seus delitos. Existia um Deus que
convocava os homens para confessarem os seus pecados  terra e
ao cu. Tudo o que fizesse no o purificaria se no
confessasse o seu pecado. O seu pecado? Encolheu os ombros num
gesto de indiferena. A morte de Basil Hallward parecia-Lhe
insignificante. Pensava em Hetty Merton. Afinal, era injusto
este espelho em que se mirava, o espelho da sua alma. Vaidade?
Curiosidade? Hipocrisia? No houvera nada mais na sua renncia
seno isso? Houvera algo mais. Pelo menos ele acreditava que
sim. Mas quem poderia dizer?... No. Nada mais houvera.
Poupara-a por vaidade. Usara com hipocrisia a mscara da
bondade. Por curiosidade experimentara a auto-renncia.
Reconhecia tudo isso agora.
  Mas este crime havia de persegui-lo toda a vida? Teria de
carregar para sempre com o passado? Ele teria mesmo de
confessar? Nunca. Restava apenas uma prova contra ele. O
prprio retrato. Isso era uma prova. Destru-lo-ia. Por que o
conservara tanto tempo? Houve um tempo em que sentira prazer
v-lo mudar e envelhecer. Ultimamente no sentia esse prazer.
 noite impedia-o de dormir.


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  Quando se ausentava, invadia-o o pavor de que outros olhos o
contemplassem. Repassara de melancolia as suas paixes.  sua
simples lembrana, se haviam frustrado muitos momentos de
alegria. Representava para si uma conscincia. Sim, era a sua
conscincia. Tinha de o destruir.
  Procurou com o olhar, e viu a faca que apunhalara Basil
Hallward. Limpara-a muitas vezes, at no ficar mancha alguma.
Estava polida e brilhava. Como matara o pintor, assim havia de
matar a sua obra, e tudo o que ela reprsentava. Mataria o
passado, e com essa morte ele sentir-se-ia livre. Mataria essa
monstruosa vida da alma e, sem os seus hediondos avisos, ele
ficaria em paz. Agarrou na faca e apunhalou o retrato.
  Ouviu-se um grito e um tombo. O grito de agonia foi to
horrvel que os criados, assustados, acordaram e saram
silenciosamente dos seus quartos. Dois cavalheiros, que
passavam em baixo na Praa, pararam e olharam para a grande
manso. Continuaram a andar at que encontraram um polcia, e
voltaram atrs com ele. O homem tocou vrias vezes 
campainha, mas ningum apareceu. Com excepo de uma luz numa
das janelas do ltimo andar, a casa estava completamente s
escuras. Pouco depois, afastou-se e ficou parado num portal
prximo a observar.
  - De quem  aquela casa, senhor guarda? - perguntou o mais
velho dos dois indivduos.
  - De Mr. Dorian Gray, senhor - respondeu o polcia.
  Ao afastarem-se, olharam um para o outro e riram com um riso
escarninho. Um deles era o tio de Sir Henry Ashton.
  Dentro de casa, na parte reservada ao pessoal domstico, os
criados, semivestidos, falavam uns com os outros, sussurrando.
A velha Mrs. Leaf chorava e torcia as mos. Francis estava
plido como a morte.
  Cerca de um quarto de hora depois, chamou o cocheiro e um
dos lacaios, e subiram as escadas. Bateram  porta, mas no
obtiveram resposta. Bradaram. Estava tudo em silncio. Por
fim, depois de, em vo, tentarem arrombar a porta,


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subiram ao terrao e desceram para a varanda. As janelas
cederam facilmente, que os ferrolhos eram velhos.
  Quando entraram, viram pendurado na parede um magnfico
retrato do seu amo, tal como era quando o viram a ltima vez,
em todo o fulgor da sua deslumbrante juventude e beleza. No
cho jazia um homem morto, em trajo de cerimnia, com uma faca
cravada no corao. Estava mirrado, enrugado e tinha uma cara
repugnante. Examinaram-lhe os anis, e s ento o
reconheceram.



                    Scannerizao e Arranjo


                    Amadora, Agosto de 2000
